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Arquivos por dia22 22UTC dezembro 22UTC 2016

Mulher sapiens

 

Dilma, a mulher honesta, recebeu 50 milhões em propina da Braskem.

Ou seja, ela não era aquela anta que todos imaginávamos, única ovelha de coração valente numa alcateia de espertos sem coração.

O que supúnhamos ser uma criatura troncha, pedestre, intelectualmente indigente e incapaz de articular um raciocínio com pé e cabeça, era, na verdade, uma pessoa sagaz e refinada.

Aquelas estultícies dela eram mensagens em código.
A gente não entendia porque a gente não sabemos entender presidenta.
A Braskem entendia direitinho.

“Atrás de uma criança tem uma figura oculta, que é um cachorro” significava que, para liberação de uma determinada obra, havia um valor a ser entregue ao Vaccari..

“A galáxia é o Rio de Janeiro” era a senha para avisar que o Sérgio Cabral estava na jogada, junto com o Dudu Paes.

“Me considero hoje uma roraimada” indicava que o Romero Jucá (PMDB de Roraima) era o contato que ia pegar a grana, e repassar ao Temer, então comparsa de fé, irmão e vice camarada.

“Legado antes, durante e depois” – só não viu quem não quis – era a sinalização de que as propinas, que vinham dos tempos do Lula, deveriam continuar mesmo depois do impítimã, ou ela pegava o Marcelo Odebrecht lá fora.

“Vamos dobrar a meta” – mais claro, impossível! – estabelecia que os 5% agora eram 10%, e era pegar ou largar, que a OAS também tava interessada e a fila anda.

“Eu tô saudando a mandioca” queria dizer “Recebi a bolada combinada. Câmbio, desligo.”

“Nos transformamos em mulheres sapiens” ainda precisa ser decifrada.

Não verás país

 

Antigamente era a Europa que se curvava ante o Brasil.
Agora são os Estados Unidos.

O Departamento de Justiça da terra do Trump declarou que a atuação da Odebrecht e da Braskem é “o maior caso de suborno da História”.

Uma merreca de um bilhão de dólares indo para o bolso de políticos e executivos não só do Brasil, mas da Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, Guatemala, México, República Dominicana, Angola, Moçambique e outros menos votados.

A maior propina foi paga em Moçambique, mas a melhor relação custo x benefício foi aqui mesmo. Investiram 349 milhões de dólares em doações não contabilizadas, obras em sítios etc, e faturaram 1,9 bilhão. Melhor que narcotráfico e lenocínio.

“Maior caso de suborno da História”.

Tem coisas que só o PT faz por você.

~

O povo tanto pediu intervenção militar que a Marinha resolveu gradear a Orla Conde, no Rio.

Se insistissem mais um pouco, a Aeronáutica era capaz de interditar o Sambódromo e o Exército mandava pintar de branco os troncos de todas as árvores da Floresta da Tijuca.

~

Crivella está saindo melhor que a encomenda.

Nomeou uma tucana para a Assistência Social e a filhota do Garotinho para o Desenvolvimento.

Para a Educação, indicou um ex-terrorista. E para a Ordem Pública, o coronel que prendeu o tal ex-terrorista durante a ditadura.

Economizou uns trocados mandando o seu vice fazer dupla jornada e acumular a Secretaria de Transportes.

Botou a neta de D. Zica e de Cartola na Cultura, e para a Conservação e Meio Ambiente escolheu um pastor que acredita no criacionismo e acha que deviam ensinar Adão, Eva, maçã e cobra nas aulas de Ciências.

Agora, sim, o Rio sai da lama.

Genitais

 

A Clarice Falcão postou ontem o vídeo de um de seus jingles (ela faz jingles, que chama de “canção” não sei por que).

Com a melodia (melodia?) singela de sempre, e a letra banal de costume, canta as vicissitudes de lidar com o que tem pra hoje.

“Na minha vida já existiram
Cinquenta opções de amor
Quarenta e nove desistiram
E você foi o que sobrou.”

Pra ilustrar isso, uma série de pessoas peladas, supostamente dançando, ou pelo menos se balançando, diante da câmera.

Pronto.
É só isso.

“Não acho que o clipe seja genial, nem extremamente posicionado politicamente”, diz ela, modestamente.

Realmente, o clipe não é genial. É ruim de dar dó.
E não é nada extremamente posicionado politicamente.
É só um monte de gente branca (não tem nem um negro, cafuzo, mulato ou mameluco), a maioria com um padrão estético muito, muito distante do que poderia ser considerado atraente.
E só.

“O que ele trouxe à tona foi o quanto as pessoas têm muita raiva de ‘piru’ e de ‘pepeca’”.

Hã?
Eu não tenho raiva de piru e de pepeca.
Muito pelo contrário.
Piru e pepeca (que eu chamo por outros nomes, mas vamos usar aqui a nomenclatura clariceana) são das melhores coisas já inventadas desde o Big Bang.
Bem usados, sem moderação, podem nos dar um prazer só comparável ao de ver um corrupto ir em cana ou poder repetir pudim de leite na sobremesa.

“A minha intenção não foi chocar”.

Imagina.
Homens balançando o piru, mulheres sacudindo a pepeca, assim, a troco de nada, num jingle, ops, numa canção que fala “eu escolhi de coração / por falta de opção / mas foi você”.

“Eu sabia que ia causar algum rebuliço, obviamente, mas nunca chocar – ainda mais nesse nível. Inclusive, eu mesma estou chocada por as pessoas terem se chocado dessa forma: com o fato de outras pessoas terem genitais. Eu achava que isso já era uma informação dada.”

Sim, Clarice, as pessoas têm genitais – e a maioria delas inclusive já está relativamente bem informada disso.
Só não estão acostumadas a vê-los assim, fantasiados e festivos, num clipe tosco.

“E vejo o clipe como essencialmente artístico. É importante atentar para o fato de ter causado tanto ódio, esse é o verdadeiro fator preocupante.”

Não, o clipe pode ser tudo – mas tudo mesmo – menos artístico.
É ruim.
Primário.
Constrangedor.

Não provoca ódio.
Provoca vergonha alheia.

Não é recomendável nem para adolescentes porque pode causar queda de libido numa fase da vida em que libido é tudo.

Digamos que tenha sido uma boa jogada de márquetchim.
Algo que, antigamente, se chamava “apelação”.

Hoje tá todo mundo falando de Clarice Falcão, mesmo gente que não tinha a menor ideia de quem fosse Clarice Falcão.

É aquela moça de belos olhos, boa atriz, péssima na escolha de namorados e ótima no quesito “como chegar aos trend topics com a ajuda de pepecas e pirus alheios”.

“Que sorte você deu
Dos males o menor
Porque você é o melhor
Ou melhor, o menos pior pra escolher”

E tem uma pepeca no clipe, uma mais cheinha, que ninguém me tira da cabeça que é da própria Clarice.

Dos pirus, acho que não conheço nenhum.

O homem que sabia djavanês

 

Branca era a tez da manhã. O verde fazia do azul com o amarelo o elo com todas as cores pra enfeitar amores gris, e lá no mar alto da paixão dava pra ver o tempo ruir.

Na fronteira de um oásis, seu coração em paz, se abalou. Ainda bem que ele era Flamengo.

Quiçá, um dia, a fúria desse front viesse lapidar o sonho, zum de besouro, um ímã. Tudo o mais, era pura rotina, jazz.

“Minha Foz do Iguaçu, polo sul, meu azul, luz do sentimento nu”, murmurou, com um quê de pecado, acariciado pela emoção, na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

Havia um cheiro de amor empestado no ar, e no mistério solitário da penugem, viu a vida correndo parada.

Sua vida era sedução, frenesi. Sentia você assim – sensual, árvore, espécie escolhida, pra ser a mão do ouro, asa do seu destino, clareza do tino.

A paixão era puro afã, místico clã de sereia, era castelo de areia, ira de tubarão, ilusão. E aí tudo acelerou, acelerou, deixou desigual.

Foi como ter o álibi de ter nascido ávido e convivido inválido mesmo sem ter havido, enquanto noutro plano, te devoraria tal Caetano a Leonardo de Caprio.

O veludo da fala disse “beijo”, que é doce, som de assombração, coração. Mas era mais fácil aprender Japonês em braile que obi obá que nem zen, czar, shalon, Jerusalém, z’oiseau. Na relva rala seu arerê tombara.

– Olga Maria, vá na maresia, buscar ali um cheiro de azul, que eu arreio os meus anseios, perco o veio e vivo de memória. Se disfarce de Zeus, de Juruna, na deusa azul, enquanto o ouro do turno da tarde cair no beiral.

Era ilusão, fugir da fronteira de topázio e lã, ir até rubi. No sufoco, gritou rá, um saravá, e virou satã pra ir atrás do maledetto.

O destino, entretanto, não quis lhe ver como raiz de uma flor de lis, e ele caiu aos pés do vencedor para ser o serviçal de um samurai, sangrando toda palavra sã.

Dizem que o amor atrai. Mas do pé que brotou Maria, nem margarida nasceu.