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Arquivos por mêsdezembro 2016

Abutre

 

Chape

Vi essa coisa asquerosa hoje n’O Globo e fiquei pensando até onde pode ir a escrotidão de um militante.

O Chico Caruso já fez coisas medonhas antes, destilando através do traço o seu ódio ao Ministério Público, à Lava Jato, ao Sérgio Moro, à Polícia Federal.

Mas a subserviência cega a uma ideologia costuma ter limites.
Ou pelo menos costumava.

Deixei de lado a indignação e comecei a tentar entender a relação entre o finado ditador cubano e a tragédia da Chapecoense.

Fidel não gostava de futebol, mas de beisebol.

Por outro lado, a-ma-va um uniforme verde oliva, e verde também era a cor do Chapecoense.

O quepe do El Comandante é verde e amarelo, levando à associação de que Fidel (Deus) é brasileiro.

Mas por que tiraria o chapéu?

Porque a tragédia foi obra de uma empresa venezuelana, pilotada por um boliviano – logo, uma tragédia intrinsecamente bolivariana…

Fidel espera nossos jogadores, jornalistas e comissão técnica do outro lado, respeitosamente.

Mas então o Caruso está insinuando que foram todos pro inferno?

Ok, pode ser um mea culpa.

Como Dilma e Lula acharam mais importante ir a Cuba que a Chapecó, Fidel resolveu limpar a barra deles.

Não sei.

Por mais que procure, não consigo ligar o cu às calças.

Continuo achando oportunismo barato.

Desprezível.

Nessas horas é que faz falta um amigo petista, que possa ajudar a encontrar uma interpretação por mais implausível que seja.

Que invente uma narrativa delirante qualquer.

Mas acho que me livrei de todos – ou pelo menos daqueles de raiz.

Ficou um ou outro isentão, enrustido, que talvez tenha ruborizado ao ver isso.

Uma charge abutre.

Um vilipêndio aos corpos que mal baixaram à sepultura.

Questões trabalhistas

 

– Lucinalva, depois você acaba de juntar esses cacos. Precisamos conversar.
– Não fui eu, dona Arlete! Deve ter sido o cachorro que quebrou…
– O cachorro morreu há três anos, Lucinalva.
– A senhora nunca ouviu falar em assombração?
– Lucinalva, olha aqui o seu aviso-prévio. Você tem trinta dias…
– Aviso prévio? Aviso-prévio é golpe, dona Arlete.
– Você bebeu, criatura? Aviso-prévio está na legislação trabalhista.
– Não posso ser demitida! Eu fui contratada legalmente, de carteira assinada!
– Exatamente por isso é que tem aviso prévio. Se fosse informal, era só mandar embora, não precisava de aviso nenhum.
– Mas eu não tenho conta na Suíça!
– De onde você tirou que pra aviso prévio tem que ter conta na Suíça? Você botou quentinha de alumínio no microondas. Esqueceu o ferro ligado em cima do meu único vestido de grife, e queimou até a tábua de passar. Deixou aberta a torneira da pia e inundou a casa. Não sei por que cargas d’água, inventou de ligar a tevê, o som, o aspirador, o liquidificador, o celular e a máquina de lavar no mesmo benjamim, e queimou tudo. Agora acaba de quebrar meu vaso e…
– Toda faxineira quebra vaso. Pode perguntar. A Marcineide do 703 já quebrou, a Dulcivânia do 207 já quebrou, a Edineuza do 402 já quebrou. Não sou a primeira a quebrar.
– Lucinalva, eu não te aguento mais. Você só me dá prejuízo.
– E as conquistas sociais?
– Que conquistas sociais, Lucinalva?
– Eu que apresentei a senhora ao Glaucivander, que consertou a parte elétrica quando a senhora precisou.
– Quando eu precisei, não. Quando você queimou tudo e eu tive que mandar consertar. E aquele sujeitinho largou tudo sujo e ainda cobrou o dobro do que tinha orçado.
– Não fala assim do Glaucivander, que ele é da igreja! É pastor, e faz bico de eletricista pra ajudar as pessoas.
– E o como é que meu celular foi parar na mochila dele?
– Ele confundiu o aifone da senhora com o StarTac dele.
– Lucinalva, o aviso-prévio é um direito meu e seu. Você tem trinta dias para procurar outro serviço, se não achar pode dar entrada no seguro-desemprego e…
– E as minhas perdas? Não vou poder mais comer tudo que tem na geladeira. Nem ver Sessão da Tarde deitada no sofá. Nem pegar umas roupas da senhora pra usar no fim de semana. Nem…
– Você usava minhas roupas às escondidas, Lucinalva??
– Pegava emprestada. Mas devolvia. Não sou ladra, tá? Sou honrada. Tenho reputação ilibada. Fiz arrastão quando era mais nova, fui presa e nunca delatei meus companheiros. Não admito, não a-di-mi-to, ilações a meu respeito.
– E as coisas que sumiram aqui de casa desde que te contratei?
– No que se refere a isso, eu não sabia de nada. Não fui eu que indiquei a minha cunhada Valdilene pra me cobrir nas férias. Nem conheço ela. Se alguma amiga minha do 703, do 207 e do 402 veio aqui e fez a limpa, foi na minha ausência, e o fato de eu ter esquecido a porta aberta não quer dizer nada. Não há provas contra mim!
– Lucinalva, você assina aqui, e aqui. Pode juntar os cacos agora e…
– Não vai ter golpe! Não vai ter demissão em massa!
– Que demissão em massa? Só tem você de empregada.
– Por isso mesmo. Demissão em massa. Não vai ter demissão em massa!
– Não pula desse jeito, assim você quebra o… Você quebrou o lustre, Lucinalva! Não encosta aí que… Você derrubou a cristaleira, Lucinalva! Lucinalva, pelamordideus, pára… Apaga esse fósforo e fica longe da minha árvore de Natal, Lucinalva!!

Enquanto isso, na cama(ra)

 

– Amor, estava vendo aqui os votos do nosso casamento e…

– Ah, não, Edgar, não vá mexer nos votos!

– Não, claro que não. Os votos são imexíveis. Eu só quis dar uma melhorada, deixar mais forte, sabe como?

– Ai, que lindo, amor!

– Ficou assim, ó: “Eu, Edgar, te recebo, Dinorá, por minha esposa, e prometo que você me será fiel…”

– Não, amor. Quando você fala, é você quem promete. Na hora que eu falo, aí é que eu prometo.

– Mas fica melhor se você prometer duas vezes, não acha?

– Prometo tantas quantas forem necessárias. Vai ser lindo ouvir você prometer também duas vezes…

– Pois é, mas aí eu acho um pouco demais. Já que você vai prometer duas vezes, aí eu não preciso, entende?

– Como assim? Você não vai prometer fidelidade?

– Não é que eu não vá. Eu vou. Só que não naquele momento, ali, na cerimônia, ainda mais depois de você prometer duas vezes. Se não, fica parecendo que estou competindo com você pra ver quem é mais fiel, e não quero estragar esse seu momento…

– Tá bom. Mas no resto você não mexeu, né?

– Aqui onde diz “prometo amar-te e respeitar-te” e achei que fica melhor “farei o que for viável no momento adequado para expressar algum tipo de sentimento e, exceto em caso de força maior, agir com respeito, ficando a parte contrária obrigada a não recorrer à Lei Maria da Penha sem minha expressa autorização”.

– Mas isso não muda tudo?

– Não, amor, eu mantive o espírito da coisa. Só dei uma forma mais completa, garantindo que não faltarão amor e respeito.

– O resto tá mantido, né?

– Onde era “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, ficou “na sua alegria e na minha tristeza, na sua saúde e na minha doença”.

– E o que acontece na minha doença e na minha tristeza?

– Casamento não é hora de falar de doença e tristeza, Dinorá!

– Edgar, não estou gostando muito dessas mudanças. Acho que você desfigurou um pouco os nossos votos.

– Claro que não desfigurei. Eu apenas aperfeiçoei, após muito debate com meus advogados, considerando o que é melhor para você.

– Sei.

– E aqui, onde dizia “todos os dias da nossa vida”, achamos mais sensato que seja “todos os dias até o divórcio”. Mas é mera formalidade.

– Aham.

– E aí o final ficou igual: “Receba, Dinorá, esta aliança, como sinal do seu amor e da sua fidelidade. Em nome de Marx, José Dirceu e Comandante Fidel Castro”.

– Você não acha que eu vou aceitar isso, acha?

– Mas eu só tirei aquelas partes inconstitucionais. A intenção é preservar a integridade do nosso casamento. Fiz isso pelo seu bem, pensando no que é melhor para você.

– Ok. E aí trocamos as alianças e somos felizes para sempr…

– Ahn, quer dizer, a sua aliança eu achei melhor deixar com o Sérgio Cabral. Ele gosta muito de joias, e ela vai ficar mais segura no cofre dele que no seu dedo.

– E a sua?

– A minha é minha, ué! Era só o que faltava, você querer que seu marido ande por aí sem aliança! E agora vamos conversar sobre os meus direitos e os seus deveres conjugais…

Promiscuidade

 

Como votou o Rio de Janeiro na vergonhosa sessão de ontem:

O PT (4) e o DEM (3) em peso votaram SIM.
O PSOL (2) e a REDE (2) unanimemente votaram NÃO.

Bolsonaro e Jean Wyllys estiveram do mesmo lado (NÃO).
Do lado oposto, estavam Jandira Feghali, Benedita da Silva e Clarissa Garotinho.

No PMDB, venceu o SIM ( 5 X 2).
O único voto do PSDB foi NÃO.

O que dá pra deduzir disso?
Que não há partidos políticos.
Que o corporativismo e a sem-vergonhice estão acima das ideologias.
Que coxinhas e mortadelas se misturaram, numa total promiscuidade.
Que enquanto nós, aqui fora, ficamos rompendo amizades de uma vida por uma questão de princípios, eles, lá dentro, abraçam o capeta – e beijam de língua – quando é para manter seus privilégios.

Este Congresso está dançando seu baile da Ilha Fiscal, e não sabe.

~

SIM
Alexandre Valle PR
Altineu Côrtes PMDB
Arolde de Oliveira PSC
Aureo Solidariedade
Benedita da Silva PT
Celso Jacob PMDB
Celso Pansera PMDB
Chico D Angelo PT
Clarissa Garotinho PR
Cristiane Brasil PTB PpPtbPsc
Deley PTB
Fabiano Horta PT
Francisco Floriano DEM
Hugo Leal PSB
Indio da Costa PSD
Jandira Feghali PCdoB
Julio Lopes PP
Luiz Carlos Ramos PTN
Luiz Sérgio PT
Marcelo Matos PHS
Paulo Feijó PR
Pedro Paulo PMDB
Roberto Sales PRB
Rodrigo Maia DEM
Rosangela Gomes PRB
Simão Sessim PP
Soraya Santos PMDB
Sóstenes Cavalcante DEM

NÃO
Alessandro Molon REDE
Alexandre Serfiotis PMDB
Cabo Daciolo PTdoB
Dr. João PR
Ezequiel Teixeira PTN
Felipe Bornier PROS
Glauber Braga PSOL
Jair Bolsonaro PSC
Jean Wyllys PSOL
Miro Teixeira REDE
Otavio Leite PSDB
Sergio Zveiter PMDB
Walney Rocha PEN

Desânimo

 

Tem hora que dá um desânimo.

Acompanhar os “protestos” dos vândalos em Brasília, depredando o patrimônio público diante de uma polícia omissa que, se reagir às provocações, só vai alimentar novos protestos.

Ler a canalhice dos “jornalistas” que só não postam as fotos dos corpos destroçados, mas fazem todo o resto para surfar na onda da tragédia da Chapecoense.

Ver os deputados, impedidos de anistiar os próprios crimes, criminalizar os juízes e procuradores que tentam moralizar a gestão da coisa pública.

Perceber que o governo no qual depositamos nossa confiança – por absoluta falta de opção – se rege por relações de compadrio, u’a mão lavando a outra, legislando também em causa própria de maneira nada republicana.

Ouvir loas a um ditador, a uma ditadura.

Tem hora que dá um desânimo.