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Arquivos por dia13 13UTC maio 13UTC 2017

Filhos, melhor não tê-los

 

“Gosto muito de criança
Não tive filho de meu.
Um filho, não foi de jeito
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu”

Quem escreveu não foi o Manuel Bandeira, fui eu. Ele só furou a fila e postou em 1943, 16 anos antes de eu nascer.

Meu primeiro filho que não tive nasceu quando eu tinha dez anos. Irmão temporão, tomei para mim o encargo que ensiná-lo a andar, a falar – tudo, de preferência, antes do tempo.

Foi na minha clavícula que ele afiou as gengivas quando os dentes por nascer o atormentavam. Foi para ficar comigo que fugiu de casa pela primeira vez, aos três anos de idade.

Ensinei-lhe as primeiras palavras: “bola”, “casa” e “taquimecanógrafa”. Foi, seguramente, o mais jovem ser humano a pronunciar “taquimecatógrafa” desde a invenção da taquimecanografia.

Foi ele quem, incapaz de pronunciar meu nome, me rebatizou de Babu – nome que minha mãe adotou para mim e que só aos dois foi permitido usar. Agora, só a ele.

Tornou-se pai muito cedo, e aí fui pai e avô dentro do peito. Primeiro de Amanda, filha e afilhada, depois de Caio, e, por fim, da Julie.

Caio não nasceu louro como o pai, mas tinha olhos daquela cor indefinível entre o azul desconfiado e o cinza muito senhor de si.

Foi meu filhote, como tinha sido seu pai. Meu e da Benedita, minha cachorra, que também o adotou como seu, e o lambia inteiro, como se lambe um favo de mel (ele era um favo de mel).

Pois Caio também se tornou pai muito cedo, e olha eu aqui, bisavô dentro do peito, tendo de novo a mesma vontade de levar o Eros pela mão para os primeiros passos, e induzi-lo às primeiras palavras.

Não cometerei a maldade de fazê-lo repetir “bola”, “casa” e então deixá-lo atônito com a primeira proparoxítona. Mas na próxima oportunidade, vou ensiná-lo a falar “Nietzsche” e “Mies van der Rohe”.

Vão ser bem úteis no trato com o pai, futuro filósofo, e a mãe, futura arquiteta, de quem ele herdou o sorriso, o cabelinho de espiga de milho e os olhos, que não se sabe se são de um azul meditativo ou de um cinza folgazão.

De um pai que estuda Filosofia e uma mãe (linda, linda) que faz Arquitetura, o que mais se poderia esperar? Que me dessem para guardar no peito um bisneto chamado Eros, como aquele filho de Afrodite e Ares, que dispensa arco e flecha, e para atingir corações basta o olhar.

 

Primeira e única

 

Se há alguém cuja morte não foi em vão, esse alguém é dona Marisa.

Viva, sacrificou-se pelo marido e pelos filhos.
Morta, emprestou o cadáver para enfeitar um palanque e se transubstanciou em visionária política e investidora imobiliária.

Se do pequi se aproveita tudo, e do boi nada se perde, dona Marisa foi boi e foi pequi.
Dela nada de desperdiçou, dos chifres aos espinhos.

Boi, ralou nos tempos das vacas magras das greves do ABC, e pequi, viveu o suficiente para colher os frutos do seu trabalho.

Tirou cravos das costas do marido e lhe cortou as unhas dos pés. Aguentou seus porres, seus destemperos, suas escapadas, seu machismo.
Depois, ao seu lado dormiu no Palácio de Buckingham, bebeu champanhe, voou de jatinho e mandou erguer um galinheiro no Palácio da Alvorada.

Seu único pronunciamento digno de nota, enquanto viva, foi aquele em que sugeriu que os brasileiros descontentes com a corrupção introduzissem panelas em si mesmos por via anal.
Morta, passou a dar ordens às duas maiores empreiteiras do país, a planejar a perpetuação do legado do marido, a fazer investimentos imobiliários sem sequer consultar o cônjuge.

Em vida, dona Marisa não teve para o país qualquer utilidade.
Morta, descobriu-se que dona Marisa é que era primeira-dama de verdade.

Marisa Letícia é a nossa Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha.