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Arquivos por mêsabril 2017

Greve Geral

 

A propósito do quê mesmo é essa “greve geral” de amanhã?

Ah, sim, é contra a reforma trabalhista, essa que vai tirar os direitos do trabalhador brasileiro.

Posso estar muito errado, mas acho que o maior direito do trabalhador é o trabalho.

Todo o resto (décimo-terceiro, férias, aviso-prévio, FGTS, seguro desemprego etc) é decorrência desse direito primordial – pelo único e bom motivo de que, sem trabalho, nada disso existe.

O que a reforma pretende é conter o desemprego, facilitar novas contratações. Ela vai beneficiar o desempregado (que precisa recuperar o emprego), e desonerar o empregador, para que ele possa empregar mais.

Quem já está de carteira assinada perde o direito a férias remuneradas? Não.
Perde o aviso prévio? Não.
Perde o décimo terceiro? Não.
Perde o fundo de garantia? Não.
Perde o seguro desemprego? Não.

Haverá, isso sim, relações mais flexíveis, possibilidade de fracionamento de férias, aumento da jornada de trabalho (remunerada) e um freio na indústria dos processos trabalhistas (antes de entrar com uma ação na Justiça do Trabalho será necessária conciliação prévia, o que é a coisa mais óbvia do mundo, já que só se deve judicializar uma causa após esgotadas as possibilidades de negociação).

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(Uma vez, em Cuba, conversei com uma senhora, daquelas que defendiam o regime de Castro com unhas e dentes. Ela usou um argumento que me sensibilizou, à época: “No comunismo, não tenho manteiga, mas todos têm pão”.

Os esquerdistas daqui, que vão contra a reforma trabalhista, querem é garantir a manteiga, e que se danem o padeiro e quem ainda não tem pão.)
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A greve também é contra a reforma da previdência, que vai nos fazer trabalhar até meia hora antes da missa de sétimo dia.

Posso também estar muito enganado de novo, mas a questão da previdência é matemática.

E, até onde sei, não existe matemática de direita e matemática de esquerda.

Num país em que há cada vez mais pessoas se aposentando e vivendo mais, e o número dos que contribuem não aumenta na mesma proporção, a conta não fecha nem a pau.

O rombo da Previdência já é bilionário. Sem a reforma, chegará a proporções dílmicas (uma coisa dílmica é uma coisa absurda, sem noção).

Todos terão que trabalhar mais e contribuir mais, se quiserem manter os benefícios para si e para os que estão na fila.

Claro que poderia haver um refresco se os grandes devedores da Previdência fossem cobrados, se acabassem os privilégios dos políticos, se houvesse mais controle sobre as fraudes. Mas chegaremos lá.

A greve de amanhã, que pretende parar o Brasil, quer é isso mesmo: parar o Brasil. Impedi-lo de andar.

É feita por gente que apoiou quem nos jogou nesta crise, e não se dispõe a fazer qualquer sacrifício para nos tirar dela.

Ambas as reformas (trabalhista e previdenciária) são necessárias faz tempo, e foram empurradas com a barriga por FHC, Lula e Dilma – muito mais interessados na “governabilidade”, na popularidade e na reeleição do que em garantir um futuro sustentável.

A greve de amanhã é pelo Brasil de ontem, organizada por quem acha que erro pouco é bobagem.

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(Ironicamente, quem vai fazer o que tem que ser feito é o Temer, um vice decorativo (como Itamar), sem ambições eleitorais (como Itamar), herdeiro de um caos político e econômico (como o Itamar).

Itamar nos legou o Plano Real, o bote salva-vidas que nos resgatou dos naufrágios de Sarney e Collor.
Temer pode fazer o mesmo, depois da Sodoma e Gomorra de Lula e do apocalipse de Dilma.

Algo me diz que devemos prestar mais atenção aos vices, esses inúteis. Inúteis até que se precise deles).
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Esta greve, na véspera de um feriadão, misturando no mesmo saco quem quer cruzar os braços com quem não quer trabalhar, é de um oportunismo exemplar.

É também um ato de desespero. Vai que com as reformas o Brasil melhora, e fica provado, mais uma vez, que estivemos por treze anos no caminho errado?

Nove e um

 

Nove verdades e uma mentira

1. pi = (4/1)-(4/3)+(4/5)-(4/7)+(4/11)-…
2. t’ = (t-vx/c^2)/(1-(v/c)^2)^(1/2)
3. N = R* x fp x ne x fl x fi x fc x L
4. E = -(1/2)\sum^{i=0}^{N} s_i s_j
5. eiθ = cosθ + isinθ.
6. V -E + F = 2
7. 1 = 0,999999999999999999…
8. Fg = M1 . M2 / (r²)
9. ( ω – Rav ) / t = R
10. exp(i*pi) = -1

Nove palavras erradas e uma certa

1. Maizena
2. Muçarela
3. Paralização
4. Sombrancelha
5. Mixirica
6. Iorgute
7. Salchicha
8. Asterístico
9. Vasculante

9 petralhas e 1 coxinha

1. Alcione
2. Marina Lima
3. Carlinhos Brown
4. Zélia Duncan
5. Dira Paes
6. Juliana Paes
7. Osmar Prado
8. Leandra Leal
9. Matheus Nachtergaele
10. Marcelo Adnet

Nove deuses já aposentados e um ainda em atividade

1. Thor
2. Osíris
3. Zeus
4. Tezcatlipoca
5. Marduk
6. Gucumatz
7. Ormuzd
8. Taranis
9. Bai-Ulgan
10. Sarasvati

Nove formas de dizer “nove” e uma forma de dizer “um”

1. Bederatzi
2. Devet
3. Iny
4. Sivy
5. Dziewięć
6. Disa
7. Dokuz
8. Një
9. Salapan
10. Ayisishiyagalolunye

Para quem não acertou nenhum acima, uma última chance.
Nove filmes com a palavra “Um” e um filme com a palavra “nove”:

1. Um dia de cão
2. Um sem juízo, outro sem razão
3. Um copo de cólera
4. Um dia muito especial
5. Um convidado bem trapalhão
6. Um amor para recordar
7. Um tira da pesada
8. Um casal quase perfeito
9. Nove semanas e meia de amor
10. Um drink no inferno

A mãe de todas as perdas

 

Certa feita (sempre quis começar um texto com “certa feita”, e finalmente consegui), uma famosa filósofa búlgara disse “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou vai perder. Vai todo mundo perder.”

Foi injustamente criticada pelos não muito afeitos à dialética, aqueles adictos a platitudes lógicas, incapazes de entender que ela apenas repercutia e lapidava algo já esboçado por Camões (“amar é cuidar que se ganha em se perder”).

Nas eleições de 2018, veremos que a sábia búlgara profetizava certo por raciocínios tortos. Com a ligeira diferença que quem ganhar ou quem perder não vai ganhar e vai perder – exceto um, que vai perder e vai ganhar.

Lula vai ganhar de qualquer jeito.

Se for preso (oremos!) ou impedido de concorrer por já ter sido condenado por qualquer dos seus inúmeros crimes, ganhará o status de vítima, de perseguido político, aquele que teria sido eleito com 120% dos votos válidos, mas não deixaram.

Poderá apoiar alguém (seu fiel capanga Ciro Gomes, por exemplo) ou lançar um poste (quem elegeu Dilma elege qualquer coisa, até um Haddad). Ciro ou poste ganhando, Lula chefiará o bando mesmo estando trancafiado na Papuda, como tantos chefes de facção. Se seu candidato perder, terá sido vítima de um processo infame movido pelas forças reacionárias etc etc etc.

Se não for preso nem condenado e puder se candidatar, Lula já terá ganhado por se provar acima da lei. Será o próprio “comigo ninguém pode”.

Perdendo a eleição, não aceitará o resultado. Acusará os outros candidatos (sejam quais forem, inclusive o já não tão fiel capanga Ciro Gomes) de haver recorrido aos expedientes dos quais ele próprio foi useiro e vezeiro. E se proclamará campeão moral do pleito.

Mas se ganhar (pé de pato mangalô treis vêis!), aí, sim, ouviremos que venceu não só uma disputa eleitoral, mas a mãe de todas as eleições. Que teve contra si um golpista, um juiz com sede de vingança, uma mídia vendida, hordas de coxinhas batedores de panela, a zelite, os lacaios do imperialismo – e, ainda assim, triunfou, porque é o ungido.

Lula ganhando – e ganhará, ganhe ou perca -, perdemos todos.

Perdemos porque ele terá conseguido transformar um país numa rinha de galos, reduzindo o debate político ao “quem não está comigo está contra mim”, fazendo de parte da intelectualidade uma vanguarda do atraso, banalizando o mal da corrupção. E terá feito germinar a semente de uma maldição análoga ao peronismo, que assombrará o país ainda por muitas gerações, contaminando a política, as instituições, o pensamento.

Com Lula no jogo, quem ganhar e quem perder, inclusive quem ganhar e quem perder, vai ganhar e vai perder. Porque Lula vai ganhar, ganhando ou perdendo. E todo mundo vai perder.

E o pior nem é isso: derrota mesmo vai ser a gente ter que enfiar a viola no saco e admitir que Dilma, pelo menos uma vez na vida, e ainda que involuntariamente, disse algo que fazia sentido.

Escrito na estrelas

 

Me divirto muito quando ouço falar em Ciência e Religião caminhando juntas.

Elas até se encontram, mas como se encontram presa e predador, vítima e verdugo – uma delas não sobrevive para contar o final.

A princípio, não deveriam ser incompatíveis. A Ciência trata do mundo natural; a Religião, do sobrenatural.
A Ciência tem por objeto o corpo; a Religião, a alma.
Uma cuida do que existe, e a outra se encarrega do faz de conta, da fantasia.

O problema começa quando a Religião decide interferir no real (tentando impedir que a Terra gire em torno do Sol, por exemplo) ou quando se manipula a Ciência para validar ilusões (alma, reencarnação, poder da fé).

A água, em condições normais de temperatura e pressão, ferve a 100 graus centígrados e congela a 0 grau. Isto é Ciência.

Fosse Religião, a água mudaria para o estado sólido a 0 grau e para o gasoso a 100, do mesmo jeito. Mas se não mudasse, é porque Deus tinha outros planos. Ninguém se preocuparia com o pequeno detalhe das “condições normais de temperatura e pressão”. No entanto, ele é que faz a diferença.

É por não se contentar com explicações mágicas (“Porque Deus quis assim”, “Está escrito nas estrelas”) e investigar, teorizar, buscar comprovação, que parte da Humanidade avança, levando a reboque os que creem que a vida é um milagre, que bater três vezes na madeira os livrará dos perigos, e que a divindade que criou bilhões de galáxias ouvirá suas preces para que seu time vire o jogo aos 45 do segundo tempo ou o marido largue a bebida.

A Ciência nos diz que somos parte da Natureza, que somos constituídos de átomos e energia, que somos um elo numa cadeia. Que não estávamos aqui, como vida, há alguns milhões de anos e, como espécie, há alguns milhares – e que talvez não estejamos mais quando alguns milhões (ou milhares) tiverem decorrido.

A Religião quer nos fazer crer que somos o auge de uma suposta “criação”. Que fomos feitos à imagem e semelhança de um “criador”. Que somos os “filhinhos do papai” enquanto todas as outras formas de vida existem apenas para nos servir.

É o que diz o livro que nós mesmos escrevemos e que nos justifica: “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!”. Dominai, escravizai, abusai, matai, pois sois únicos: tendes alma.

A Ciência nos mostra que outras formas de vida sentem medo, dor, compaixão, raiva, repulsa, gratidão, surpresa, simpatia, alegria, tristeza, indignação. E aponta que uma ética deve reger nossas relações, e que se impusermos nossa vontade egoísta acabaremos por destruir a nós próprios.

A Ciência não trabalha com o conceito de “alma” – conceito tão arbitrário quanto os de “raça superior”, “povo escolhido”, “direito divino”.

É por acreditar que temos alma que nos permitimos causar tanta dor aos animais.
É por achar que a divindade que nos deu essa alma é superior às outras divindades que causamos tanto mal uns aos outros.

O corpo (a Ciência) nos iguala. A alma (Religião) nos divide.

É acreditar que temos alma que nos faz tão desalmados.

Autobiografia minha, por mim mesmo

 

1.

É difícil começar uma autobiografia. Eu diria que é um parto, por isso muitos começam por aí. Começarei um pouco antes – nove meses antes daquela manhã do dia 22 do último abril dos anos 50.

Eu era um espermatozoide sem maiores ambições. Entre tantos milhões, e havendo apenas uma vaga, não alimentava esperanças de lograr êxito no desconhecido mundo exterior, que era o interior daquela que seria minha mãe.

Até ali, minha vida tinha sido um saco. Sem porra nenhuma pra fazer, tomei uma decisão que mudaria meu destino: enfiei o rabão entre as pernas e piquei a mula.

No meio do caminho, quando eu já enxergava uma luz do fim do túnel, senti o chão tremer, e vi uma porrada de outros espermatozoides vindo, alucinados, na minha direção. Apertei o passo e, antes de todos eles, me atirei rumo ao desconhecido.

2.

Eu suava mais do que deveria estar suando o meu futuro pai.

Custei a ter coragem de abrir os olhos.
Que lugar era aquele?
Que perigos me espreitavam?

De repente, uma visão me paralisou o corpo todo – menos o rabão, que insistia em tremer como só os rabões dos espermatozoides sabem.

À minha frente, lânguido e sedutor, imenso como a corrupção no governo Lula, estava o óvulo.

O óvulo! O óvulo em toda a sua grandeza, o que inaugurou em mim uma atração irresistível e um complexo de inferioridade que nem muitos anos de análise conseguiriam debelar.

Poderia lançar-me em sua direção, impetuoso e viril, mas preferi ser cavalheiro, ganhar no charme, na astúcia, não no grito. Já ia perguntar o que alguém assim fazia num lugar como aquele quando vi que se aproximava a horda de outros espermatozoides, arfantes.

Eram eles ou eu.

Lancei ao óvulo um olhar de desculpas pelo meu ato rude, e, derrubando duzentos concorrentes com uma rabada só, fui de cabeça, deixando para trás o rabão incômodo, e começando vida nova.

3.

Os primeiros momentos foram complicados.
Fundi-me de tal forma ao óvulo que minha cuca quase fundiu também.
Foi minha primeira crise de identidade.
Quem era eu, agora? Meu “eu” desaparecera, como que tomado pelo “ele” do óvulo. Até então um haploide convicto, eu começava a ver o mundo por um novo ângulo, e entendi que me tornara outro. E, ainda por cima, diploide.

Comecei a me dividir, a evoluir assustadoramente – e sem ninguém por perto pra elogiar e dizer “olha como esse zigoto, oops, essa blástula, oops, essa gástrula está crescendo!”.

Fui me modificando, tomando forma. Do meu pai, tinha notícias esporádicas, que não chegavam a me incomodar. Mas ficava penalizado com o destino daqueles espermatozoides que, sonhadores como eu fora, se perdiam no vazio, na ilusão de um óvulo já fecundado. A vida de espermatozoide é foda. Eu sei experiência própria.

4.

Quando dei por mim, já era um feto. Um fetão daqueles, que dava cabeçadas no barrigão da minha mãe (ela pensava que eram chutes – santa materna ignorância!), e assim vivi meses a fio. Comendo (pelo umbigo!), dando “chutes” (com o cotovelo!), e dormindo.

Até que aquela vida também cansou. Eu queria ver gente, dar um basta à solidão. Juntei minhas coisas (uma placenta e um cordão umbilical) e, mais uma vez, decidi sair de casa.

Me despedia do útero quando me lembrei que era feriado, dia de Tiradentes. Tudo bem que eu me sentisse um herói, mas pensei: e se, em homenagem, me batizam de Joaquim? E será que é bom nascer num feriado, e nunca ter festa de aniversário na escola?

Achei melhor esperar mais um dia e, às 6 da manhã de um outonal 22 de abril, o céu azul como os olhos que eu queria ter tido, a brisa leve brincando de pique com as nuvens, pardais gorjeando nas árvores do Parque Municipal, vim ao mundo, por tortuosos caminhos, por lugares que eu só voltaria a frequentar muitos anos depois.

Botei a cabeça pra fora, contemplei a sala de parto da Santa Casa, vi a cara das pessoas e quis voltar.

E se eu herdasse o nariz da minha mãe? Ou a futura careca do meu pai?

Não me deixaram recuar, e eu abri o berreiro. Chorei feito um recém-nascido.
Nesse dia, Belo Horizonte ganhou mais um cidadão do mundo, e o mundo, mais um belorizontino.

Nenhuma verdade, novecentas mentiras

 

O que é a mentira? perguntaria um personagem de Shakespeare, possivelmente erguendo uma taça de vinho com veneno.
E não responderia.
Iniciaria um solilóquio, como convém a um personagem shakespeariano – ainda mais se for desses que erguem taças de vinho envenenado, seja para sorver um gole e desabar do trono na cena final, seja para entregá-la ao irmão, logo no primeiro ato.

Mentira é tudo aquilo que contradiz o que penso, o que digo, o que sinto– mesmo quando minto. Ou principalmente quando minto.

A mentira não se opõe à Verdade, mas à minha verdade. E poucas coisas estão mais distantes da Verdade que as verdades de cada um.

É mentira que Lula tenha um sítio na pequena e pacata cidade de Atibaia. Ele passa lá, com a família, os finais de semana – mas há quem passe fins de semana na praia, e nem por isso a praia se torna sua propriedade.

Há quem mande flores e um cartãozinho para agradecer a hospedagem, mas a mulher de Lula preferiu mandar fazer uma obra de um milhão de reais, em agradecimento pelos domingos à beira do lago, com direito a pedalinhos.

É mentira que tenha um apartamento de três pavimentos no Guarujá. Esteve lá, gostou da vista, não gostou do resto, e a empreiteira, por conta própria, mandou reformar tudo, inclusive trocando uma sauna por um depósito porque a primeira dama não queria sauna. Sabe como é, o mercado imobiliário não anda muito aquecido, e estão fazendo tudo pra agradar aos clientes em potencial. Até mesmo obras de R$ 700 mil.

É mentira que tenha pedido uma mesada para o irmão. Se a ex maior empreiteira do país costuma distribuir essas benesses , talvez para purgar os próprios pecados ou para se habilitar junto à Receita Federal como instituição filantrópica, problema dela.

É mentira que tenha solicitado um empurrãozinho na empresa do filho ou um apigreide na do sobrinho. É promissor o filão do futebol americano aqui na terra do Dunga, e natural que se convide para parcerias em grandes obras no exterior, com um aporte de 20 milhões, uma empresa sem qualquer experiência no ramo e aberta há poucos meses.

É tudo mentira.
Que o Rio São Francisco não tenha sido transposto.
Que tenha havido caixa dois nas campanhas.
Que se soubesse dos desvios bilionários em estatais.
Que bilhões tenham sido drenados para ajudar parceiros ideológicos na Venezuela, em Cuba, Equador, El Salvador.

É mentira que alguma nomeação tenha sido tentada para dar a alguém um foro que o livraria do Moro.
É mentira tudo que arranhe a narrativa mítica do nordestino pobre de mãe analfabeta que etc etc etc

Uma mentira não se mantém de pé se não tiver a seus pés um séquito de outras mentiras, cada uma das quais necessitará (a isso se chama “márquetim de rede”) também a sua própria teia de mentiras.

Só na brincadeira virtual é que há muitas verdades e uma única mentira.

Comunhão de bens

 

– Que bom que não precisamos brigar. Você fica com o apartamento e as prestações que falta pagar, eu fico com o carro quitado.

– Claro que não precisamos brigar. Seus discos são seus, meus discos são meus. Meus livros continuam comigo, os seus continuam com você. Civilizadamente.

– Exato. Não é porque o casamento não deu certo que vamos protagonizar uma cena de pastelão na hora do divórcio. Somos descolados, desapegados, finos, elegantes e sinceros.

– E você pode visitar a Cate Blanchet e o Cat Stevens sempre que quiser. Eu assumo as despesas da pet shop, e você traz Whiskas quando der. Afinal, estamos nos separando mas não precisamos ficar inimigos.

– Odeio essa coisa de casal que separa e joga fora uma relação que deu certo por tantos anos.

– Eu também. Acho um horror.

– Só vou te pedir uma coisa: não vá mais ao Revolution.

– Por que não? Nossos amigos frequentam e…

– É o MEU bar. Você só conheceu porque EU te levei lá. O Revolution fica comigo.

– É? Então pode desmarcar suas consultas com o Jorge. Ele é o MEU dentista.

– Eu estou no meio de um clareamento e…

– Pois acabe o clareamento e não volte mais lá. É COMIGO que o Jorge vai ficar. Se eu souber que você indicou o Jorge pra alguma futura namorada, eu…

– Você o quê? O Jorge se tornou meu amigo e…

– Só falta você dizer que vai continuar amigo da Cris e do Fabão! Eles foram MEUS padrinhos. Você só ficou amigo deles por MINHA causa.

– Pois eu vou continuar amigo não só da Cris e do Fabão como de todos os SEUS amigos que ME adicionaram no feicebuque e ME seguem no instagrã.

– É? Ai de você se postar alguma coisa do Peter Singer, de quem você nunca nem tinha ouvido falar até EU te apresentar!

– Eu posto o que quiser. Você me bloqueie se não quiser ver.

– E volte a comer carne, porque você virou vegano por MINHA causa!

– Ah, é? Você posava de ateia, de esquerdista e feminista quando eu te conheci. Se eu souber que você rezou, bateu panela ou raspou o suvaco, eu entro na justiça! E os gatos agora ficam COMIGO!

Nove inverdades e uma desmentira

 

1. Fui eleita com 54 milhões de votos. Meu vice não teve nenhum.

2. Nunca soube de qualquer malfeito na Petrobras.

3. Eu e o presidente Lula sempre tivemos um ótimo relacionamento.

4. Jamais conversei com Mercadante sobre propina.

5. Encontrei Marcelo Odebrexe uma única vez, no banheiro do aeroporto no México, onde eu tinha ido tirar água do joelho. Não entendi nada do que ele falou, porque ele fala muito enrolado.

6. Minha campanha não teve caixa 2.

7. A dieta Ravenna me deixou mais jovem.

8. Não falo da minha vida afetiva, mas posso garantir que não saúdo a mandioca faz tempo.

9. Eu quis nomear o presidente Lula pra Casa Civil porque ele tinha perfil para o posto.

10. Não pedalei, não quebrei o país, jamais usei casaquinho vermelho e o impítimã foi golpe.

Ilações da Carochinha

 

A defesa de Rapunzel informa que ela jamais permitiu o acesso do Príncipe aos seus aposentos no alto da torre. São inverídicas e infundadas as acusações de que ele, ou qualquer outro homem, já tenha tocado num fio de cabelo. Ela não é a “Trepadeira” que aparece nas planilhas. Sua virgindade será comprovada em juízo e seus difamadores, processados.

A defesa da Madrasta informa que não procedem as acusações de trabalho escravo e bullying, que sempre tratou Gata Borralheira como se fosse da família, e que as delações premiadas de suas filhas Anastácia e Griselda carecem de provas.

A defesa do Lobo Mau informa que tudo não passa de ilações, com o fim espúrio de denegrir sua imagem. Seu contato com a Vovozinha foi apenas institucional. Desconhece o Lenhador, a senhorita Chapeuzinho e nunca teve qualquer encontro com os Três Porquinhos, devendo as denúncias se referir a algum homônimo.

A defesa de Ali Babá informa que ele não conhece nenhum dos quarenta ladrões e que sua fortuna vem de uma herança que recebeu, pela internet, de um milionário africano de quem ele também nunca tinha ouvido falar. Ele recebeu o e-mail, depositou os dois mil dólares para despesas, e os milhões de dólares foram depositados em sua conta.

A defesa de Dick Vigarista informa que seu cliente é inocente, que não cometeu nenhuma irregularidade na corrida eleitoral maluca, que as acusações são mentirosas, que sempre agiu de acordo com a lei, e que a verdade prevalecerá.

A defesa de Esqueleto alega que ele é vítima de uma campanha difamatória por parte da elite de Etérnia, que teme perder seus privilégios em Grayskull caso ele concorra á sucessão do Rei Randor, a quem se refere como golpista. Todas as doações de sua campanha foram legais e declaradas ao TSE.

A defesa do sr. Burns informa que ele recebeu com absoluta perplexidade e indignação a acusação de que teria colocado em risco a saúde dos habitantes de Springfield e que tenha usado de seu poder para corromper autoridades locais. Sua conduta sempre foi baseada em princípios éticos e sempre colaborou com a Justiça.

A defesa de Gargamel informa que seu cliente só vai se manifestar depois que tiver acesso ao conteúdo dos autos.

A defesa de Maga Patalójika não foi encontrada e a do Coringa preferiu não comentar.

Afecto

 

Um ganho colateral de ter amigos portugueses é que eles me lembram meu avô.

Em plenos anos 70, meu avô ainda escrevia optimo, afecto – as consoantes mudas pendendo anacronicamente das palavras feito pincenês, relógios de algibeira, bigodes retorcidos, camafeus. Como os portugueses, meu avô era impermeável aos acordos ortográficos.

Nascido no Brasil e tendo morrido sem por jamais os pés em Portugal, ele dizia Purtugal, à portuguesa, talvez por ter ouvido assim do seu pai – este, sim, português de fato (de fato e de facto, que lá esse “c” transforma um terno num acontecimento), imigrante do século 19, e certamente pródigo em vogais átonas transgêneras e consoantes mudas – ou nem tão mudas assim.

Fosse português e fosse vivo, meu avô talvez ainda hoje usasse escudos, não euros. Não me recordo dele falando em cruzeiros: dinheiro lá em casa sempre foi contado em contos de réis. Para a paçoca, o pirulito ou o gibi, ganhávamos dele dez merréis, ou um tostão, às vezes um níquel – centavos, jamais.

Cresci com essa contabilidade dupla, a da unidade monetária oficial – e inconstante, oscilando entre cruzeiros novos e velhos, cruzados velhos e novos, cruzeiro de novo, por fim real, que só servia para o palpável – e a afetiva, a dos eternos, perenes, incorruptíveis contos de réis, que compravam o que o dinheiro não podia comprar.

Meu avô jamais vestiu jeans ou camiseta – apesar de ser, quando nasci, mais jovem do que sou hoje, eu que vivo de tênis e bermuda.

Na minha idade, já era um senhor de idade – como era moda à época.

Vivia de branco, dos pés à cabeça (à cabeça, não: os cabelos não embranqueceram), e gostava de andar de meias e chinelos, os poucos cabelos vaidosamente fixados com creme, um pente preto sempre a postos no bolso de trás.

Não envelheceu. Foi velho desde que o conheci até quando o vi pela última vez. Não apenas velho, mas sempre o mesmo velho – sem que a palavra velho implique aqui em qualquer demérito.

Era velho porque essa era a natureza dos avós, num tempo em que as crianças eram crianças, os adultos eram adultos e os velhos eram velhos.

O mundo era simples assim, as coisas em seus lugares, antes desse descalabro de nossos pais se tornarem avós e inventarem de morrer (morrer era atributo dos desde sempre mortos, aqueles dos retratos, das histórias) e começarem a nos chamar, a nós, às crianças, de senhor e senhora, e termos dores nas costas, nos joelhos, e não sabermos onde deixamos os óculos.

Me lembro do meu avô quando me olho no espelho após o banho, e o cabelo jogado para trás e colado ao crânio mostra as mesmas entradas.
Quando me vejo agarrado a um hífen que já devia ter ido fazer companhia aos dinossauros.
Quando arrasto sem querer os chinelos (havaianas, diga-se a meu favor).
Quando percebo como pode ser eloquente e dizer tanto uma consoante muda.