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Arquivos por mêsmaio 2017

Lemmings e a zelite

 

O que nos separa não é uns carregarmos bandeiras bicolores e outros, bandeiras de uma cor só.
Nem lançarmos, uns, palavras – e, outros, rojões e coquetéis molotov.
Ou os de cá fazermos discursos inflamados, enquanto os de lá ateiam fogo ao Ministério da Cultura.

Separa-nos uma vírgula.

Naquele canto do ringue estão os “Fora Temer”. Neste aqui, os “Fora, Temer”.

Os foratêmer (vamos chamá-los assim, porque ali o que interessa é o som, não o sentido) não querem que alguém se vá, mas que alguém volte.

O seu “fora!” é uma invocação dissimulada, um “vinde” que não ousa dizer o nome.

Os “Fora, Temer” (com a vírgula, elitista, destacando o vocativo) querem que seja afastado o presidente que se mostrou indigno do cargo, e outro seja eleito em seu lugar – e esse outro ainda não se sabe quem é, não é ninguém previamente ungido, não é um predestinado.
O novo presidente está ainda no futuro, não já no passado.

Os foratêmer querem de volta o poder que perderam – aquele que, uma vez conquistado, nunca mais há de ser devolvido, pois lhes pertence por direito divino – porque são os mais justos, os mais dignos, os únicos capazes.

Os “Fora, Temer” querem que seja afastado aquele que traiu, burlou a lei, mentiu, se cercou de corruptos quando tinha o dever afastar-se deles.
Aquele que com o lábio superior bradava não compactuar com o crime, e com o inferior sussurrava conchavos subterrâneos com criminosos.

Os foratêmer creem (fingem crer) que o vice-presidente que elegeram é o responsável solitário pelos desmandos, irresponsabilidades e incompetências dos últimos catorze anos, e que a crise é culpa inteiramente sua.

Os “Fora, Temer” sabem que o vice-presidente em quem não votaram é o responsável solitário pela manutenção das práticas nefastas que deveriam ter sido banidas, e que o aprofundamento da crise política, em função disso, é culpa inteiramente sua.

Então, querem (queremos) todos a mesma coisa?
Não.
Não podíamos querer coisas mais distintas.

Queremos “Fora, Temer” para que as mudanças ocorram, para que o ar se renove, para que um grande expurgo nos livre desses políticos tóxicos, dessa zica pior que a zika, que transformou parte da população num bando de anencéfalos.

Os foratêmer querem dar uma segunda (uma terceira) chance ao erro.

Essa vírgula é que faz toda a diferença entre os que se dispõem a uma árdua caminhada montanha acima e essa gente hipnotizada pelo abismo.

Ô, dó!

 

O El País é uma espécie de Carta Capital com título menos pretensioso, mas o mesmo humor negro (involuntário).

Cada artigo é uma aula magna de desjornalismo.

1. “Um elefante matou um famoso caçador”.

Mentira.
Um elefante foi morto por um caçador. Ao cair (morto) esmagou (por pura ação da lei da gravidade) seu assassino.

2. “A vítima é o sul-africano Theunis Botha,”

Mentira.
A vítima é o elefante.

3. “Botha liderava um grupo de caçadores quando se depararam com uma aglomeração de elefantes que passou a persegui-los.”

Mentira.
Botha e os caçadores é que perseguiam os animais. Os elefantes (quatro fêmeas) apenas protegeram seus filhotes.

4. “O infeliz incidente ocorreu quando os caçadores se viram no centro de uma manada de filhotes de elefantes e foram atacados pelas fêmeas”

Mentira.
O infeliz incidente ocorreu quando uma mãe foi morta tentando proteger sua cria.

5. “A empresa foi criada por Theunis e sua mulher, Carike, em 1983, como fruto “do amor mútuo pela África e sua beleza natural”.

Mentira.
A empresa foi criada para matar elefantes, zebras, leopardos, búfalos e girafas.
Quem ama não mata.

~

A página do caçador (“um grande homem, com um fantástico senso de humor”) teria sido “inundada” de mensagens de condolências. Não há menção ao futuro do filhote órfão.

O jornal ainda informa, sem emitir qualquer juízo, que o caçador vítima de si mesmo era amigo de outro caçador encontrado recentemente dentro de um crocodilo. Não se informa se o animal foi assassinado ou morreu de indigestão.

Trilobitas

 

PEQUENA DISTOPIA MATINAL
(pra não falar de política)

Os trilobitas não foram extintos.
Desenvolveram um cérebro maior que o nosso e hoje dominam o planeta.

Nós, humanos, somos criados para fornecer o que eles chamam de “proteína animal” – ou seja, coxas, seios, nádegas, fígado, costela, coração, de que se alimentam.
Claro que podem comer milhares de outras coisas, mas coisas que não sentem dor são consideradas insossas.

Seus chefs participam de reality shows para ver quem melhor prepara uma língua, um nariz, uma glande, um clitóris (que eles consideram iguarias finíssimas).

As mulheres são inseminadas artificialmente para ter crias todo ano e os bebês, desmamados logo, a fim de que o leite seja industrializado. Alguns bebês sobrevivem em cativeiro, para abate posterior. Outros viram, literalmente, baby beef.

Nos enredamos nas redes que eles lançam para nos capturar, ou nas que esquecem por aí, e das quais não conseguimos nos desvencilhar. Morremos asfixiados, ou de fome.

Atiram em nós por esporte (e exibem, orgulhosos, nossas cabeças decepadas, que adquirem efeito decorativo nas paredes dos locais que habitam).

Somos guardados em ambientes gradeados para que admirem nossa beleza ou apreciem nossa voz. Aos domingos, os trilobitas levam os trilobitinhas para nos ver por trás das grades, e nos dar pipoca.

Fazem-nos de montaria e se divertem enquanto corremos em desespero. Provocam-nos, espetam agulhas em nós, e ao fim nos sacrificam no centro de uma arena, sob aplausos. Isso tem o nome de “tradição”.

Puxamos seus carros, aramos sua terra. Não poupam esporas e chicotes para entendermos o que querem que façamos.

Nos intoxicam com seus resíduos.

Usam-nos, sem anestesia, para testar drogas que possam salvar a vida dos da sua espécie. E então nos descartam, quando nosso organismo não responde mais .

Das nossas unhas e dentes, fazem colares. Nossos ossos e cartilagens são considerados afrodisíacos. Nosso cabelo reveste seus casacos (trilobitas adoram casacos de cabelo). Nosso pé esquerdo amputado lhes dá sorte.

Gostam de alguns de nós – que paparicam, levam para tosar o cabelo, mutilar as orelhas ou para passear na corrente – mas chutam, apedrejam e atropelam os outros – e quando não têm muito respeito por outro trilobita, chamam-no de “humano!”.

Fazem isso conosco porque seu deus – um trilobita imortal, que os criou à sua imagem e semelhança – lhes disse que eles têm alma, e nós, não. Que o planeta foi feito para eles, não para todas as espécies.

Os trilobitas de cérebro grande se consideram superiores, evoluídos – e essa superioridade, essa evolução, lhes permite tudo.

Direção e sentido

 

Quem tem dificuldade pra entender o dogma da santíssima trindade, em que um deus que se pretende único na verdade é três, pode se consolar com o paradoxo do metrô carioca, que consiste em uma linha só ser quatro.

Não é bem uma linha só: é uma linha e um rabicho.
Uma linha que se bifurca.
Uma linha e meia, digamos assim.
Mas que, em vez de se chamar “Linha 1” e “Meia Linha”, foram batizadas de Linhas 1 e 2.

A Linha 1 tem vinte estações, dez das quais são as mesmas da Linha 2.
Ou seja, metade da Linha 1 é Linha 2.
Já a linha 3… bem, a Linha 3 não existe.

Não dizem que há prédios que não têm o 13º andar por superstição? Pois o metrô do Rio é o único do mundo que tem uma Linha 4 sem nunca ter tido uma Linha 3.

E o que é a Linha 4? São 5 estações no final da Linha 1.

Deve ter ganho esse nome porque, depois de tanta obra e tanta grana, ficava feio dizer que estavam só espichando a Linha 1 (aquela que deveria se chamar Linha Única).

Não sei o que impediu que o Rio tivesse 41 linhas, em vez de 4 (como quer o governo do estado) ou 1,5 (como se deduz só de olhar para o mapa), O custo teria sido o mesmo, e nem estou insinuando que tenha havido algum eventual, suposto e hipotético superfaturamento nas obras.

Bastava que cada trecho entre uma estação e outra fosse considerado uma linha.
Assim, teriam sido inauguradas para as Olimpíadas as linhas 41 (entre Jardim Oceânico e São Conrado), 40 (entre São Conrado e Antero de Quental), 39 (entre Antero e Jardim de Alah) etc.

O problema de ter uma impressionante malha metroviária dessas, com 41 linhas, uma atrás da outra (em linha!), sem cruzamento algum, é que linhas de metrô costumam ser identificadas também por cores.
Além da Laranja (Linha 1), Verde (Linha 2) e Amarela (Linha 4), já estaríamos no âmbito das linhas Fúcsia, Rosa Chá, Azul da Prússia, Verde Musgo, Acaju e, quem sabe? até Incolor (a inexistente Linha 3).

Mas nem só de metrô vive o transporte público carioca.

Tem também o berritê, cujo nome deve vir do Francês “abarrotê” (que significa “entupido de gente”).
Este vem em dois modelos: o expresso (que não para onde você precisa) e o parador (que para onde você não precisa).

Completando a santíssima trindade do trânsito, existe o velitê (Veículo Lento sobre Trilhos), um bondinho que se arrasta mais devagar que a reforma política, e é um equivalente carioca às charretes de Paquetá e aos pedalinhos de Poços de Caldas.
É ideal para dar uma voltinha quando você não tem nada pra fazer e não quer ir a lugar nenhum.

(Agradeço ao Detran – que cassou minha carteira de motorista por causa de uma ligeira porém persistente incompatibilidade entre a minha velocidade ideal e a desejada pelos pardais – a oportunidade de ter conhecido o sistema de transporte público do Rio de Janeiro.

A carteira foi recuperada ontem, sã e salva, antes mesmo de me ter sido concedida a graça de conhecer o ramal de Saracuruna, dos trens da SuperVia. Fica pra próxima!).

Presença

 

Se meu pai fosse vivo, e minha mãe ainda pudesse receber presentes, hoje ele lhe daria um jogo de panelas, um conjunto de baldes, uma nova máquina de lavar.

Ela odiaria, sem dizer uma palavra.

Minha mãe sempre foi de calar os ódios, as paixões. Haveria de aceitar, com uma ironia (que meu pai não entenderia, ou fingiria não entender) e seria mais um dia das mães como os natais e aniversários – ganhando presentes para a casa.

Minha mãe era a casa.
Ainda é, só que agora uma casa vazia.

Meu pai era a visita, o hóspede, aquele a quem se serve à mesa, a quem se cata a roupa deixada no chão, e se fornece a toalha limpa, a camisa passada. Minha mãe era o motor que sustentava o avião no ar, a lei da gravidade que nos mantinha a todos com os pés no chão.

Passará o dia das mães em sua poltrona diante de uma tevê que passa filmes que não vê, em sua cama no quarto que um dia foi de seus pais e é seu há décadas, olhando um pomar que plantou e cujos frutos já não colhe mais, cercada de pessoas que a amam – mas com carteira assinada, décimo terceiro e horário de troca de turno.

Liguei para ela agora há pouco, disse quem eu era, desejei-lhe felicidades. Não sei se me ouviu: cantarolava.

Haverá de dormir boa parte do que seria o seu dia.

Em que viagens se aventura quando fecha os olhos, em que oceanos mergulha? Deve sonhar como sonham os fetos – sensações sem nome, sons sem sentido. Ou, ao contrário, é quando dorme que de novo tudo se encaixa, e os rostos tornam-se pessoas, ontem e amanhã se desprendem desse hoje onipresente de quando está em vigília?

Ali, de novo, me faz um curativo, penteia minha irmã, nos abençoa antes de dormir, conta o caso do namorado que teve e que morreu antes que se conhecessem, e canta

“Coitados dos cabritos de seu Valentim
Tá tudo saltando o corgo
Pra ir comer arroz de Niquita
Ainda vai chegar o tempo de nós comer bassora”.

sem explicar quem eram seu Valentim, Niquita e o que seria “bassora”.

Talvez durma e desperte sem se dar conta de passar de um estado a outro, assim como não saberá que hoje é o dia das mães, que é mãe e os filhos estão longe – só minha irmã, agora também mãe, a seu lado.

Um dia das mães sem presente (porque sem passado, sem futuro) e sem presentes, presa em seu labirinto onde não há lugar para meu pai e sua vocação para agradar com baldes e panelas, para o namorado morto (por engano) e de quem nunca viu o rosto, para a prima que se enforcou na noite de núpcias, a parenta que bebeu formicida no dia do casamento, o primo impotente e sua esposa morta virgem.

Chegou, para todos eles, o tempo de comer bassora.
Chegará para cada um de nós.

Filhos, melhor não tê-los

 

“Gosto muito de criança
Não tive filho de meu.
Um filho, não foi de jeito
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu”

Quem escreveu não foi o Manuel Bandeira, fui eu. Ele só furou a fila e postou em 1943, 16 anos antes de eu nascer.

Meu primeiro filho que não tive nasceu quando eu tinha dez anos. Irmão temporão, tomei para mim o encargo que ensiná-lo a andar, a falar – tudo, de preferência, antes do tempo.

Foi na minha clavícula que ele afiou as gengivas quando os dentes por nascer o atormentavam. Foi para ficar comigo que fugiu de casa pela primeira vez, aos três anos de idade.

Ensinei-lhe as primeiras palavras: “bola”, “casa” e “taquimecanógrafa”. Foi, seguramente, o mais jovem ser humano a pronunciar “taquimecatógrafa” desde a invenção da taquimecanografia.

Foi ele quem, incapaz de pronunciar meu nome, me rebatizou de Babu – nome que minha mãe adotou para mim e que só aos dois foi permitido usar. Agora, só a ele.

Tornou-se pai muito cedo, e aí fui pai e avô dentro do peito. Primeiro de Amanda, filha e afilhada, depois de Caio, e, por fim, da Julie.

Caio não nasceu louro como o pai, mas tinha olhos daquela cor indefinível entre o azul desconfiado e o cinza muito senhor de si.

Foi meu filhote, como tinha sido seu pai. Meu e da Benedita, minha cachorra, que também o adotou como seu, e o lambia inteiro, como se lambe um favo de mel (ele era um favo de mel).

Pois Caio também se tornou pai muito cedo, e olha eu aqui, bisavô dentro do peito, tendo de novo a mesma vontade de levar o Eros pela mão para os primeiros passos, e induzi-lo às primeiras palavras.

Não cometerei a maldade de fazê-lo repetir “bola”, “casa” e então deixá-lo atônito com a primeira proparoxítona. Mas na próxima oportunidade, vou ensiná-lo a falar “Nietzsche” e “Mies van der Rohe”.

Vão ser bem úteis no trato com o pai, futuro filósofo, e a mãe, futura arquiteta, de quem ele herdou o sorriso, o cabelinho de espiga de milho e os olhos, que não se sabe se são de um azul meditativo ou de um cinza folgazão.

De um pai que estuda Filosofia e uma mãe (linda, linda) que faz Arquitetura, o que mais se poderia esperar? Que me dessem para guardar no peito um bisneto chamado Eros, como aquele filho de Afrodite e Ares, que dispensa arco e flecha, e para atingir corações basta o olhar.

 

Primeira e única

 

Se há alguém cuja morte não foi em vão, esse alguém é dona Marisa.

Viva, sacrificou-se pelo marido e pelos filhos.
Morta, emprestou o cadáver para enfeitar um palanque e se transubstanciou em visionária política e investidora imobiliária.

Se do pequi se aproveita tudo, e do boi nada se perde, dona Marisa foi boi e foi pequi.
Dela nada de desperdiçou, dos chifres aos espinhos.

Boi, ralou nos tempos das vacas magras das greves do ABC, e pequi, viveu o suficiente para colher os frutos do seu trabalho.

Tirou cravos das costas do marido e lhe cortou as unhas dos pés. Aguentou seus porres, seus destemperos, suas escapadas, seu machismo.
Depois, ao seu lado dormiu no Palácio de Buckingham, bebeu champanhe, voou de jatinho e mandou erguer um galinheiro no Palácio da Alvorada.

Seu único pronunciamento digno de nota, enquanto viva, foi aquele em que sugeriu que os brasileiros descontentes com a corrupção introduzissem panelas em si mesmos por via anal.
Morta, passou a dar ordens às duas maiores empreiteiras do país, a planejar a perpetuação do legado do marido, a fazer investimentos imobiliários sem sequer consultar o cônjuge.

Em vida, dona Marisa não teve para o país qualquer utilidade.
Morta, descobriu-se que dona Marisa é que era primeira-dama de verdade.

Marisa Letícia é a nossa Inês de Castro, aquela que depois de morta foi rainha.

Depoimento

 

– Marisa, isso são horas? Onde você estava?

– No Guarujá.

– Com quem?

– Com o Léo.

– Fazendo o quê?

– Traindo você, como sempre.

– Mentira! Você estava é comprando triplex escondido, que eu sei.

– Luís, você me respeite. Veja se eu sou mulher que compra triplex escondido do marido!

– Você não me engana mais com essa história de adultério.

– Eu juro pela Rose que eu estava era traindo você!

– Você disse a mesma coisa quando mandou comprar aquele terreno pro meu instituto, e eu, idiota, acreditei.

– Ok, você quer a verdade, Luís?

– Toda a verdade, doa a quem doer. Você sabe que eu odeio mentira.

– Tudo bem. Você pediu. Eu nunca te traí.

– Eu sabia! Sua mentirosa, dizia que estava me traindo e na verdade estava fazendo transações imobiliárias…

– Não só transações imobiliárias. Eu também atuava na área petroquímica.

– Marisa!

– Mandei construir a refinaria de Abreu e Lima, junto com o Hugo Chávez.

– Mas você me dizia que o Hugo Chávez era só uma transa eventual…

– Mentira. Éramos parceiros comerciais.

– Não me diga que o Bittar também não era seu amante!

– Não era. Negociei com ele a compra do sítio em Atibai…

– Pára! Não quero ouvir mais nada! Quer dizer que todas as traições esses anos todos eram só uma desculpa para encobrir suas atividades junto a grandes empresários, testas de ferro e líderes bolivarianos?

– Sim, Luís. Eu e Fidel nunca tivemos nada. Foi tudo pelo porto de Mariel.

– Não! O que eu fiz a Deus para merecer isso? Minha própria esposa, uma… uma… lobista e empreendedora internacional!

– E não só. Eu também sou capitalista.

– Não repita isso, Marisa!

– Ca pi ta lis ta. Sabe aquelas palestras gratuitas que você dava para melhorar as condições do proletariado na África? Eu cobrava milhões por elas.

– Não!

– Sim.

– Marisa, como você pôde fazer isso comigo? E todos os que votaram em mim, o que vão pensar agora?

– Tem isso também. Eu trapaceei. Comprei horário na TV, comprei voto e enchi de grana de caixa 2 o rabo dos marqueteiros. Aquela eleição que você acha que ganhou… ela foi comprada por mim.

– Marisa, eu quero o divórcio.

– E tem também a Dilma.

– Não me diga que você não tinha um caso com a Dilma!

– Não, não tinha. Fui eu que a indiquei para a presidência, e, antes que você pergunte, sim, eu tenho influência no PT.”

~~~

– E foi assim, doutor Sérgio. Exatamente assim que eu descobri tudo. O senhor me dá agora um abatimento na pena? Posso ficar em prisão domiciliar no meu sítio em… quer dizer, no sítio de uns amigos? E posso usar a tornozeleira no pulso? É que eu sinto uma falta do rolex…

Flagra

 

– Luís Inácio!

– Calma, Férgio, não é nada difo que vofê tá penfando.

– Como assim, Luís Inácio? Você na nossa cama com esse… esse… esse tríplex!

– Que triplexf? Efe triplexf não é meu. Eu nem conhefo ele.

– Se não conhece, o que é que ele está fazendo aí, quase pelado, só com uma cozinha Kitchens de R$ 380 mil, ao seu lado na nossa cama?

– Eu pofo efplicar, Férgio. Efe triplexf é da OAF, uma amiga minha.

– E…

– E eu tô tomando conta pra elef. Vofê fabe como eu fou fenfível. Não configo vê um tríplexf menof favorefido pela forte, de frente pro Guarujá, com elevador privativo, fauna e pifina, que eu me finto na obrigafão de oferefê ajuda desinterefada.

– Como eu tenho sido tolerante todos esses anos, Luís Inácio! Deixei passar tanta coisa. Fiz que não vi. Mas, para mim, agora chega. Acabou!

– Não fafa ifo, Férgio! Efe tripléxf não fignifica nada pra mim. É fó fexo, fó pra relaxá no final de femana, não rola fentimento.

– Você disse a mesma coisa quando te flagrei no Tinder com aquele sítio em Atibaia.

– Aquele fítio é coisa do pafado. Eu fó fui lá pra pafeá de pedalinho. Me perdoa, Férgio!

– Teve o caso do Delcídio…

– Não faf fentido efe feu fiúme do Delfídio. Eu já efcluí ele do meu Fafebook.

– Aí você tentou calar a boca do Nestor para ele não me contar teus podres.

– Por que vofê infifte nefe lanfe do filênfio do Ferveró? Efquefe ifo, Férgio!

– E veio o episódio do terreno do Instituto Lula…

– A fede do inftituto foi invenfão da Marisa, um romanfe pafageiro, fem compromifo.

– … e as palestras…

– Esse negófio de paleftra é converfa fiada. Vofê prefisa pará de dá ouvidof pra tudo que efa fofoqueira defa Forfa Tarefa fala.

– …e o caixa 2…

– Minha Nofa Finhora, em pleno féculo 20 vofê qué me pegá pra Crifto por causa de um… um… um benefifiozinho que eu tive, que todo mundo tem, até o FHFê teve.

– Século 21, Luís Inácio. Estamos no século 21. E para mim, chega! Deu!

– O que vai fê de mim, Férgio, fem o foro privilegiado, fem o triplexf, fem o fítio, fem o impofto findical que me fuftentou efef anof todof…

– Problema seu. Vá morar com seus amigos.

– O Fantana me facaneou, nem fala maif comigo. A Dilma Ruffeff, eu não entendo o que ela fala. Fobrou fó o Paloffi, maf ele anda com unf papo muito fufpeito ultimamente.

– Fora daqui, você e esse tríplex que nem com uma reforma de R$ 770 mil ficou apresentável!

(Luís Inácio sai, despenteado, de mãos dadas com o tríplex que não é dele. Na portaria, disca um número no celular.)

– Marfelo, aqui é o Luif Ináfio. Eu queria fabê fi…
– Pi pi pi…
– Marfelo… alô… Marfelo
– Pi pi pi…
– Defligou, o defgrafado. Nem a Odebreft qué maif nada comigo. Culpa fua, triplexf! Culpa fua!

O tríplex não diz nada. Olha o céu azul, sente o vento gelado de Curitiba em maio se infiltrar pelas suas esquadrias, enfia as mãozinhas nos bolsos e suspira.

– Difculpa, triplexf, eu não devia falá afim com vofê. Maf defde o inífio vofê fabia que eu não podia afumí nofa relafão. Vamo dá um tempo, efperá a fituafão melhorá, e aí vamo fê felif para fempre, fó nóf doif. Até lá, fi a gente fi cruzá por aí, vofê disfarfa. Maf faiba que vofê é o imóvel da minha vida.

O tríplex enrola um cachecol nas varandas (maio em Curitiba é glacial) e se afasta cabisbaixo, meditando nas ironias do destino, nas voltas que o mundo dá.

Luís Inácio vê que tem mensagem no zap, coça a barba e responde:

“Fítio, não feje ingrato. Nofa feparafão não é pra fempre. Tive que faí pra comprá figarro, maf fica fufegado que eu volto. Fi aparefê aí um tal de Férgio perguntando por mim, tu fica na tua. Tu é o imóvel dof meu fonho. Meu fítio, minha vida. Beijo no corafão!”.

Em casa, Sérgio decide que chegou a hora de levar Luís Inácio ao tribunal. Quer ver se ele vai ter coragem de negar tudo quando for confrontado com o batom na cueca, o tubo de vaselina pela metade e as manchas no lençol.

Cherchez la femme

 

Hoje ficamos sabendo que o Instituto Lula (fechado pela Justiça Federal por haver “indícios veementes de que crimes podem ter sido iniciados ou instigados na entidade) foi ideia da finada Marisa Letícia.

D. Marisa nunca me enganou.

Aquele jeitão de patroa, dona de casa, mãe de família, uma D. Nenê com mais botox, voltada para o marido e os filhos e preocupada, no máximo, com a macarronada de domingo, era cortina de fumaça.

O louro natural era camuflagem para uma estrategista empenhada em compartilhar experiências de políticas públicas de combate à fome e à pobreza com os países da África, promover a integração da América Latina e ajudar a fazer o resgate da história da luta pela democracia no Brasil.

Nisso, fez jus à tradição das mulheres da família Lula da Silva.

Foi de Dona Lindu, mãe do ex presidente, a ideia de comprar Pasadena e criar a refinaria de Abreu e Lima, aquela que deu um lucro negativo de vários bilhões à Petrobras.

No pau de arara em que vinha do sertão de Pernambuco com o filho no colo, Dona Lindu contemplou o semiárido e pontificou: “Êta lugarzim bão para um polo petroquímico em parceria com algum governo identificado com o socialismo do século 21!”

Dona Lindu podia ser analfabeta e desdentada, mas tinha tino. E o filho jamais esqueceu suas palavras.

Ele tampouco deixou cair no esquecimento o que lhe disse, ainda na lua de mel, sua primeira mulher, Maria de Lourdes. Quando Lula lhe perguntou “foi bom?”, ela respondeu que ele devia fazer uma parceria institucional com a Odebrecht, a OAS, a Camargo Correa e a UTC, usar do seu prestígio para alavancar negócios em Angola, investir em sondas de perfuração de pré-sal e dar palestras.

Infelizmente, nenhuma está viva para confirmar.

Pena mesmo.