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Arquivos por dia7 07UTC maio 07UTC 2017

Charge

 

Nojenta a charge de hoje do militante Chico Caruso n’O Globo.

Ele já tinha se colocado de joelhos ao fazer um desenho da finada presidenta de paletozinho vermelho, com as mãos na cabeça exclamando “Santa Maria!” quando do incêndio da boate Kiss.
O foco da charge não era o horror da tragédia, mas a pretensa solidariedade da madame.

Depois chegou ao fundo do poço com a do Fidel Castro, em uniforme militar, deixando escapar uma furtiva lágrima pelo acidente da Chapecoense. O foco da charge não era, mais uma vez, a dor da tragédia, mas a pretensa humanidade post mortem do comandante.

Dilma se abalou pelas chamas em Santa Maria tanto quanto por Mariana sob a lama. E está para nascer quem vá explicar a relação do Comandante com a pane seca do avião da Lamia.

Hoje o cartunista extrapolou de vez a militância: desenhou o delator Renato Duque com nariz de Pinóquio – como se fosse ele o Mentiroso em Chefe, o Amigo, o Barba, o Brahma, o Nine.

“Charge” é uma crítica, um desnudamento. Tem que ser radical, não fundamentalista. Tem que ir ao cerne do fato, não distorcê-lo para que ele se encaixe numa narrativa preconcebida.

Renato Duque mentiu?
Marcelo Odebrecht mentiu?
Emílio Odebrecht mentiu?
Alberto Youssef mentiu?
Paulo Roberto mentiu?
Alexandrino Alencar mentiu?
Delcídio do Amaral mentiu?
Pedro Barusco mentiu?
Ricardo Pessoa mentiu?
Os 77 executivos da Odebrecht mentiram?
Palocci também mentirá, se delatar?

Que tal uma charge com uma centena de “mentirosos”, de nariz de Pinóquio, apontando o dedo para a alma mais honesta e mais inocente deste país?

Uma charge como a de hoje ficaria bem melhor em panfletos patrocinados tipo Carta Capital, jornalzinho da CUT ou de algum DCE de Ciências Sociais, daqueles que botam bigodinho nazista no Moro.

Pensando bem, é melhor não dar ideia pro Chico Caruso. Vai que ele ainda não sabe o que desenhar na quarta-feira, 10 de maio.

Chico

Fonte: O Globo 7 de maio

 

Le Globô

 

13 razões pelas quais não consegui assistir “13 reasons why”:

1. É chato.
2. É muito chato.
3. É chatíssimo.
4. É chato demais.
5. É uma chatice sem tamanho.
6. Repeti cinco vezes o mesmo argumento porque o seriado é, além de chato, repetitivo.
7. A trama não anda.
8. Os episódios se arrastam.
9. Os episódios são intermináveis.
10. Os episódios não chegam a lugar nenhum.
11. Ninguém age muito racionalmente.
12. Os personagens parecem um showroom de estereótipos de filme de adolescente.
13. É tão chato que dá vontade de cortar os pulsos.

~

O Globo transformou sua revista de domingo, aquela de ler na praia, e que era um revigorante exercício de escapismo, num suplemento feminino chamado “Ela”.

Por “suplemento feminino” entenda-se um caderno destinado a mulheres muito ricas, muito descoladas e muito fúteis – daí as matérias sobre alta gastronomia, móveis de vanguarda, maquiagem de abertura do Fantástico dos anos 70, e muito, mas muito anúncio (de joia, perfume, mais joia, shopping, joia de novo, mais alguns shoppings e algumas joalherias). É daquelas revistas que a Adriana Ancelmo tem que ler usando babador.

Tem, na capa, a Fernanda Lima de bunda de fora e escondendo a cara.
Mais metafórico, impossível.

O próximo passo deve ser mudar o nome do jornal, de O Globo para A Terra.

Empoderamento é bom, mas tem limite.

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A Globo é bipolar.

Ao mesmo tempo que oficializa o uso de “tô”, “tá”, “vamo”, “fazê”, “ficá” (“Oi, Maju, cumé quitá o tempo em São Paulo pro fim de semana?”, “Oi, Bonner, vamo vê aqui no painel”), ela parece exigir dos repórteres uma pronúncia em Francês de darrr inveja ao Truagrô e ao Jacã.

É um tal de “Emanuellll Macrrrrrron” pra cá e de “Marrrrrinnnn Le Pennnn” pra lá, que não vejo a hora de essas eleições na Frrrrônce acabarem pro país sair do noticiário.

Além de torcer para que o próximo atentado seja nalgum lugar de nome bem simples – porque se for na Rue de La Rochefoucauld, no Neuvième Arrondissement, eu vou começar a ver o Jornal da Record.

Folhices

 

Folha de São Paulo fazendo folhices:

“Decisão de Fachin sobre caso de Antonio Palocci revolta segunda turma do Supremo – A decisão do ministro Edson Fachin de empurrar para o plenário o habeas corpus de Antonio Palocci causou irritação generalizada na segunda turma do Supremo, que originalmente trata da Lava Jato. O único que neste momento atua como bombeiro no impasse é o decano Celso de Mello.”

1. A irritação não foi “generalizada na segunda turma”. Deve ter se limitado a Gilmar, Toffoli e Lewandowski – já que Fachin não pode ter ficado irritado com a própria decisão, e Celso de Mello, se atua como bombeiro, tampouco. Alguém precisa informar à Folha o que significa “generalizada”.

2. O ministro Fachin não “empurrou” para o plenário o habeas corpus de Palocci. Ele fez o que já fizeram outros ministros, que compartilharam com todos os demais membros da corte as decisões de maior repercussão, evitando decidir monocraticamente ou no âmbito da sua turma.

“Advogados da Lava Jato aproveitaram para jogar ainda mais gasolina no episódio, dizendo que Edson Fachin descredibilizou a segunda turma.”

3. Quem descredibilizou (existe este verbo?) a segunda turma foi o Trio Calafrio.

4. Que credibilidade têm os “advogados da Lava Jato” para credibilizar ou descredibilizar alguém?

“Integrantes da corte não minimizaram o incômodo e fizeram questão de lembrar que, ganhando ou perdendo no plenário, Fachin terá de conviver com a segunda turma até o fim da Lava Jato.”

5. “Integrantes da corte” se esqueceram que a segunda turma também terá que conviver com Fachin (e Celso de Mello) até o fim da Lava Jato (ou seja, ad seculum seculorum).

Justiça espetacular

 

Até que a defesa do Lula é bastante modesta e parcimoniosa.

Depois de arrolar 87 testemunhas (a lei fala em 8), pretende agora apenas que o depoimento da semana que vem se transforme em comício, seguindo uma tradição iniciada no velório de d. Marisa.

Quer que a câmera não fique focada só no ex presidente, como se ele fosse um investigado, um suspeito ou (toc toc toc) um réu. Alega que assim fica parecendo um interrogatório, e todos sabemos que se trata apenas de uma entrevista, um bate papo.

Quer que a câmera oscile entre Lula e os que perguntam, para que “sejam avaliadas a postura do juiz, do órgão acusador, dos advogados e de outros agentes envolvidos no ato, inclusive para fim de valoração da legitimidade do atos pelas superiores instâncias”.

E quer também levar suas próprias câmeras e marqueteiros.

Acho digno.
Justo.
E acho pouco.

Tinha que exigir que Lula ficasse na cabeceira da mesa.
Na cadeira mais alta.
Não aquela do Moro, mas uma que ele já usou, no Palácio do Planalto.

Acima dele, um holofote.
Atrás, uma bandeira (do PT, naturalmente).

Moro, mero figurante, ficaria num canto, numa cadeira mais baixa.
Sem encosto.

Poderia haver um ruflar de tambores antes de cada resposta.
Uma trilha sonora, tipo “Carruagens de fogo” ou “Assim falou Zaratustra”.
Atores globais (Letícia, Camila, Wagner, Monica, José, Tatá…) fariam uma performance carregando feixes de trigo, foices e martelos, como numa obra do realismo socialista.
Um ventilador estrategicamente colocado sopraria os cabelos de Lula, como num anúncio de xampu.

Moro apenas leria as perguntas, cuja formulação ficaria a cargo da defesa.

Lula deverá ter o tempo que quiser para responder.
Não poderá ser interrompido.
A não ser pelos aplausos da claque e por transmissões ao vivo das manifestações e quebra-quebra nos arredores.

Se Moro não aceitar, estará cerceando os direitos do acusado.
Se comportando pior que os milicos da ditadura.
Sua parcialidade estará escancarada.

E, claro, quando houver recurso (haverá recurso), este deverá ir direto para a segunda turma do STF.