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Arquivos por mêsjaneiro 2017

Carnaval politicamente correto

 

Marchinhas “politicamente incorretas” saíram este ano do repertório de alguns blocos de carnaval, tanto no Rio quanto em São Paulo.

Isso inclui não só o clássico “O teu cabelo não nega” – de inegável carga racista – mas também a bocó “Maria sapatão” e a inocente “Índio quer apito”.

O motivo é evitar mensagens machistas e preconceituosas, que possam “parecer ofensivas para algumas pessoas”.

Bacana.
Legal.
Jóia.

Mas se é pra fazer uma limpa nesse entulho de intolerância que atravanca o nosso carnaval, vamos fazer direito.

Eu acho que “Se a canoa não virar, olê olê olá” pode ser ofensiva para quem perdeu parentes ou amigos no naufrágio do Bateau Mouche.
Tinha que ser banida.

“Cidade maravilhosa” afirma que o Rio é o “coração do meu Brasil”, exalando evidente preconceito contra Teresina, Boa Vista, Macapá, Cuiabá e outras, que seriam sabe-se lá que órgãos na anatomia do país.

“Alalaô” (“Alá, meu bom Alá, mande água pra ioiô, mande água pra iaiá”) é pura islamofobia, por reduzir a rica cultura muçulmana a um deserto, onde falta tudo – até água.

“Você pensa que cachaça é água?” faz apologia do alcoolismo.
“Aurora” (“Se você fosse sincera, ô ô ô ô, Aurora”) é o elogio da submissão feminina às exigências do patriarcado.
“Pirata da perna de pau” (“do olho de vidro, da cara de mau”) é puro bullying com os portadores de deficiência locomotora e visual.

“Olha a cabeleira do Zezé” é francamente homofóbica e transfóbica (“Será que ele é transviado? Mas isso eu não sei se ele é”) , além de (“ Corta o cabelo dele!”) ferir o direito fundamental do cidadão, da cidadã e dx cidadxo de se expressar capilarmente como bem entender.

“Mamãe eu quero” estimula a prática nada saudável do uso da chupeta (com sequelas irreparáveis à dentição infantil), além de objetificar a mulher, reduzindo-a à função de nutriz.

“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí” trata de modo pequeno-burguês a questão da concentração de renda, e escamoteia a luta de classes, caracterizando as classes oprimidas como alienadas (“Eu vou beber, beber até cair”) e dependentes do capital especulativo (“Me dá me dá me dá, ô, me dá um dinheiro aí”).

“Jardineira” (“Não fiques triste / que este mundo é todo teu / Tu és muito mais bonita / que a camélia que morreu”) reforça o estereótipo de submissão feminina ao padrão normativo de beleza da sociedade falocrata capitalista.

Um carnaval apenas com marchinhas politicamente corretas, socialmente engajadas e ideologicamente neutras é tudo de que precisamos nestes tempos de maré conservadora.

A setlist dos blocos poder incluir… bem, podia começar com… tem aquela que… pensando bem, que tal um carnaval só instrumental, sem letra?

A gente vai de “laiá laiá” e “ô ô ô ô”, o que tem a vantagem de ser inclusivo, permitindo que portadores de disfemia (antigamente conhecida como gagueira) e de perda de memória recente (logo, incapazes de decorar letras) também participem ativamente da folia.

Apoie essa causa – mas sem se fantasiar de nega maluca (black face é racismo), de palhaço (desvaloriza o profissional de circo), de pirata (faz apologia de atos ilícitos), sem se travestir de vadia (é sexismo) e sem usar máscaras do Lula ou da Dilma com roupa de presidiário (é golpe!).

Ah, e “Vou beijar-te agora / não me leve a mal / hoje é carnaval” é assédio.

Dá cadeia.

Fatos alternativos

 

1.
O grupo Folha/UOL continua sua campanha sem tréguas contra o fim das pichações em São Paulo.

A “notícia” de hoje é que “marido de secretária critica a medida”.

Amanhã ficaremos sabendo o que pensa o filho da cunhada da manicure da diarista de uma assessora do prefeito coxinha.

2.
O grupo Folha/UOL continua inconsolável pelo fato de o mundo não ter caído de joelhos diante de “Aquarius”, o filme-fetiche dos petistas.

As lamentações de hoje são por Sonia Braga não ter sido indicada ao Oscar de melhor atriz. Isso evitará que a Folha se desidratasse de chorar quando Sonia, se indicada, não levasse a estatueta da indústria opressora de cinema capitalista ianque.

A Folha queria também que Kleber Mendonça Filho fosse indicado ao prêmio de melhor diretor.

Quem sabe no Festival de Cinema de Caracas?

3.
Assim que li que a ex-primeira dama Marisa Letícia tinha sofrido um AVC, pensei “vai sobrar pra Lava Jato”.

Não deu outra.

A esta altura, Letícia Sabatella já deve ter embarcado para Paris para denunciar o feminicídio praticado por Sérgio Moro.

Claro que d. Marisa ainda está viva (porque foi para o Sírio e Libanês, não para o SUS) e talvez se recupere bem.

Mas isso é o de menos.

Para o PT, como para o Trump, o que conta são os “fatos alternativos”.

4.
Depois do Brexit, com o Reino Unido deixando a União Européia, vem aí o USexit, com os Estados Unidos deixando o planeta.

Vai ser divertido ver o Tio Sam voltando, daqui a quatro anos, com o rabinho entre as pernas.

Se é que ainda vai haver planeta daqui a quatro anos.

5.
Entidades ligadas ao movimento negro pressionam para que Temer nomeie um negro para a vaga do Zavascki no STF.

Entidades feministas pressionam para que seja uma mulher.

PMDB pressiona para que seja alguém alinhado com os interesses do partido.

Se alguém souber de alguma mulher negra, de notório saber jurídico, contra o aborto, pela reforma trabalhista, contra a prisão de condenados em segunda instância e perita em fazer corpo mole com a Lava Jato, favor encaminhar currículo com foto para michelpresidento@palaciodoplanalto.gov.br.

6.
Na charge de hoje d’O Globo, o cartunista petista mostra Janot tentando empurrar a Lava Jato pra frente, e a ministra Cármen Lúcia mandando parar.

Bem ao lado, a notícia real: Janot e Cármen Lúcia concordam sobre continuidade das investigações. E, na mesma página, a informação de que Cármen Lúcia e Celso de Melo foram os mais duros com os investigados.

Petistas e suas narrativas.
Petistas e fatos alternativos.

Tesouros perdidos

 

O que quero agora? Ninguém perguntou, mas eu respondo. Quero fugir da insônia e adormecer na cama grande, entre o seio da minha mãe e o ombro do meu pai. Quero café com leite frio, e pão com manteiga e goiabada na hora do recreio. Quero surfar com os dedos as varizes roxas de minha avó, jogar crapô (Olha a barrigada, Iduardo!) tentando reproduzir cada gesto do meu avô. Quero de novo o nhambu chororó que sumiu para nunca mais por trás do feixe de lenha, o banho de chuveiro nu no quintal entre as mangueiras, o doce incômodo de minha mãe a me abençoar a cada noite, o emplastro de angu queimando o peito, a carícia gelada do vick vaporub nas costas, as colheradas inebriantes de benadryl. Quero a casa com paredes de bolo de abacaxi e colunas de chocolate, e dálias do tamanho de repolhos no quintal; todas as casas em que vivi e que viraram pó e me deixaram órfão. Quero arroz doce ainda quente com um saara de canela em cima, quero meus lápis de cera, meus lápis de cor, meus decalques de colar na primeira folha do caderno, meus cadernos encapados com páginas de revista. Quero colher abacaxi no sítio de meu avô Zizico, ter os dedos cortados pela coroa espinhenta, a língua em carne viva pelo abacaxi comido inteiro. Quero descer correndo a escada sem corrimão do grupo escolar, e chegar em casa a tempo do Sítio do Picapau Amarelo, ao vivo, na televisão em preto e branco, e arrancar o seletor para que ninguém mude de canal. Quero as intermináveis histórias de Sá Onça contadas pelo tio Pu, o melhor tio do mundo. Quero as matinês com Maciste, Hércules, Sansão e Ulisses no Cine Brasil, onde eu entrava de graça porque meu tio Paulo era porteiro. Quero picolé de creme holandês me escorrendo pelos dedos, pelos braços, sob o sol escaldante de Unaí. Quero as infinitas ruas poeirentas de Unaí, a lua vermelha de Unaí brotando do chão, quero ter que esconder as primeiras ereções – com um livro, com as mãos, me sentando de repente no chão, caminhando curvado pelas infinitas ruas poeirentas do fim da infância em Unaí, sob o sol escaldante de Unaí, com ereções brotando sem razão ou aviso prévio e picolé de creme holandês me escorrendo amorosamente pelos dedos. Quero de novo as crises de asma, meu pai me fazendo todas as vontades, minha mãe sem fôlego, sem ar, por minha causa, e eu, melhor ator do mundo, gozando – sufocado de ar – cada minuto das minhas desmedidas e coreografadas crises de asma. Quero a navalha do barbeiro Balalau descendo erótica pela minha nuca enquanto choro, não sei se de vergonha pela nuca nua e o topetinho ridículo, se de gozo pela navalha descendo pela nuca nua e eu por um momento esquecido do topetinho ridículo, gozando apenas o prazer da navalha gelada deslizando pela nuca. Quero catar cédulas eleitorais jogadas nas ruas, com nomes que eu só irei decifrar muito depois, nos livros de História. Quero o sofá de seu Rubim para ver O Sheik de Agadir, e ser o próprio sheik de Agadir e vencer o Rato e me casar com a filha do Califa de Bassora, que eu não sabia se chamar Leila Diniz, e viajar de navio n’A Grande Viagem com Regina Duarte, que então se chamava Isabel, e só ir dormir quando mandasse o anúncio dos cobertores Parahyba. Quero os arranha-céus de Belo Horizonte entortando meu olhar pela Avenida Afonso Pena. Quero ir de quinze em quinze minutos ver se já começavam a estalar os ovos no ninho, e ter piando nas mãos a maravilha amarela preta carijó – maravilha maior até que o grãozinho de milho, de feijão, se espreguiçando num broto em seu ninho úmido de algodão. Quero o cinzeiro indiano de prata (era um sapatinho de bronze) para as cinzas do Continental sem filtro de minha mãe, e o peso de papel de vidro com um peixinho dourado (vivo!) dentro, e as folhinhas de Mariana das quais se arrancava um dia a cada dia, vingança contra o tempo que nos arranca um dia todos os dias, e as cruzes de papel crepom, renovadas ano após ano para perder lentamente a cor sob sol e chuva, expostas ao tempo na fachada. Quero os medos que perdi – do escuro, de não saber como beijar na hora do primeiro beijo, do vulto no casarão da esquina, de Nossa Senhora me aparecer assim do nada. Quero mesmo o que eu mais odiava – o omelete de salsa e cebolinha, a hora do recreio, as intermináveis viagens de fusca até a praia. Quero tudo que era meu e me levaram, ou que levei embora eu mesmo. O que se perdeu no caminho em tanta mudança – e que talvez ainda procure desesperadamente por mim, que me perdi.

Esboço para um conto 3

 

Quando Walquíria quis saber onde era o toalete, Felisberto teve vontade de perguntar se ela não precisava de ajuda para abrir o fechecler, tão apertada era a calça da nova recepcionista.

Não perguntou, mas ficou por perto, só para conferir mais uma vez o decote abissal, as unhas à la Wolverine e se aquilo que subia da virilha, rumo ao umbigo, era mesmo a cauda de um escorpião.

Conferia por conferir, porque uma mulher daquelas não ia dar a mínima para ele.

Não uma mulher que aparece no primeiro dia de trabalho com umbigo de fora, unhas de Wolverine e um escorpião tatuado na virilha.

E, como se não bastasse, com aquele nome.

Walquíria.

Mas com uma semana já trocavam memes no uotiçape e antes que ela fosse demitida por fumar escondido na casa de máquinas de ar condicionado e insistir no umbigo de fora, já tinham combinado um motel na quinta-feira, dia em que dava pra sair meia hora antes do fim do expediente.

Só havia um porém.

Felisberto não pulava cerca há muito tempo.
Não só perdera a prática como a autoconfiança.

Tinha 58 anos, 20 quilos a mais do que o bom senso recomendaria e uma vida sexual doméstica que era a mais perfeita tradução de “doméstica” e só com muito boa vontade se poderia chamar de “vida”.

Se fosse para ter no motel diante da Walquíria o mesmo desempenho que demonstrava mensalmente em casa com a Guiomar, era melhor nem ir.

Precisava de um aditivo, uma turbinada, um apigreide, quase um retrofite.

Quinta, na hora do almoço, parou na farmácia e assuntou.
Nunca tinha usado nada.
O que sabia era de ouvir falar.

Para uma mulher com um escorpião na virilha e que se chama Walquíria, teria que ser de 250 mg pra cima.

O atendente avisou que só existia de 25, 50 ou 100 mg.

Ficou com vergonha de pedir o de 100 e passar por um homem à espera de um milagre, mas também não quis arriscar com 25, que podia não fazer nem cócega.
Pediu de 50 mg, uma caixa de quatro.
Na pior das hipóteses, tomava os quatro, e ninguém – exceto a Walquíria – ia ficar sabendo.

O atendente, vendo que se tratava de marinheiro de primeira viagem, avisou: não deixa pra tomar na hora, toma pelo menos uma hora antes.
De preferência, de barriga vazia.
Não bebe.
E fica frio, que tudo vai dar tudo certo.

Felisberto não quis dar chance ao perigo.
Nem almoçou.

Achou que uma hora antes era pouco, e às 3 da tarde já tinha engolido o comprimido.
50 mg davam conta, o atendente tinha garantido.

Meia hora depois, houve por bem dar um reforço.
O que não te mata fortalece.
E tomou mais um, olhando de rabo de olho para Walquíria, que folheava a revista da Avon na mesinha da recepção, com as unhas de Wolverine reduzidas à metade, por exigência da chefia.

Quatro e meia, como não sentisse nada além de um início de pânico que lhe afogueava o pescoço, tratou de engolir mais um.
O risco valia a pena porque a peleja com a fartura de carnes da Walquíria não seria pequena.
Sem contar que as garras do escorpião (o rabo ele já tinha visto, mas onde estariam cravadas as garras?) não lhe saía da cabeça.

Desciam juntos no elevador, meia hora depois, roçando cotovelos, e os primeiros 50 milagrosos miligramas começando a mostrar que não tinham sido em vão, quando apitou o celular da moça.
A mãe tinha tido um piripaque, estavam levando de Samu pro Souza Aguiar.

Walquíria desembestou para lá (“amanhã a gente se fala, Beto!”) e Felisberto se viu em plena Uruguaiana, às 5 da tarde, sem saber o que fazer com sua primeira ereção digna deste nome desde o quarto lugar do Bangu no campeonato carioca de 1998.

Não tinha boas referências das termas do Centro.
Ninguém além da Valquíria tinha dado mole pra ele nos últimos tempos.
Não tinha um mísero telefone de alguma ex na agenda do celular.

O jeito era ir pra casa e desperdiçar munição com a Guiomar mesmo.

Mas ela ia desconfiar daquele entusiasmo todo.
Mais do que desconfiar, isso podia abrir um precedente, estabelecer novos paradigmas.
Ainda mais que não tinham sido só 50 mg, mas o triplo.
E Felisberto se lembrava muito bem da trabalheira que a Guiomar deu depois de uma excursão a Poços de Caldas quando ele pensou ter visto a Matilde Mastrangi passando num pedalinho e mentalizou a antiga musa horas depois, na cama.

Não, Guiomar e 150 mg de sildenafila eram totalmente incompatíveis.
Ia chegar em casa, tomar um banho frio, ligar a televisão e desacelerar.

Mas a ereção voltou com o anúncio da Itaipava, no primeiro intervalo da novela das 6, que o fez jantar com o prato no colo, no sofá.

O cachorro levou um pontapé quando veio cheirar o que não devia (o amor estava no ar para quem soubesse farejar), e a situação ficou crítica quando a Maju anunciou, de vestidinho amarelo, uma nova zona de convergência intertropical sobre Mato Grosso do Sul e o oeste do Paraná.

Foi para o quarto quase engatinhando (“Qué que tá havendo, Felisberto?”) e se trancou no banheiro.
Não haveria outro jeito.
Pensou na Maju, no suor escorrendo pela garrafa de Itaipava, na Matilde Mastrangi pedalando o pedalinho em Poços de Caldas, e gemeu como não gemia desde as pedras nos rins, no reveiôn de 2004. (“É a vesícula, Guiomar!”).

Voltou para a cama e tentou relaxar (Guiomar ressonava), mas se o primeiro comprimido tinha feito tchã, agora o segundo fazia tchum, e em breve o terceiro completaria o serviço.

Foi quatro vezes ao banheiro aquela noite (“De novo, Felisberto? Nisso que dá ficar comendo porcaria na rua!”) e viu romper o dia sobre o aprazível bairro de Bangu sem ter conseguido pregar o olho, açoitado por ciclones subtropicais em Poços de Caldas, garrafas suadas de Itaipava de salto alto e vestidinho amarelo, e uma ménage com Maju e Mastrangi num pedalinho em chamas.

Na sexta, Walquíria não foi.
Dona Cotinha tinha cantado pra subir ainda na ambulância do Samu, engarrafada na Praça da Bandeira.

A firma dispensou o cumprimento do aviso prévio – não só pelo umbigo de fora ou pelas bitucas de cigarro sujas de batom na casa de máquinas de ar condicionado, mas porque, do sub-gerente ao boy da expedição, ninguém – exceto Felisberto – parecia ter escapado de uma infestação de piolhos cuja origem não deixava margem de dúvida.

50 mg bastavam – ou, no máximo, 100, se a moça tivesse um escorpião tatuado na virilha, garras de Wolverine ou nome começado com W – foi o que concluiu Felisberto, já fazendo planos para o futuro.

Um futuro, pelo visto, ainda distante, porque a nova recepcionista não só se chamava Judite, como era neopentecostal e portadora daquela indelével expressão de quem não vai ao banheiro há uma semana.

Volta por cima

 

Até recentemente, a primeira providência de toda mulher após levar um pé na bunda ou descobrir a traição (o que viesse primeiro), era cortar o cabelo.

O cabelo servia como metáfora para a libertação do passado.

Era a casca do ovo que trincava, o casulo que se rompia – nascia ali uma nova mulher, com os mesmos olhos ainda cheirando a lágrima e a mesma vocação para o engano, mas de cabelo mais curto.

Gastando menos xampu, menos escovadas noturnas, menos chapinha, menos horas na fila do salão, e tendo mais tempo para descobrir que havia um mundo desconhecido lá fora, com outras armadilhas, arapucas ainda não experimentadas, ciladas novinhas em folha.

Se não dava para jogar fora as ilusões, as lembranças, a esperança, então iam as pontas no lugar.

Houve um tempo – porque hoje o cabelo mais curto não basta.

Faz-se uma tatuagem inspiracional.
Embarca-se num cruzeiro.
Começa-se uma dieta.
Adota-se um cachorro.

A academia ganha uma nova cliente.
Os sites de relacionamento, um novo perfil.

O que foi feito do bom e velho luto?
Das fotos rasgadas, a porta do quarto trancada e a família esmurrando do lado de fora (Não faça besteira, Dinorah!), o travesseiro encharcado, a cara inchada, as giletes e as latas de formicida postas fora do alcance (uma mulher traída ou desprezada era capaz de tudo).

Um ano, ano e meio depois, não fossem as páginas arrancadas do diário, a traição – e/ou o pé na bunda – era como se nunca houvesse(m) existido.

Era assim que as mulheres descobriam que os homens eram todos iguais.
Que nenhum prestava.

Não que não soubessem, mas só sabiam em teoria, das histórias contadas pela mãe, pela avó, pelas tias, pelas primas mais velhas, pela irmã mais nova (e mais precoce).

Agora, sim, a realidade autenticava embaixo, exterminando a miragem de que o amor da sua vida fosse diferente.

Depois houve o tempo em que as fotos não eram mais rasgadas – apenas apagadas das redes sociais (e o sujeito deletado com fotoxope).
Ou pelo menos não eram deixadas públicas (tão constrangedor quanto rasgar e colar com durex depois é apagar e, se houver uma volta, ter que postar tudo de novo).

Mudava-se o status, postava-se a clássica foto de cabelo cortado, umas frases de superação, quatrocentas e vinte e sete indiretas – e isso tornava desnecessárias quaisquer explicações.

Hoje isso é pouco.

Não basta que todos saibam que ela sobreviveu.
É preciso deixar claro que o que não a matou deixou-a mais forte.
Invencível.
Impenabundável.

A onda agora é curar o adultério com um ensaio sensual, mostrando ao desgraçado o que ele perdeu – e o que o resto do mundo vai ganhar.

Nada muito explícito, pra não dar a ele aquela certeza de que, ufa!, ainda bem que ele pulou fora a tempo.

Não.
Tem que ser sexy sem ser vulgar (sim, há quem acredite que isso seja possível).

Um nu artístico, cheio de insinuações, sugestões e transparências.
Mostrando a bunda com um olhar sensível.
Os peitos (mamilo, não, que tudo tem limite) apenas entrevistos – os braços envolvendo a si mesmos e aos seios num abraço e criando a ilusão de que o tempo e a lei da gravidade não iniciaram ainda os seus estragos.

E fazer o possível para ele veja, e descubra a empoderada que se escondia por trás daquela chata, ciumenta, neurótica e mimizenta.

Nem que seja com henna, é fundamental cobrir a tatuagem com o nome dele, aquela no cóccix.

Uma fênix é a escolha óbvia.
Mas uma viúva negra é bem mais eficiente – ainda mais se houver bens a partilhar.

Esboço para um conto 2

 

Não fico chateado de você não se lembrar de mim. Não mesmo, imagina.

Éramos quantos? 36, eu acho. E eu me sentava lá no fundo, na penúltima fila. Nem na última era. Quem se senta na última a gente lembra. Eu ficava na penúltima, uma espécie de não-fila, o não-lugar perfeito para não-pessoas como eu.

Você se sentava de costas para mim, lá na frente, não tinha mesmo como me ver. Eu olhava para você a aula inteira. Não exatamente para você: para o que chegava de você até a penúltima fila, para os seus ombros, seu cabelo. Acompanhava cada fio, podia sentir a maciez deles só de olhar, e como eram macios. A umidade deles me enchia as narinas quando você voltava da Educação Física, e eles brilhavam molhados cheirando a fruta, à fruta mais alta, a que a mão não alcança.

Sim, éramos 36, na chamada eu era o 34, e você a 17 – chamavam-nos por números, lembra? Você era, como eu gostava de pensar, a minha metade, ficava exatamente no meio do caminho entre mim e o nada. Como se não fosse apenas uma coincidência sermos 36, o seu nome começar com M, o meu com S, o M ficar no meio do alfabeto, o S no final – quase no final – na penúltima fila, a fila dos não-nomes, dos que na vida ficam pelo meio do caminho.

A aula inteira se resumia à expectativa de você se virar para o lado e pedir a borracha emprestada, emprestar a régua, perguntar alguma coisa a alguém, e então você não era mais apenas os longos macios fios de cabelo, mas um perfil, a maçã de um rosto, uma réstia de sobrancelha, um lábio mordido de leve.

Você mordia muito o lábio, lembra? Se estava feliz, se estava tensa, se sorria, se não entendia alguma coisa. Quando você ia ao quadro – e eu ia às nuvens – quem mordia seu lábio era eu, invisível na penúltima fila. Era eu quem mexia os botões da blusa com seus dedos, eu o bordado no seu bolso roçando o seio, era eu quem limpava a mão suja de giz na saia. Era eu, lá atrás, ventríloquo, telepata, te dizendo – olha pra mim, aqui, na penúltima fila, quase encostado na parede, mimetizado à parede, parede eu mesmo, quase tijolo, argila que só ganhará vida com o sopro do seu olhar. E você olhava para o professor, para o quadro, para a janela atrás de mim, para trinta e quatro pessoas naquela sala – olhava para a parede, não olhava para mim.

Eu apertava o passo na saída, ralentava o passo na entrada, te dava passagem, te ultrapassava, e para você era como se eu fosse o vento, menos que o vento, a matéria escura que permeia o ar quando o ar ensaia um movimento.

Toquei sua mão, não lembra? num São João. Na quadrilha, contei cada changer de dame, torcendo para que entrássemos no túnel de mãos dadas, para que na nossa vez houvesse um alavantu, um anarriê, e corrêssemos da cobra, fugíssemos da chuva, até que outro changer de dame te levasse de mim, e tudo não durou mais que algum segundo. Sua mão pousou na minha e decolou rumo a outra mão, feito um balão, e eu ardi numa fogueira. Na quadrilha em que João amava Teresa que amava Raimundo, quem amava Maria era eu, e Maria não me amava – eu era ninguém.

Não, eu não tinha esta barba, estes óculos, este mundo sobre os ombros, essa aliança frouxa no dedo, essa vontade de sumir. Não tinha mesmo como você se lembrar de mim – eu era o número 34, penúltima fila, quase encostado na parede. Você é que não mudou nada, o cabelo ainda cheira a fruta. Não sei se ainda morde o lábio, mas por um momento, quando você passou sem me enxergar, pensei ter visto um bordado sobre o seio, e na saia um resto de giz.

Esboço para um conto

 

Não é que ele não fosse bom.
Ele era e esse era o problema.
Perto dele meus defeitos por menores que fossem eles apareciam.

Ele falava tão baixo que o que quer que eu falasse parecia que tava gritando. Não tava eu não grito mas ele falava baixo demais e tudo que eu falava saía gritado como se essas paredes esse piso esse teto esses móveis isso tudo só existisse para aumentar o que eu falava e parecer que era grito.

Ele não era ruim pra mim.

Mas não importava o que eu fizesse por ele todo mundo só dizia Rosária como esse homem é bom pra você e não havia o que eu fizesse que parecesse suficiente que parecesse gratidão que bastasse.

Eu me matava por parecer boa mas era ter visita e ele levantava antes pra oferecer o café puxar uma cadeira tirar a louça. Elogiava minha comida meu cabelo meu vestido e me olhava com um olhar quase de pena que só fazia deixar claro que a comida o cabelo o vestido nada estava à altura do elogio e todo mundo só falava do elogio dele não da minha comida do meu vestido do meu cabelo.

Rosária um marido desses não é sempre que se vê como você tem sorte Rosária com um homem desses tão bom tão prestativo ah se Belisário fosse metade disso. Eu que sei o quanto me custava aquele homem me olhando com pena quando eu errava o sal e ele comia resignado sem uma queixa comia tudo e depois levantava de madrugada pé ante pé pra ir tomar água escondido e voltava pra cama sem fazer barulho e o silêncio dele sem uma recriminação não me deixava dormir.

Fiquei grisalha caiu os peitos deu varizes e ele segurando na minha mão com aquela cara de pena que todo mundo falava que era amor coisa mais linda vocês dois de mão dada Rosária ah se Demerval fosse assim comigo se Jacinto tivesse por mim uma migalha do desvelo que esse homem tem por você.

Nunca me traiu.
E o santo era ele não eu que também nunca traí.
O santo de todas as conversas pai amantíssimo marido exemplar.

Ele ouviu em vida o que só se diz junto da cova e eu tava na cara que não era digna daquilo tudo daquele homem sem mácula de fala mansa de mão suave que só tinha olhos para mim enquanto Donizete vivia nas quengas coitada de Socorro e Deusdete diziam que gostava de rapazes coitada da Dasdores.

Coitada de mim ninguém nunca falou.

Matei.
Matei sim.
Parei quando doeu o braço quando fiquei rouca de gritar morre desgraçado quando já tinha gente na janela gritando Rosária perdeu o juízo segura ela gente. Ninguém me segurou pra não sujar de sangue e porque não larguei a faca enquanto o sedativo que Otacílio da farmácia aplicou não fez efeito.

Ele era bom.
As crianças gostavam muito dele marido exemplar pai amantíssimo homem igual ele não tem.

E eu onde é que eu fico?

Políticas

 

Finalmente, começo a concordar com o PT:

1.
“A construção de novos presídios não vai resolver a questão prisional no Brasil”.

Também acho.

A construção de escolas também não vai resolver o problema educacional.
A construção de hospitais não vai resolver o problema de saúde.
A construção de estradas não vai resolver o problema de transporte.

E nem por isso deve-se deixar de construir escolas, hospitais, estradas – e presídios.
Pelo único e bom motivo que isso ajuda a enfrentar o problema.
E, na pior das hipóteses, torna menos indigna a vida de quem está preso, menos cruel a de quem está doente, menos desconfortável a de quem estuda, menos insegura a de quem viaja.

2.
“A prisão do líder do MST foi política”.

Foi.

Política é a ciência moral normativa do governo da sociedade civil.
É tudo aquilo relativo à sociedade, à comunidade.
É a arte da administração do Estado.

O homem é um animal político.

Prender o Maníaco do Parque, o Eduardo Cunha, a Suzane von Richthofen, o Boulos ou o Sérgio Cabral são, sim, atos políticos.

Como será política a tão esperada prisão do Lula.
E a do diretor que fez acordo com os líderes de facções criminosas para permitir entrada de armas e celulares no presídio de Manaus.

3.
“Temer se cercou de corruptos no ministério”.

Quem há de negar?

E nenhum deles chegou ao poder agora.
Praticamente todos (Temer incluído) fizeram parte dos governos Dilma e Lula.

(Será que os amigos petistas que perdi vão voltar, agora que comecei a concordar com o PT?).

Gal

 

India

Meu primeiro amor foi Gal Costa.

O clima entre nós começou a rolar na capa do elepê “Índia” (naquela época, os cedês se chamavam elepês quando eram adultos, compactos duplos quando adolescentes e compactos simples quando ainda crianças).

Nesse elepê, Gal aparecia na capa vestida (despida) de índia: só de calcinha, com colares de contas e um saiote de palha.

Ela mesma nem aparecia.

Quem aparecia mesmo era a calcinha.

Pensando bem, meu primeiro amor platônico não foi Gal Costa, mas a calcinha dela.

Não tínhamos toca discos em casa de modo que, a bem da verdade, nós nos conhecemos não exatamente na capa do elepê, mas numa revista em que apareceu uma foto dessa capa.

Tudo (elepê, foto, calcinha) tinha sido um escândalo naquele início dos anos 70, quando era permitido proibir – e proibiram Gal e seu saiote, e seus colares, e sua calcinha.

Uma revista publicara a foto polêmica – tudo era polêmico naquela época – e a revista me caíra nas mãos.

Ciente de que meus pais não aprovariam esse amor (Gal Costa era bem mais velha do que eu, e hippie e baiana ainda por cima), ele se desenvolveu clandestino.

Em respeito à Gal, não vou entrar aqui em detalhes sobre o nosso relacionamento, mas aquela foto me acompanhava ao banheiro várias vezes ao dia – e aqueles momentos tendo os azulejos por testemunha eram os únicos em que desfrutávamos de alguma privacidade, em que podíamos olhar-nos sem reservas, sonhar juntos, mergulhar no poço sem fundo de nós dois.

Na falta de Paulo Coelho, a página arrancada da revista (O Cruzeiro? Manchete?) era meu manual de auto ajuda, fonte de inspiração, conexão com o sublime, com o inefável, o transcendente.

Esse amor platônico (ou não tão platônico assim) durou enquanto durou a foto – porque, como em todo amor, o tempo cobrou seu preço, e o desgaste foi inevitável.

Talvez se eu tivesse plastificado a página da revista, se tivesse tido mais tato, não fosse tão impulsivo, tão egoísta, teríamos tido um futuro.

Mas não.

As coisas foram ficando menos nítidas, perdendo o foco, e como tudo que é sólido se desmancha no ar, a página se dissolveu, e com ela os colares, saiote, calcinha, amor.

Terminamos sem brigas, como adulta e adolescente que éramos, e nunca houve cobranças ou ressentimentos entre nós.

Gal Costa aparentemente superou bem a separação e, se ficaram cicatrizes, pelo menos em público ela nunca demonstrou.

Rose di Primo e Sylvia Kristel também lidaram bem com o fim da relação, cada uma a seu tempo, anos depois.

Enquanto eu, decorridas mais de quatro décadas, ainda evoco cada detalhe – dos colares à cor dos azulejos dos banheiros que frequentávamos – todas elas já devem ter me apagado da memória, como se eu jamais tivesse existido.

E ainda dizem que mulher é que é sexo frágil.

Dicotomia

 

Lula e Dilma são os responsáveis por toda essa lama em que estamos atolados – mas recebem apoio irrestrito da intelligentsia, porque são “de esquerda”.

Não importa quão corruptos sejam Genoíno, José Dirceu, Lindbergh Faria, Gleisi Hoffman, são guerreiros do povo brasileiro porque são “de esquerda”.

Ser “de esquerda”, para boa parte da intelectualidade e da classe artística, concede salvo conduto, indulgência plenária, justifica tudo.

Horrível, não?

Pois essa estupidez não é privilégio deles.

Para combater a esquerda, e seus males, e toda a desgraça que a esquerda traz, bastaria ser “de direita”.

Pode ter topete laranja, bronzeado (ou maquiagem) laranja, ser misógino, racista, intolerante, rude.

Pode tudo, porque é “de direita”.

E qualquer coisa “de direita” é um bom antídoto contra a esquerda, certo?

Errado.

O que vai nos empurrar de volta aos braços da esquerda corrupta e incompetente é a direita prepotente e radical.

É essa direita belicista, nacionalista que vai dar fôlego e munição à esquerda, encher de falsas esperanças o coraçãozinho de novas gerações, nas escolas já devidamente ideologizadas.

A esquerda canalha realimenta a direita infame e vice-versa.

Uma sobrevive dos despojos da outra, numa espécie de rodízio de hienas.

Para nos livrar dos efeitos deletérios de um desgoverno “de esquerda”, é preciso um partido que governe direito – não necessariamente um partido “de direita”.

O mesmo movimento que nos fez perder tantos amigos fulminados pela cegueira ideológica à esquerda agora começa a causar baixas no lado oposto.

E já não era sem tempo.

Se ficava complicado dividir uma mesa de bar com quem defende Lula e Maduro, por que seria menos indigesto fazê-lo com quem aplaude Trump ou Bolsonaro?