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Arquivos por dia5 05UTC dezembro 05UTC 2016

Práticas impróprias

 

1.
Fazer topless como protesto contra o impítimã, com um “fora, Temer” escrito na barriga e um cartaz de “meu corpo, minhas regras”, ok.

Fazer topless porque sim, na praia, estimulada por uma marca de cerveja, é “machismo oportunista disfarçado de pauta feminista libertária”.

Os peitos permanecem prisioneiros da pauta.

2.
Depois de alguns crimes prescreverem, e só porque D. Cármen Lúcia fez a fila andar antes que outros prescrevessem também, finalmente o presidente do Senado, Réunan Canalheiros começa a acertar as contas com a Justiça.

Tem ainda outros onze processos nas costas (ou pela frente), mas seguirá firme no cargo e na linha sucessória, graças à chicana do menino Toffoli, que pediu vista de um processo já decidido (que define que políticos na linha de sucessão à Presidência não podem ser réus) e o manterá engavetado enquanto for conveniente.

Réunan continuará legislando em causa própria, aprovando leis sob medida para proteger a si e aos demais corruptos, com o apoio não só do Trio Calafrio (Toffoli, Gilmar, Lewandowski) mas também dos “arqui-inimigos” PT, PSDB e PMDB – que se estapeiam na sala, mas se entendem muito bem na alcova.

3.
De Gilmar Mendes sobre as “Dez medidas contra a corrupção”: “Não vamos canonizar iniciativas populares”.

Tudo bem. Só não precisava satanizá-las.

4.
O apartamento onde mora Lulinha foi comprado pelos donos do sítio de Atibaia, por 3 milhões.

Os armários onde Lulinha guarda suas roupas foram pagos pelos donos do sítio de Atibaia, e custaram R$ 725.800,00.

Os eletrodomésticos que Lulinha usa para bater sua vitamina de banana, cozinhar seu miojo ou guardar num pote de sorvete as sobras do feijão da véspera, custaram aos donos do sítio de Atibaia a bagatela de R$ 130.800,00.

Amigos como esses donos do sítio de Atibaia são coisa pra se guardar debaixo de tetra-chave.

5.
A Odebrecht ajoelhou no milho, pediu perdão, disse que foi maus, que aprendeu a lição, morreu em R$ 6.800.000.000,00 (sim, quase sete bilhões) de multa e prometeu que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Publicou um “mea culpa” de duas páginas, cheio de maiúsculas indevidas (talvez tenha sido redigido originalmente em Alemão, língua em que todos os substantivos vêm em maiúsculas).

Seu “Compromisso com o futuro” tem dez pontos, dentre os quais:

1. Combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas, inclusive extorsão e suborno.

2. Dizer não, com firmeza e determinação, a oportunidades de negócio que conflitem com este Compromisso.

3. Adotar princípios éticos, íntegros e transparentes no relacionamento com agentes públicos e privados.

4. Jamais invocar condições culturais ou usuais do mercado como justificativa para ações indevidas.

(…)

6. Ter consciência de que desvios de conduta, sejam por ação, omissão ou complacência, agridem a sociedade, ferem as leis e destroem a imagem e a reputação de toda a Odebrecht.

(…)

10. Ter convicção de que este Compromisso nos manterá no rumo da Sobrevivência, do Crescimento e da Perpetuidade.

Amém.

~

Agora que desfiguraram as dez medidas anticorrupção, bem que o “Compromisso” odebrechtiano poderia ser encaminhado ao Congresso como substitutivo.

E podiam aproveitar até o texto introdutório, que ficaria assim:

“O Congresso reconhece que participou de práticas impróprias em sua atividade legislativa.

Não importa se cedemos a pressões externas. Tampouco se há vícios que precisam ser combatidos ou corrigidos. O que mais importa é que reconhecemos nosso envolvimento, fomos coniventes com tais práticas e não as combatemos como deveríamos.

Foi um grande erro, uma violação dos nossos próprios princípios, uma agressão a valores consagrados de honestidade e ética.

Não admitiremos que isso se repita.”

Só temos que nos certificar se Réunan Canalheiros e o resto da corja não estarão de dedos cruzados ou fazendo figa na hora do juramento.

Algemas talvez ajudem.

Portal

 

Há músicas que, por alguma feitiçaria, não são feitas de sons – mas de cheiros, imagens, textura, sentimentos.
É ouvir e a máquina de teletransporte é acionada, no espaço e no tempo.

“Manuel, o audaz” é um desses portais.

Ouço, e tenho de novo vinte e poucos anos.
A Avenida Amazonas está engarrafada, lá adiante Belo Horizonte se acende para a noite que começa a se debruçar sobre nós.
Se me concentrar um pouco, posso dizer que roupa estou vestindo, que gosto guardo na boca, quanto levo na carteira.
E descubro de novo, naquele exato momento, o sentido de “aprender – ou mais – tentar”.

Tive consciência, ali, de que nunca mais teria vinte e poucos anos – e que nunca deixaria de tê-los.

Algumas canções têm esse ímã, esse buraco negro que arrasta pra dentro delas tudo à sua volta, e as transforma numa cápsula do tempo.

“Meu mundo e nada mais” (a pensão da Rua Tamoios, lençóis baratos, apostilas de Química Inorgânica, o ônibus a Cr$ 0,65, a crescente e aparentemente interminável lista de amores platônicos)

“Viola enluarada” (uma tevê em preto e branco, a guerra do Vietnã, uma noite muito escura lá fora, Hebe Camargo, o medo de ver um disco voador ou que Nossa Senhora me apareça, precariamente equilibrada em cima de um globo terrestre muito azul)

“Ponteio” (o grupo escolar na praça, a bomba explodindo sob o táxi, crises de asma, quem sabe um dia aprender violão, e minha fantasia de ser eu mesmo Edu Lobo – o mesmo nome, o mesmo topete caindo sobre o olho, os concursos de miss, os festivais da canção).

“Guantanamera”.
“Pata pata”
“Era um garoto que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”.

Mas, mais que todas, por motivo insondável, “Manuel, o audaz”.
Talvez porque me faça ter, eternamente, vinte e poucos anos.

Comoção

 

https://www.youtube.com/watch?v=BLaafN-qe_4

Já se sabe o que causou o acidente que levou o time da Chapecoense.

Foram a irresponsabilidade e a falta de escrúpulos do piloto, minimizando a segurança para maximizar os lucros.

Foram a negligência e a tibieza de quem aprovou um plano de voo no limite de insensatez.

Foram a imprudência e a leviandade dos dirigentes que colocam sua equipe, e mais dezenas de outros profissionais, nas mãos de uma empresa capenga, tabajara, que oferece preços muito suspeitamente irrecusáveis – deixando a economia falar mais alto que o bom senso.

Esse acidente foi tudo – menos acidente.

~

Consegui acompanhar com distanciamento as notícias, o obituário dos atletas e jornalistas, as investigações.

Talvez por não envolver o Botafogo ou o Cruzeiro, meus times de coração.
Talvez por não saber sequer que a Chapecoense era chamada de Chape, que havia uma tal Arena Condá, e não poder dizer, sem consultar o google, o nome de nenhum dos seus jogadores.
Talvez por eu andar com a cabeça em outros lugares.

Mas aí veio a comoção colombiana.
Um sentimentalismo um tom acima, que me pegou desavisado.
Achei tudo aquilo meio desproporcional – e comecei a me perguntar se eu é que não estava sendo insensível.

Se até o Serra (até o Serra!) chorou, por que eu não conseguia me abalar nem um pouco?

E então a entrevista da mãe do goleiro.

Ela perdeu o filho não uma vez, mas várias, porque ao longo do dia ele entrou e saiu da lista de sobreviventes algumas vezes.

Perguntada, talvez pela enésima vez, ela devolveu a pergunta:

“Como vocês estão se sentindo tendo perdido tantos amigos queridos lá? Você pode me responder?”

“Não”, respondeu o repórter.

“Não, né? Posso te dar um abraço?”

E aí desabamos os três naquele abraço: ela, o repórter e eu.

Abutre

 

Chape

Vi essa coisa asquerosa hoje n’O Globo e fiquei pensando até onde pode ir a escrotidão de um militante.

O Chico Caruso já fez coisas medonhas antes, destilando através do traço o seu ódio ao Ministério Público, à Lava Jato, ao Sérgio Moro, à Polícia Federal.

Mas a subserviência cega a uma ideologia costuma ter limites.
Ou pelo menos costumava.

Deixei de lado a indignação e comecei a tentar entender a relação entre o finado ditador cubano e a tragédia da Chapecoense.

Fidel não gostava de futebol, mas de beisebol.

Por outro lado, a-ma-va um uniforme verde oliva, e verde também era a cor do Chapecoense.

O quepe do El Comandante é verde e amarelo, levando à associação de que Fidel (Deus) é brasileiro.

Mas por que tiraria o chapéu?

Porque a tragédia foi obra de uma empresa venezuelana, pilotada por um boliviano – logo, uma tragédia intrinsecamente bolivariana…

Fidel espera nossos jogadores, jornalistas e comissão técnica do outro lado, respeitosamente.

Mas então o Caruso está insinuando que foram todos pro inferno?

Ok, pode ser um mea culpa.

Como Dilma e Lula acharam mais importante ir a Cuba que a Chapecó, Fidel resolveu limpar a barra deles.

Não sei.

Por mais que procure, não consigo ligar o cu às calças.

Continuo achando oportunismo barato.

Desprezível.

Nessas horas é que faz falta um amigo petista, que possa ajudar a encontrar uma interpretação por mais implausível que seja.

Que invente uma narrativa delirante qualquer.

Mas acho que me livrei de todos – ou pelo menos daqueles de raiz.

Ficou um ou outro isentão, enrustido, que talvez tenha ruborizado ao ver isso.

Uma charge abutre.

Um vilipêndio aos corpos que mal baixaram à sepultura.

Questões trabalhistas

 

– Lucinalva, depois você acaba de juntar esses cacos. Precisamos conversar.
– Não fui eu, dona Arlete! Deve ter sido o cachorro que quebrou…
– O cachorro morreu há três anos, Lucinalva.
– A senhora nunca ouviu falar em assombração?
– Lucinalva, olha aqui o seu aviso-prévio. Você tem trinta dias…
– Aviso prévio? Aviso-prévio é golpe, dona Arlete.
– Você bebeu, criatura? Aviso-prévio está na legislação trabalhista.
– Não posso ser demitida! Eu fui contratada legalmente, de carteira assinada!
– Exatamente por isso é que tem aviso prévio. Se fosse informal, era só mandar embora, não precisava de aviso nenhum.
– Mas eu não tenho conta na Suíça!
– De onde você tirou que pra aviso prévio tem que ter conta na Suíça? Você botou quentinha de alumínio no microondas. Esqueceu o ferro ligado em cima do meu único vestido de grife, e queimou até a tábua de passar. Deixou aberta a torneira da pia e inundou a casa. Não sei por que cargas d’água, inventou de ligar a tevê, o som, o aspirador, o liquidificador, o celular e a máquina de lavar no mesmo benjamim, e queimou tudo. Agora acaba de quebrar meu vaso e…
– Toda faxineira quebra vaso. Pode perguntar. A Marcineide do 703 já quebrou, a Dulcivânia do 207 já quebrou, a Edineuza do 402 já quebrou. Não sou a primeira a quebrar.
– Lucinalva, eu não te aguento mais. Você só me dá prejuízo.
– E as conquistas sociais?
– Que conquistas sociais, Lucinalva?
– Eu que apresentei a senhora ao Glaucivander, que consertou a parte elétrica quando a senhora precisou.
– Quando eu precisei, não. Quando você queimou tudo e eu tive que mandar consertar. E aquele sujeitinho largou tudo sujo e ainda cobrou o dobro do que tinha orçado.
– Não fala assim do Glaucivander, que ele é da igreja! É pastor, e faz bico de eletricista pra ajudar as pessoas.
– E o como é que meu celular foi parar na mochila dele?
– Ele confundiu o aifone da senhora com o StarTac dele.
– Lucinalva, o aviso-prévio é um direito meu e seu. Você tem trinta dias para procurar outro serviço, se não achar pode dar entrada no seguro-desemprego e…
– E as minhas perdas? Não vou poder mais comer tudo que tem na geladeira. Nem ver Sessão da Tarde deitada no sofá. Nem pegar umas roupas da senhora pra usar no fim de semana. Nem…
– Você usava minhas roupas às escondidas, Lucinalva??
– Pegava emprestada. Mas devolvia. Não sou ladra, tá? Sou honrada. Tenho reputação ilibada. Fiz arrastão quando era mais nova, fui presa e nunca delatei meus companheiros. Não admito, não a-di-mi-to, ilações a meu respeito.
– E as coisas que sumiram aqui de casa desde que te contratei?
– No que se refere a isso, eu não sabia de nada. Não fui eu que indiquei a minha cunhada Valdilene pra me cobrir nas férias. Nem conheço ela. Se alguma amiga minha do 703, do 207 e do 402 veio aqui e fez a limpa, foi na minha ausência, e o fato de eu ter esquecido a porta aberta não quer dizer nada. Não há provas contra mim!
– Lucinalva, você assina aqui, e aqui. Pode juntar os cacos agora e…
– Não vai ter golpe! Não vai ter demissão em massa!
– Que demissão em massa? Só tem você de empregada.
– Por isso mesmo. Demissão em massa. Não vai ter demissão em massa!
– Não pula desse jeito, assim você quebra o… Você quebrou o lustre, Lucinalva! Não encosta aí que… Você derrubou a cristaleira, Lucinalva! Lucinalva, pelamordideus, pára… Apaga esse fósforo e fica longe da minha árvore de Natal, Lucinalva!!