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Arquivos por mêsmarço 2017

Abril

 

“Abril começa oficialmente amanhã”.

Tratado como mês, com início e fim, espremido entre março e maio num calendário, abril é uma mentira.

Não à toa, começa, “oficialmente”, num Primeiro de Abril, e encerra os trabalhos às vésperas de um Primeiro de Maio.

~

Abril é tudo, menos um mês, desses com trinta dias, dias úteis, sábados, domingos, feriados.

É uma circunstância, um ânimo, uma descarga de serotonina.

É abril quando todas as manhãs são manhãs de domingo, e as tardes caem como nas canções de bossa nova.

É abril quando se respira como se o ar tivesse sido inventado agora.

É abril quando a vida pulsa aqui, não lá fora.

~

Abril começa quando o sol se cansa de ser calor e se permite ser só luz.

E termina quando é preciso fechar a janela para dormir, quando é preciso fechar os olhos para sonhar, quando o corpo já não se aquece por si.

Após cada chuva de março o céu já se pinta de abril.
E é ainda abril quando, em maio, cada hora inventa outro azul.

Por isso abril é o mais cruel dos meses – pode durar um instante, pode nunca existir.
“Germina lilases da terra morta, mistura memória e desejo.”

~

Abril dura tanto quanto uma paixão.

Pode começar no Carnaval e morrer na quarta-feira, ou se estender até São João.

Ou durar a vida inteira – por que não?

~

(Para a Ana Carolina, que deu o mote, e pro T.S. Eliot, que, possivelmente a contragosto, forneceu a citação).

Porque depois de amanhã já é abril

 

Enquanto isso, lá fora o sol bate com vontade na cara das árvores, na Pedra da Gávea, nas ondas que batem nas pedras, nos ônibus que sobem sob a sombra pela Gávea. Lá fora, enquanto isso, há encontros fortuitos, olhares de promessa, um esbarrão na fila do caixa e um pedido esfarrapado de desculpas que há de terminar ainda hoje em beijo. Há, lá fora, o vento de um outono que ainda engatinha e um céu que ensaia o azul que terá em maio e aquelas cores todas que só se entregam aos olhos quando é abril.

E você aí, sentada.

Lá fora estão todas as possibilidades inclusive as mais improváveis as mais implausíveis as francamente impossíveis, e que nem por isso hão de deixar de acontecer se tiverem de acontecer. Fora do alcance dos seus sentidos o mundo gira supersônico, as partículas se embaralham subatômicas, a atmosfera se tinge de ultravioleta – e você aí.

Sentada.

Larvas despertam no casulo, gatos se espreguiçam nos terraços, formigas se lambuzam num torrão de açúcar, uma gaivota emerge do mar qual Vênus com um peixe resplandecente e atônito no bico e você aí, sentada, alheia à gavinha do maracujá que enlaça a grade da varanda, à gota de suor que escorre pelo dorso do vendedor de mate, à moça que aperta um violoncelo entre as coxas e poliniza o ar com uma bachiana.

E você.
Aí.
Sentada.

Bilhões de neutrinos trespassaram seu corpo e daqui a pouco cruzarão os anéis de Saturno e você aí sentada. Um enxame de gotículas coloridas sobrevoa em arco as cataratas do Iguaçu e você aí, sentada. Milhões de óvulos são assediados por bilhões de espermatozoides que não sabem ainda que foram vãos os beijos as juras as mentiras a dor o espasmo e você aí sentada.

Um refugiado se afoga e você aí sentada.

Um colar de pérolas se parte e você aí sentada.

Uma criança soletra a primeira sílaba e você aí sentada.

À espera talvez que a felicidade, qual Testemunha de Jeová, bata à sua porta.

Virada

 

Viram o 3 x 0 no Paraguai?
O 4 x 1 no Uruguai?
O 2 x 0 no Peru?
O 3 x 0 na Argentina?
O 5 x 0 na Bolívia?
O 2 x 1 na Colômbia?
O 3 x 0 no Equador?

Quem mudou?
O Paraguai, o Uruguai, o Peru, a Argentina, a Bolívia, a Colômbia, o Equador… ou o Brasil?

Com Dunga no comando, não iríamos a lugar nenhum – nem com Neymar jogando tudo que sabe, o time adversário se empanturrando de friboi na véspera do jogo ou o juiz fazendo a nosso favor o que fez pelo Vasco contra o Flamengo domingo passado.

Tínhamos jogadores, talento, norráu, garra, tradição.
Mas com aquele técnico, a bola era quadrada, a grama era um campo minado.

Sem Dunga, ainda não ganhamos a Copa de 2018, mas já estamos a caminho da Rússia.

Como jogador, Dunga “nunca passou de um Caçapava com ABS e vidro elétrico” (Renato Maurício Prado dixit).
Como técnico, daria um esforçado gandula do Íbis.

Dunga era a Dilma da seleção.
Dilma era o Dunga do Brasil.

Uma Kombi morro acima com o freio de mão puxado.
Uma novela da Glória Perez com 150 personagens (e o Eri Johnson de protagonista).
Uma picanha bem passada feita com carne de soja.

Temer não é nenhum Tite, mas é o que tem pra hoje.
Tem o rabo preso, a perna curta, as mãos sujas, o olho maior que a barriga, é um bunda mole e não se cansa de dar tiro no pé – mas com ele o jogo anda.
Virou o 7 x 1 sem precisar cavar pênalti (não foi golpe!).

Deve perder o mandato, rebaixado junto com a falecida, pelo antijogo da campanha de 2014.

Logo agora que fizemos as pazes com a grama, a bola e boa parte da torcida – e podemos sonhar em como seria se Roberto Carlos nunca tivesse se abaixado para amarrar a chuteira, Branco não tivesse tomado aquela água batizada na Argentina, Neymar tivesse driblado a joelhada do Zúñiga, a Chapecoense tivesse chegado atrasada e pegado outro voo.

Mas bola pra frente.
Há a grande chance de o Congresso – se os foratêmer vencerem – escolher um Felipão da vida para técnico tampão.

Resta torcer para que seja o Felipão de 2002, não o de 2014.

Só pra saber…

 

Algumas perguntas (retóricas) que não querem calar

1.
Quem cuidava dos filhos da Adriana Ancelmo quando ela estava em Paris? Quando ia ali na esquina comprar uns diamantes?

Como os filhos vão namorar, combinar uma ida ao cinema, atualizar o instagrã, pedir uma pizza – sem telefone ou internet em casa?
Como vão vão fazer o dever de casa sem o Google?

Será que ela pensou neles quando optou pela senda do crime?

Quem vai ficar na porta recolhendo os celulares de quem entra?
Se entra celular em Bangu e Pedrinhas, como não vai entrar no Leblon?

Todas as outras presas com o mesmo direito foram libertadas?
Quando o caçula fizer 12 anos, ela volta pra prisão?

2.
Quem vai julgar as contas do Estado do Rio, com 70% dos juízes do TCE na cadeia?

3.
Quando Trump vai revogar a lei que aboliu a escravidão nos EUA?

4.
Que chances de classificação teria o Brasil se Dunga ainda fosse o técnico da seleção?

Que chances de recuperação teria o Brasil se Dilma ainda estivesse no poder?

5.
Quando uma bactéria se espalha, é correto dizer que viralizou?

Autor! Autor!

 

1.
O Veríssimo, nos tempos em que ainda era legível, escreveu sobre uma homenagem que recebeu dos formandos de uma universidade.

Não me lembro se no convite ou no discurso, eles mencionavam um poema inspirador do ex-genial cronista gaúcho – por acaso um fuleiríssimo poema de autoajuda que LFV jamais havia escrito, mas que circulava pela internet, atribuído a ele.

Politicamente, preferiu não dizer a verdade. Agradeceu penhorado, e ficou devendo esta ao verdadeiro autor da geringonça.

2.
O compositor Antônio Maria (“Ninguém me ama”, “Manhã de carnaval”) também era cronista, e foi certa vez confundido com Carlos Heitor Cony. Uma loura estonteante o abordou, declarou ser sua fã (na verdade, fã do Cony) e acabaram num motel. Dias depois, os dois cronistas se encontraram e Antônio Maria contou ao amigo o ocorrido. Cony quis saber o mais importante: como tinha sido? Antônio Maria respondeu: “Você brochou, Cony”.

3.
As historinhas acima me vêm à mente agora por ver textos meus atribuídos a terceiros, ou a ninguém.

Apesar de ser pensamento corrente na internet, textos não brotam do nada, não surgem por geração espontânea. Por trás deles há sempre uma vontade, uma necessidade, uma voz. Ou – por incrível que pareça – um autor.

Outro dia bati boca com um sujeito que insistia que um texto meu era dele. Tanto era que assinou embaixo, recebia e agradecia os elogios e ficou furioso quando apareci para usurpar “sua” criação.

Ontem, uma senhora preferiu excluir o texto a incluir a autoria. E outro sujeito, mesmo sob fogo cerrado de amigos meus, também se recusa a capitular.

4.
Daí que acordei esta madrugada, no meio de um pesadelo.

Tinha ido ao Convento do Carmo com a proposta de fazer um estudo das modificações que o edifício sofrera ao longo dos anos.

Para isso, levei comigo um livro raro, um cartapácio que eu havia comprado por uma pequena fortuna, e onde o convento aparecia bem diferente do que é hoje. As freiras não conheciam o livro, pediram para vê-lo e que eu voltasse outra hora.

Voltei, e fui informado pela Irmã Camila (algum amigo freudiano que me ajude a interpretar essa parte?) que não, não permitiriam meus estudos. Pedi o livro de volta e a tal Irmã Camila me disse que o meu livro era dela. Que nunca fora meu.

Revirei os bolsos atrás da nota fiscal – e eu não guardo nota fiscal nem na vida real, ia guardar em sonho? Quis ligar para a polícia, quis falar com a madre superiora, mas era a palavra de um ateu sem provas concretas contra a de uma carmelita jurando por Deus.

Eram 2:30 da madrugada. Levantei, bebi água, chequei mensagens no celular e estou acordado até agora – e sem meu livro.

5.
Não, ninguém recebeu homenagem alguma por nenhum texto meu.

Ninguém, que eu saiba, brochou em meu nome.

Num próximo pesadelo eu pego de jeito a Irmã Camila (por que uma carmelita? por que este nome?) e ela me devolve o meu livro por bem ou por mal.

É só um mimimi, coisa de quem não dormiu direito e ainda vai ter que ir ao Itaú e ser inapelavelmente mal atendido.

O que consola é saber que ainda não se atribuiu nada do que escrevi ao Paulo Coelho. Porque aí eu desisto.

O Candidato da Manchúria

 

Já terceirizamos a educação dos filhos, colocando-o nas escolas ou diante do videogueime.
Já terceirizamos a alimentação, comendo nos restaurantes a quilo e fuditruques.
Terceirizamos a limpeza da casa com as diaristas.
Os cuidados com a roupa com a lavanderia.
O bom gosto com o personal stylist.

Terceirizamos o autoconhecimento com os livros de autoajuda.
Terceirizamos o raciocínio com os formadores de opinião.
Terceirizamos a vida nas redes sociais.

Quantos casamentos só sobrevivem porque a paixão foi terceirizada?

Na manifestação de domingo (uma forma de não terceirizar nossos valores), a Denise Ahrends Walter deu o mote: na falta de alternativas para ocupar a Presidência em 2018, por que não terceirizar a política – e chamar o Obama?

Ele está desempregado, tem experiência, jogo de cintura e bons contatos no mercado.

Num país mestiço que sempre entregou a presidência a homens brancos e mulheres búlgaras, Obama seria o primeiro presidente afrodescendente, aquele em quem você bate o olho e (ao contrário de quase todos que vieram antes) te parece brasileiro.

Ele não fala Português, mas a Dilma também não falava.
E, como o Temer, vem com uma primeira-dama de tirar o fôlego.

Depois de Marisa, a santa, e Marcela, a donzela, Michelle, ma belle, nos mostraria o que é ser uma primeira dama de primeiro mundo, sarada e pensante.

Estaríamos a salvo de ter um presidente alcoólatra (como Jânio e Lula), adúltero (como Getúlio, JK, FHC e mais umas três dúzias de outros), mal encarado (como Médici, Figueiredo) caozeiro (como Collor), ou de bigode (como Floriano, Epitácio, Costa e Silva, e Sarney).

Sem contar que cairia a zero a possibilidade de o presidente ser visto em público com uma mulher sem calcinha ou – pior! – saudando a mandioca.

Dois mandatos sem ter recebido um centavo da Odebrecht também contam ponto, né não?

Terceirizemos.
Contratemos um head hunter que analise o currículo do candidato, faça uma entrevista, avalie as referências.
Nada de palanque com artista pago, nada de sanduíche de mortadela ou marqueteiro recebendo via caixa dois.

A democracia levada ao seu ponto mais alto, que é escolha do melhor, do mais talhado para o cargo, não de quem mente com mais desenvoltura ou acusa com mais desfaçatez.

Tudo bem, pode não ser uma ideia matadora.
Estávamos sob o sol inclemente de uma manhã de domingo em Copacabana, e isso afeta o raciocínio.

Mas por um momento foi tentador pensar em como seria bom se não tivéssemos que nos deparar, em 2018, com uma urna contendo as fotos de Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Jair Bolsonaro e Luís Inácio.

Pode não ser o Obama.
Mas será que o Papa Francisco, o Justin Trudeau, o Chuck Norris ou o Dalai Lama topam?

À la carte tupiniquim

 

– Garçom, me veja o cardápio, por favor.

– Nós não trabalhamos mais com cardápio, senhor.

– Vocês usam uma tabuleta, você me fala os pratos?

– Não, senhor, trabalhamos agora com lista fechada.

– Como assim, “lista fechada”?

– O senhor escolhe o restaurante (no caso, escolheu o nosso), e o nosso gerente escolhe o que o senhor vai comer.

– E o que é que eu ganho com isso?

– O senhor não precisa perder tempo escolhendo.

– Mas como vou saber o que vou comer?

– O senhor come o que o gerente achar que o senhor deve comer.

– Mas baseado em quê, se ele não sabe do que eu gosto?

– Baseado nos critérios dele.

– Que são…

– Ele pode querer que sejam os pratos mais caros. Ou os que usam ingredientes que estão com prazo de validade perto de vencer. Ou os que já estão prontos. Ou os que dão menos trabalho. Isso não cabe ao senhor decidir.

– Então eu me sento e…

– Senta, come o que o gerente quiser, e paga a conta.

– E se eu não gostar do prato?

– Nós não trabalhamos com essa possibilidade, senhor. Gostando ou não, vai pagar a conta do mesmo jeito.

– Bem, acho que vou então para outro restaurante…

– Todos agora trabalham assim, senhor.

– Mas quem decidiu isso?

– O Sindicato dos Donos dos Restaurantes.

– Pois então eu não vou mais comer fora. Vou comer em casa.

– Não tem problema, senhor. Posso trazer a conta?

– Que conta? Não vou comer nada…

– A do Fundo Suprapartidário dos Restaurantes. Comendo aqui ou em casa, o senhor tem que financiar os restaurantes.

– Por que é que eu tenho que financiar vocês?

– Porque se não financiar por bem, nós vamos conseguir o financiamento de outra forma, que é assaltando o senhor – um método também conhecido como Caixa Registradora Dois. O senhor pagar diretamente é muito mais civilizado, não acha?

– E quem me garante que eu pagando vocês não vão me assaltar do mesmo jeito?

– Ninguém, senhor. Ah, não aceitamos cartão. E os 10% são obrigatórios.

Verdade

 

Reclamamos dos petistas, dos seus dogmas, mantras e “raciocínios” em looping, e acabamos por não nos aperceber de quantas vezes agimos da mesma forma.

Um dos nossos dogmas de fé é acreditar que Lula mente.
Sempre.
Repetidamente. 
Irremediavelmente.
Em moto perpétuo.

E não é bem assim.
Quando Lula diz uma verdade, é bom parar e ouvi-lo.
Por mais que doa (e dói) nos nossos corações e mentes.

Lula disse: “Nem o Moro, nem o Dallagnol, nem o delegado da Polícia federal têm a lisura, a ética e a honestidade que eu tenho nestes 70 anos de vida.”

Nós, coxinhas, nos arrepiamos dos pelinhos da canela até os da virilha. E erguemos os olhos e as mãos aos céus, clamando por misericórdia (mesmo eu faço isso, mirando o céu de Darwin, Copérnico, Freud e Galileu). Mas por quê, se é a mais pura verdade?

Ninguém tem mesmo a lisura, a ética e a honestidade do Lula.

Nem o François Duvalier, que saqueou o Haiti, tinha a honestidade do Lula – porque, por ser o Haiti tão miserável, não havia tanto o que saquear quanto aqui.

Nem o Jean-Bedel Bokassa, que se proclamou imperador da miserabilíssima República Centro-Africana, e fez construir para si um trono de ouro, tinha a ética do Lula – porque ele jamais negou que seu trono e seus palácios fossem seus.

Nem o Beslusconi, o das festinhas de bunga-bunga, nomeou a amante para chefiar o escritório da presidência (talvez por ele ser Primeiro Ministro, mas dá na mesma).

Nem a Cristina Kirchner armou palanque e fez discurso eleitoral no velório do marido.

Para nossa alegria, nem o Moro, nem o “moleque” Dallagnol nem o delegado da PF têm a lisura, a ética e a honestidade do Lula.

É o que nos salva. Já pensou se tivessem?

Operação título

 

Enquanto isso, no QG da PF…

– E aí, pessoal, o que temos pra hoje?

– Chefe, estou trabalhando na “Operação Pé no Chão”. É para quando forem investigar a indústria de calçados.

– Muito bom, Peçanha. E, você, Noronha?

– Eu trouxe várias opções. Tem “Operação Dourando a Pílula”, para algum escândalo na indústria de medicamentos, “Operação Livro Aberto”, para corrupção em livrarias e editoras, e “Operação Alcatraz”, para uma denúncia de ocultação de álcool.

– “Operação Alcatraz” parece bom, mas o trocadilho já está meio gasto, não? Sem contar que os jornais vão ter que explicar, como fizeram nas operações Cui Bono e Aleteia, e quando o nome é ruim e tem que explicar, o impacto da coisa vai por água abaixo.

– Taí, Peixoto! Que tal “Operação Água Abaixo” para… para… hmmm, deixa eu ver, uma investigação de desvio de água durante a crise hídrica? Contaminação de lençol freático? Fraude na água tônica?

– Excelente, Padilha. Temos agora uma equipe afiada, e que sabe que um nome mal dado pode por toda uma operação a perder.

– Chefe, eu andei pensando em “Operação Rei de Copas” para desvio de grana na CBF durante a Copa de 2014, ou para a máfia das redes de vôlei na praia de Copacabana, e “Operação Bacalhau” para quando forem investigar o Eurico Miranda.

– Só se tiver uma “Operação Carniça” para investigar o Flamengo!

– Calma, investigador Pacheco e investigador Miranda! Já falei que aqui não se discute futebol. Religião e política, tudo bem. Mas futebol, não!

– Foi ele quem começou!

– E você, investigador Bicalho?

– Pois é, Chefe, estou com bloqueio criativo. Queria um nome bacana para uma operação voltada para maracutaias na concessão de emissoras de rádio, tretas nas isenções fiscais, mas…

– Bicalho, você é novo aqui, e talvez ainda não tenha percebido que não é assim que as coisas funcionam. Primeiro você arruma um bom nome, e só então inventa uma investigação que se encaixe, entendeu? Ou como é que você acha que temos sempre nomes tão geniais?

– Olhaí, Bicalho, ontem eu crei a “Operação Meia Boca” para a formação de cartel nas fábricas de facetas e próteses dentárias, “Operação Dedo Duro” para o superfaturamento dos exames de próstata, a “Operação Casa de Ferreiro” para o contrabando de Ferrero Rocher e “Operação Gente Fina” que tanto pode ser para a exploração da anorexia nas redes sociais, ou para tráfico de guloseimas em clínicas de emagrecimento, ou para erros médicos nas cirurgias bariátricas de socialaites.

(Abre-se a porta com estardalhaço, e entra o delegado Alvarenga, de paraquedas, equipamento de rapel e touca ninja)

– Peixoto, estourou um escândalo de tráfico de influência, desvio de finalidade, contabilidade criativa, violação de sigilo e troca de bebês nas empresas de telefonia celular. Temos um nome para isso?

– Pô, Alvarenga, vamo ficar devendo. Mas o Gomide tinha tido uma ideia muito boa de “Operação Barbas de Molho” para formação de cartel nas barbearias hipsters e…

– Atenção todos os carros! Abortar missão. Esqueçam Oi Tim Claro Vivo Nextel. Partiu Barrashopping primeiro piso. Suspeito armado navalha na mão, vítima imobilizada numa cadeira, portando coque e olhar blasé, com um copo de cerveja artesanal, espessa, toques de baunilha e retrogosto de gengibre. Sirenes ligadas e não esqueçam os fotógrafos.

Terminator

 

Todo santo dia, chova ou faça sol, uma mocinha de seios fartos, transbordando no decote, me manda uma solicitação de amizade.

Não a mesma mocinha, claro. Cada dia é uma, mas devem pertencer todas a alguma determinada seita, porque seguem rigorosamente os mesmos preceitos.

A foto de perfil a mostra sorridente, se bem que o sorriso só seja percebido algum tempo depois, tamanha a exuberância mamária. A foto de capa igualmente enfatiza sua capacidade de aleitamento.

Sua linha do tempo é inversamente proporcional à fatura dos úberes. Ela não escreve, não fotografa, não compartilha, não polemiza – só se exibe. E como se exibe!

A lista de amigos tem apenas homens, e nenhum do seu país de origem (ela é sempre estrangeira – pelo visto, com algum fetiche envolvendo relações internacionais).

Não imagino o propósito dessas moças de divinas tetas. Elas não dizem nada, não comentam nada, apenas me querem como amigo do peito – ou será que fantasio?

Quando começou a romaria, eu aceitava o convite e puxava assunto – em vão. Admirava então uma última vez seu empenho em caber naqueles vestidos três números abaixo do que mandaria o bom senso, e excluía – não sem antes reparar que ela (fosse ela quem fosse) jamais respondia os comentários elogiosos do fã clube local.

Depois, passei a simplesmente não aceitar a solicitação.

Mas meu dia agora só começa quando a vejo – cada manhã com um nome diferente, vinda de um lugar distante (Barbados, Ilhas Virgens…) – com seus seios arfantes e olhar de promessa (ou será o contrário?), em busca do meu afeto virtual.

As desta semana tinham acabado de entrar no feicebuque, e os marmanjos da sua lista de amigos não passavam de meia dúzia. Deduzi que vinham até mim como tartaruguinhas saídas do ovo que, ainda com areia nos olhos, procuram, instintivamente, o mar.

Só pra ver o que acontecia, denunciei uma dessas contas como falsa – e em questão de segundos chegava mensagem informando que a conta violava as regras da comunidade etc, e que a mocinha e seus melões tinham sido ejetados.

Denunciei a segunda e, pluft, lá foi ela pelo mesmo caminho, e com igual velocidade.

Me entusiasmei e, feito um exterminador das redes sociais, só esta semana vaporizei cinco – e um volume equivalente a 7.500 ml de silicone, aproximadamente.

Me arrependi de não ter salvo as fotos para fazer um álbum, à moda do que faziam os caçadores de antigamente, com sua sala de troféus.

Mas amanhã, sem falta, antes mesmo do café, eu crio uma pasta, dou um seiviés nas fotos, monto uma planilha equicéu com data, nome, nacionalidade e alguma observação que julgar pertinente e delato a moça pro Zuckerberg, que se encarregará de deletá-la.

Se pelo menos quisessem saber o que penso da carne, da terceirização, da previdência, da eutanásia, da liberalização das drogas, da disenteria verbal de ministros e procuradores…

Se o Putin, a NSA, a CIA ou os Iluminati quiserem invadir minha conta, roubar minha senha, meus dados, implantar um chip no meu computador, não poderão subestimar minha astúcia.

Nunca uma moça com uns peitões assim quis nada comigo. E quando o silicone é demais, até um ateu como eu fica com um pé atrás.