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Arquivos por dia10 10UTC maio 10UTC 2017

Flagra

 

– Luís Inácio!

– Calma, Férgio, não é nada difo que vofê tá penfando.

– Como assim, Luís Inácio? Você na nossa cama com esse… esse… esse tríplex!

– Que triplexf? Efe triplexf não é meu. Eu nem conhefo ele.

– Se não conhece, o que é que ele está fazendo aí, quase pelado, só com uma cozinha Kitchens de R$ 380 mil, ao seu lado na nossa cama?

– Eu pofo efplicar, Férgio. Efe triplexf é da OAF, uma amiga minha.

– E…

– E eu tô tomando conta pra elef. Vofê fabe como eu fou fenfível. Não configo vê um tríplexf menof favorefido pela forte, de frente pro Guarujá, com elevador privativo, fauna e pifina, que eu me finto na obrigafão de oferefê ajuda desinterefada.

– Como eu tenho sido tolerante todos esses anos, Luís Inácio! Deixei passar tanta coisa. Fiz que não vi. Mas, para mim, agora chega. Acabou!

– Não fafa ifo, Férgio! Efe tripléxf não fignifica nada pra mim. É fó fexo, fó pra relaxá no final de femana, não rola fentimento.

– Você disse a mesma coisa quando te flagrei no Tinder com aquele sítio em Atibaia.

– Aquele fítio é coisa do pafado. Eu fó fui lá pra pafeá de pedalinho. Me perdoa, Férgio!

– Teve o caso do Delcídio…

– Não faf fentido efe feu fiúme do Delfídio. Eu já efcluí ele do meu Fafebook.

– Aí você tentou calar a boca do Nestor para ele não me contar teus podres.

– Por que vofê infifte nefe lanfe do filênfio do Ferveró? Efquefe ifo, Férgio!

– E veio o episódio do terreno do Instituto Lula…

– A fede do inftituto foi invenfão da Marisa, um romanfe pafageiro, fem compromifo.

– … e as palestras…

– Esse negófio de paleftra é converfa fiada. Vofê prefisa pará de dá ouvidof pra tudo que efa fofoqueira defa Forfa Tarefa fala.

– …e o caixa 2…

– Minha Nofa Finhora, em pleno féculo 20 vofê qué me pegá pra Crifto por causa de um… um… um benefifiozinho que eu tive, que todo mundo tem, até o FHFê teve.

– Século 21, Luís Inácio. Estamos no século 21. E para mim, chega! Deu!

– O que vai fê de mim, Férgio, fem o foro privilegiado, fem o triplexf, fem o fítio, fem o impofto findical que me fuftentou efef anof todof…

– Problema seu. Vá morar com seus amigos.

– O Fantana me facaneou, nem fala maif comigo. A Dilma Ruffeff, eu não entendo o que ela fala. Fobrou fó o Paloffi, maf ele anda com unf papo muito fufpeito ultimamente.

– Fora daqui, você e esse tríplex que nem com uma reforma de R$ 770 mil ficou apresentável!

(Luís Inácio sai, despenteado, de mãos dadas com o tríplex que não é dele. Na portaria, disca um número no celular.)

– Marfelo, aqui é o Luif Ináfio. Eu queria fabê fi…
– Pi pi pi…
– Marfelo… alô… Marfelo
– Pi pi pi…
– Defligou, o defgrafado. Nem a Odebreft qué maif nada comigo. Culpa fua, triplexf! Culpa fua!

O tríplex não diz nada. Olha o céu azul, sente o vento gelado de Curitiba em maio se infiltrar pelas suas esquadrias, enfia as mãozinhas nos bolsos e suspira.

– Difculpa, triplexf, eu não devia falá afim com vofê. Maf defde o inífio vofê fabia que eu não podia afumí nofa relafão. Vamo dá um tempo, efperá a fituafão melhorá, e aí vamo fê felif para fempre, fó nóf doif. Até lá, fi a gente fi cruzá por aí, vofê disfarfa. Maf faiba que vofê é o imóvel da minha vida.

O tríplex enrola um cachecol nas varandas (maio em Curitiba é glacial) e se afasta cabisbaixo, meditando nas ironias do destino, nas voltas que o mundo dá.

Luís Inácio vê que tem mensagem no zap, coça a barba e responde:

“Fítio, não feje ingrato. Nofa feparafão não é pra fempre. Tive que faí pra comprá figarro, maf fica fufegado que eu volto. Fi aparefê aí um tal de Férgio perguntando por mim, tu fica na tua. Tu é o imóvel dof meu fonho. Meu fítio, minha vida. Beijo no corafão!”.

Em casa, Sérgio decide que chegou a hora de levar Luís Inácio ao tribunal. Quer ver se ele vai ter coragem de negar tudo quando for confrontado com o batom na cueca, o tubo de vaselina pela metade e as manchas no lençol.

Cherchez la femme

 

Hoje ficamos sabendo que o Instituto Lula (fechado pela Justiça Federal por haver “indícios veementes de que crimes podem ter sido iniciados ou instigados na entidade) foi ideia da finada Marisa Letícia.

D. Marisa nunca me enganou.

Aquele jeitão de patroa, dona de casa, mãe de família, uma D. Nenê com mais botox, voltada para o marido e os filhos e preocupada, no máximo, com a macarronada de domingo, era cortina de fumaça.

O louro natural era camuflagem para uma estrategista empenhada em compartilhar experiências de políticas públicas de combate à fome e à pobreza com os países da África, promover a integração da América Latina e ajudar a fazer o resgate da história da luta pela democracia no Brasil.

Nisso, fez jus à tradição das mulheres da família Lula da Silva.

Foi de Dona Lindu, mãe do ex presidente, a ideia de comprar Pasadena e criar a refinaria de Abreu e Lima, aquela que deu um lucro negativo de vários bilhões à Petrobras.

No pau de arara em que vinha do sertão de Pernambuco com o filho no colo, Dona Lindu contemplou o semiárido e pontificou: “Êta lugarzim bão para um polo petroquímico em parceria com algum governo identificado com o socialismo do século 21!”

Dona Lindu podia ser analfabeta e desdentada, mas tinha tino. E o filho jamais esqueceu suas palavras.

Ele tampouco deixou cair no esquecimento o que lhe disse, ainda na lua de mel, sua primeira mulher, Maria de Lourdes. Quando Lula lhe perguntou “foi bom?”, ela respondeu que ele devia fazer uma parceria institucional com a Odebrecht, a OAS, a Camargo Correa e a UTC, usar do seu prestígio para alavancar negócios em Angola, investir em sondas de perfuração de pré-sal e dar palestras.

Infelizmente, nenhuma está viva para confirmar.

Pena mesmo.

Negócios imobiliários

 

Imagine que você, como eu, não tenha um triplex no Guarujá.

Não tem.
Não é seu.
Não te pertence.

Você precisa ler 100.000 páginas de documentos enviados pela Petrobras pra responder a um juiz que não, o triplex não é seu?

Agora suponha que você tenha ido ver o triplex.
(Eu vi muitos apartamentos antes de comprar o meu.
Vi, olhei, xeretei, perguntei, quis ver a garagem, falei com o porteiro – mas não rolou.)

Em algum desses apartamentos que você eventualmente tenha visitado, te ocorreu mandar a construtora mexer na sauna ou instalar um elevador privativo, antes de assinar o contrato?

Até posso imaginar a cara do corretor.

Ops, quem te levou pra ver não foi o corretor, mas o dono da construtora?
Acontece.
Comigo nunca aconteceu, mas acontece.

Acho que nem assim você mandaria mexer na planta se não fosse comprar o imóvel. Ou se ele já não fosse seu.

A menos, claro, que você seja arquiteto.
Arquiteto sempre quer mexer na planta, tem sempre uma solução melhor do que a dada pelo autor do projeto original (um arquiteto não tão bom quanto você, evidentemente).

Ok, assim como quem não quer nada, você (que não é arquiteto) sugeriu que botassem um elevador privativo, mexessem na sauna e instalassem uma cozinha modulada caríssima igual à que você tem num sítio que, por coincidência, também não é seu.

Sua mulher (ou seu marido) vai lá durante a obra e pede urgência, dizendo que vocês querem passar o reveiôn no cafofo.
A Construtora toca o pau, a obra fica pronta e antes de você se vestir de pai de santo e estourar a Sidra Cereser na sacada, a imprensa descobre e mela tudo.

Tem noivo que abandona a noiva no altar, confere?
A moça lá, maquiada feito apresentadora da Rede TV, os cajuzinhos e bem-casados já na bandeja, a Nova Schin no freezer e o moço dá pra trás.

É a coisa mais normal de acontecer – pelo menos em novela.

O que faz o dono da construtora (equivalente ao pai da noiva) neste caso?
Te mete um processo, cobra na Justiça os prejuízos (seja com o elevador, seja com os cajuzinhos) ou… deixa o apartamento fechado (acabam aqui as analogias com o casamento), não anuncia, esquece, releva, desapega?

Aí você pode dizer (e diz) que o problema não é seu, é do dono da construtora.
Ele não vendeu o apartamento pra outro porque não quis.
Você nunca falou que ia comprar – só tentou ajudar melhorando a planta e sugerindo uma cozinha igual àquela sua (que não é sua).

Você precisa esperar a impressão de 100.000 páginas de documentos da Petrobras (onde mesmo a Petrobras entra nessa história?) pra dizer isso ao juiz?

Precisa, pra ganhar tempo, porque o dono da construtora já disse que o apartamento é seu. Que ainda não está em seu nome, mas é parte do pagamento de uns favores (ilícitos) que você prestou a ele (e comprova os tais favores ilícitos).

Nem assim você precisa pedir três meses para ler 100.000 páginas de documentos da Petrobrás (a Petrobras tem a ver com os tais favores ilícitos) antes de ir dizer ao juiz que o seu apartamento não é seu.

Mas precisa de todo o tempo do mundo para não ser mandado pro Serasa, pro SPC, antes de dar o próximo golpe – que você só vai conseguir aplicar se não estiver com o nome sujo na praça.

Democrascismo

 

“A democracia, hoje, significa diretas-já e Lula presidente.”
(Rui Falcão, presidente do PT)

Deixa eu ver se entendi.
“Democracia” significa passar por cima da Constituição e impor o seu candidato (que nem pode ser chamado de candidato, já que se ele não for eleito não vale).

Num dicionário em que isso seja “democracia”, faz todo sentido dizerem que Lula é “honesto”, que houve um “golpe” e que todos os que discordam deles são “fascistas”.

É um dicionário de antônimos, e eles ainda não se deram conta.

~

“Enquanto estivermos assistindo o duelo entre justiça social e combate à corrupção em Curitiba esta semana, continuaremos sendo governados pela turma que não está preocupada nem com uma coisa, nem com a outra”.
(Celso Rocha de Barros, na “Folha de São Paulo”, 8/5/17)

O autor é apresentado como doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, mas alguém deveria desenhar para ele que:

1. Não há duelo. Há um juiz interrogando um réu, conforme manda a lei.

2. O combate à corrupção não se opõe à justiça social, mas à corrupção.

3. Não há qualquer denúncia, inquérito ou investigação contra Lula por praticar “justiça social”, mas por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, obstrução de justiça, tráfico de influência e organização criminosa.

3. Roubar bilhões, que poderiam ter sido usados em saneamento, infraestrutura, educação, saúde, tecnologia, é injustiça social.

4. “A turma” que hoje governa é praticamente a mesma que governava antes, expurgados os petistas. Essa, sim, nunca esteve minimamente preocupada nem com uma justiça social nem com combate à corrupção.

~

Se uma testemunha viu alguém matar alguém, e seu depoimento é consistente, e não há contradição com o que disseram outras testemunhas que também viram a cena, não é preciso um vídeo pra provar quem é o assassino. Simples assim.

E se o que dizem as testemunhas não conta, por que é que Lula arrolou 87?

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Não contente em publicar a asquerosa charge do Chico Caruso ontem, o Globo a republicou hoje, revista e ampliada (agora inclui o Lula, com cara de coitadinho).

Se ontem relutei em cancelar a assinatura, hoje não teve coré coré.

Case closed.

Código

 

Um lepitope foi resgatado das águas barrentas do Rio Guaíba, em Porto Alegre.
Nele foram encontradas as seguintes mensagens na pasta de Rascunhos:

~

De “Magali” para “Janete”: Oi, fofa. Adorei o casaquinho vermelho. O cabelo também ficou muito bom com esse corte. Quando é que sai o nosso pagamento?

De “Janete” para “Magali”: A ema gemeu no tronco do juremá. Mamãe subiu no telhado.

De “Magali” para “Janete”: Ótimo. Bom saber. Mas, e o pagamento, quando é que sai?

De “Janete” para “Magali”: Mandacaru quando fulora na seca é um sinal que a chuva chega no sertão. A águia pousou. Assim começou a tragédia no fundo do mar.

De “Magali” para “Janete”: Fofa, quando a gente combinou de se falar por este mail falso, usando metáforas, era pra despistar a polícia. Desse jeito você está despistando até eu mesma. A grana sai ou não sai?

De “Janete” para “Magali”: Gip gip nheco nheco, pé de pato mangalô três vez.

De “Magali” para “Janete”: Quer dizer que vai demorar, é isso?

De “Janete” para “Magali”: Não é que eu queira reviver nenhum passado nem revirar um sentimento revirado. Eu vou de escada pra elevar a dor.

De “Magali” para “Janete”: Na moral, a gente tem que repassar a bufunfa pra todos aqueles doleiros, entregar a parte do Vaca, do Italiano, pagar a Net, a Unimed e o condomínio, sem falar no seu vice decorativo, que tá na nossa cola querendo o que é dele. O que é que eu digo?

De “Janete” para “Magali”: Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso. O guarda civil não quer a roupa no quarador, meudeus onde vai parar, parar essa massa?

De “Magali” para “Janete”: Pois é, onde vai parar, né? Bora desenrolar logo esse depósito, please…

De “Janete” para “Magali”: Ele vai dar uma chinelada na barata dela.

De “Magali” para “Janete”: Ok, mas quando? Hoje já é dia 8, as contas venceram dia 5. Os fornecedores de mortadela tão ameaçando suspender a entrega, e você sabe que isso pode ser fatal no nosso planejamento estratégico.

De “Janete” para “Magali”: Mizifio do jeito que suncê tá só o home é que pode te ajudá.

De “Magali” para “Janete”: Quer dizer que temos que falar direto com o Chefe, o Brahma, o Amigo?

De “Janete” para “Magali”: Açaí guardiã, zoom de besouro, um ímã.

De “Magali” para “Janete”: Hã?

De “Janete” para “Magali”: Ah, era pra falar em código, né? Agora que eu entendi. Desculpa, não tô acostumada no que se refere a metáfora, que é uma coisa muito importante. E metáfora é o quê mesmo?

De “Magali” para “Janete”: Ok, esquece. Vamos combinar diferente. Pra avisar que vai liberar um pagamento, você cria um ministério. Qualquer um. Se for caixa 2, você fala a palavra “malfeito” num discurso. Se for propina da Petrobras, chame alguém de “querido” ou “querida” numa entrevista. E se tiver que dar algum pro Nine, diga que está “estarrecida”. Fechou?

De “Janete” para “Magali”: Positivo e operante. Raposa vermelha na escuta. Aonde a vaca vai, o boi vai atrás. Câmbio, desligo.

~

Agradece-se a quem puder ajudar a identificar a quem pertence o lepitope e a descriptografar as mensagens.