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Arquivos por mêsnovembro 2016

Dominó

 

Publicado originalmente em novembro de 2015.

 

ECCE HOMO, ou “Por trás de um grande homem, tem um homem maior ainda”

Delcídio é preso. Abandonado pelo PT, resolve fazer delação premiada e contar quase tudo que sabe. Rui Falcão se declara perplexo, diz que foi uma estupidez, entra em pânico e, junto com o presidente da Caixa, oferece 5 milhões e plano de fuga para a Venezuela. Diz que já acertou tudo com o Fachin.

A trama é descoberta. Rui Falcão é capturado. Ignorado pelo PT, decide fazer delação premiada e revelar boa parte do que sabe. Mercadante se declara atônito, diz que foi uma idiotice, entra em parafuso e, junto com o presidente do BB, oferece 10 milhões e um plano de fuga para Cuba. Diz que já acertou tudo com o Zavascki.

A tramoia é desvendada. Mercadante é encarcerado. Enjeitado pelo PT, opta por fazer delação premiada e expor um naco do que sabe. Dilma se declara estarrecida, diz que foi uma imbecilidade, surta e, junto com o presidente do BNDES, oferece 20 milhões e um plano de fuga para a Coreia do Norte. Diz que já tramou tudo com o Toffoli.

A mutreta é revelada. Dilma é enjaulada. Desprezada pelo PT, delibera fazer uma delação premiada e mencionar um pouco do que sabe. Lula se declara bestificado, diz que foi uma cretinice, pira e, junto com o presidente do Banco Central, oferece 40 milhões e um plano de fuga para o Estado Islâmico. Diz que já tá tudo combinado com o Lewandowski.

A maracutaia vem a público. Lula é engaiolado. Renegado pelo PT, se vinga fazendo uma delação premiada e abrindo o bico sobre algumas das coisas que sabe.

FHC foge do país e nunca mais é visto.

Sexta feira negra

 

Hoje é dia de bleque fráidei.

Dia de desovar o que está encalhado no estoque.
De tornar ligeiramente justo o preço que andava nas nuvens.
De endividar um pouco mais quem ainda nem pagou as outras contas vencidas.
De, antes de pegar a fila do Serasa e do Procon, pegar fila na Ricardo Eletro, nas Casas Bahia.

O Temer podia fazer uma queima, aproveitando que sua imagem já está quase incinerada.
Livrar-se do Geddel, do Barbalho, do Padilha, do Picciani.
Botar alguém que entendesse de saúde na Saúde, de educação na Educação.

Mas isso seria milagre de sexta feira santa, não de bleque fráidei – e milagres não existem.

FHC poderia ter feito o melhor governo de toda a história do Brasil, mas se aliou ao DEM (que então ainda era PDS), ao coronel Toninho Malvadeza, e deixou a vaca ir pro brejo e os porcos pro mandiocal.

Lula poderia ter feito um governo histórico. Tinha os cofres cheios e a casa em ordem – a tal herança maldita do FHC.
Mas preferiu enveredar pela senda do crime.

Dilma poderia ter feito a faxina, dado um basta aos malfeitos.
Mas, coitada, era incapaz de fazer o verbo ter alguma relação com o sujeito; não conseguiu que Tico fizesse as pazes com Teco (se é que havia um Tico, se é que algum dia existiu um Teco).

Temer poderia ter respirado fundo, mandado às favas a falta de escrúpulos, abandonado as velhas práticas, os amigos velhacos, renegado o passado, nomeado um ministério de notáveis e erguido (sem superfaturamento) uma ponte para o novo Brasil que, esperávamos, seria inaugurado em 2018. Mas Temer parece temer tudo que seja novo, tudo que já não esteja corrompido.

Nesta bleque fráidei, só Temer vale hoje menos do que valia ontem.
O desconto foi dado pelo almofadinha Marcelo Calero, que saiu atirando e, supostamente, com uma gravação incriminadora no bolso.

Fiel ao seu estilo bundão, diante do vacilo o marido da Marcela deve recuar, tergiversar, titubear, tatear às cegas, cambar para a direita, se desdizer, hesitar – e voltar atrás, ficando exatamente no mesmo lugar.

Afinal, é bleque fráidei.
Tudo pela metade do dobro.

Psicologia reversa

 

1.
Sabe psicologia reversa?
O atual governo é meio assim.
Se é pra fazer uma coisa, faz justo o contrário.

Um ministro faz merda e tem que ser demitido.
Que atitude toma o Temer?
Elogia, empodera, enaltece, hipoteca apoio, paparica.
Deixa a maçã podre no cesto até juntar mosca.
E aí aceita, consternado, o pedido de demissão (ou afastamento), mas só quando a coisa já fedeu.
Sendo que sabia, desde meia hora antes do Big Bang, que tentar contornar só ia piorar as coisas.

Poderia ser cirúrgico, e extirpar o tumorzinho lá no início.
Aí era passar mertiolate, assoprar, botar um bandeide e tocar o bonde.
Mas não.
Ele espera a coisa ficar inoperável.
Virar metástase.
E só então, com o defunto sendo velado, é que marca a consulta.

Temer é do tipo que atravessa a rua pra escorregar na casca de banana que ele mesmo jogou do outro lado.

2.
Só tem uma coisa que dá mais vergonha que ser pobre.
É ser novo-rico.

Não ter dinheiro não é nenhum demérito.
Ter e não saber usar é que é.

Sérgio Cabral, com a grana que roubou, podia ter uma pinacoteca no seu cafofo do Leblon.
Podia ter uma Adriana Varejão no lavabo, uma Beatriz Milhazes no quarto de empregada e até uma Lygia Clark na área de serviço.

Preferiu ter um Romero Britto na sala.
Um, não: dois!

Um Romero Britto, que não tenha vindo de brinde, em papel brilhante, na revista Caras, já é crime inafiançável.
Um díptico, então, é crime hediondo.

Não sei quanto ele pagou (oops, quanto nós pagamos) pelos dois quadros que o Romero Britto obrou.
Mas duvido que alguém arremate isso por um centésimo do custo num leilão.

Ou seja, pobreza não é não ter dinheiro.
É ter e não saber nem lavar direito.

3.
Por causa de uma vista privilegiada, Geddel perdeu o foro idem.

Como disse alguém aqui agora há pouco, é o primeiro caso de ministro tombado pelo Iphan.

Vida eterna

 

Há os imortais e os imorríveis.

Shakespeare é um caso clássico de imortal, e olha que morreu cedo, aos 52 anos.

Na Academia Brasileira de Letras tem morrido quase que um imortal por mês – praticamente a mesma taxa de mortalidade (metafórica) de ministros do governo Temer.

Imorríveis pertencem a outra categoria.

Ao contrário dos imortais, que já morreram e continuam vivos, os imorríveis ainda não morreram, mas já não vivem há muito tempo.

Parece que a morte se esqueceu – ou desistiu – deles.

Imorríveis eram o Austregésilo de Ataíde.
O João Havelange.
A Dercy Gonçalves.

Morria-se aos borbotões – e eles lá, firmes e inverossímeis, feito um peitão de silicone.

O generalíssimo Francisco Franco era imorrível.
O João Paulo II, também.
A Rainha Mãe foi imorredoura por mais de um século.
A Elza Soares ainda é.

Imorríveis são esses que volta e meia você se pega na dúvida se já morreram ou não.
Normalmente não.

Henry Kissinger
Delfim Neto
Kirk Douglas

O obituário deles já está pronto há pelo menos duas décadas, e o estagiário não aguenta mais atualizá-lo, ano após ano.
Alguns estagiários, inclusive, já morreram nesse período.

Volta e meia levamos um susto, com o anúncio da morte de um imorrível.

Foi assim com o Christopher Lee, ano passado.
Com o Cauby, este ano.

Ontem, quem nos deixou – certamente, à revelia – foi o Fidel.

Ele entrou na História no mesmo ano em que nasci.
Quando eu ainda usava camisolinha de pagão, ele já tinha deposto um ditador corrupto e sanguinário e assumido ele próprio essa função.

Para mim, é como se Fidel existisse desde sempre.
Fosse parte da mobília deste planeta.
Tipo assim o Pão de Açúcar.
A Torre de Pisa.
A fome na África.
A seca no Nordeste.
A Susana Vieira.

Se até o Fidel morreu, é bem capaz que nenhum de nós escape.

Imaginei que não viveria o bastante para ver a descoberta de vida em outro planeta, a viagem no tempo, a clonagem de seres humanos, a cura do marxismo, o tratamento de canal sem dor e a morte do Fidel.

A gente morre e não vê tudo.

Teste vocacional para presidente

 

1. Suponha que você seja presidente de um país hipotético e tenha chegado ao poder na esteira de uma campanha anticorrupção. O que você faz depois da posse?
a) Convida corruptos para fazer parte do governo, como se nada tivesse acontecido;
b) Faz discurso contra a corrupção, mas se mobiliza por baixo dos panos para que tudo continue como dantes;
c) Reza para que a delação da Odebrecht só seja homologada depois de 2018.

2. Por algum motivo insondável, você convida para o ministério um almofadinha que não é da sua curriola. Você:
a) Informa aos outros ministros pra pegar leve com o novato.
b) Avisa ao novato pra ir se preparando que o bagulho é doido.
c) Deixa o circo pegar fogo e, quando não houver mais o que salvar, procura um extintor.

3. No momento em que é necessário aprovar propostas impopulares mas essenciais, como o teto dos gastos, a reforma da previdência e a reforma política, você deve se dedicar a:
a) Construir saídas pouco republicanas para os casos de tráfico de influência.
b) Arbitrar conflitos, privilegiando o tráfico de influência.
c) Fazer você também tráfico de influência.

4.O que é mais importante para você?
a) O patrimônio histórico, desde que não interfira no patrimônio de algum ministro;
b) O patrimônio de algum ministro, mesmo que interfira no patrimônio histórico;
c) O seu matrimônio.

5. Você procura resolver as crises existentes com:
a) Hesitações, recuos, vacilações, titubeios, indecisões, ambiguidades e menesgueios;
b) Mesóclises
c) Novas crises

Gabarito: Se você marcou qualquer das alternativas em qualquer uma das questões, não, você não tem vocação para ser presidente.

Diálogos republicanos

 

– Não entendo este país. Há algumas décadas, todo mundo era a favor da anistia. Agora é todo mundo contra.

– Ah, o povo! Data vênia, quem entendê-lo-á?

– Tava tudo dominado. Era questão de horas. E agora…

– Não desesperar-nos-emos. Como diria, ipsis literis, o Sérgio Cabral, vão-se os anéis, ficam os brincos e os colares.

– Eu quero saber como é que fica é o caixa dois!

– Encaixá-lo-emos em alguma outra lei, a posteriori. A da repatriação. A da previdência. A do ensino médio.

– E o Calero?

– Achei que calá-lo-ia com um kit da Maybelline. Que metrossexual resistiria? Mas equivoquei-me com essa persona non grata.

– Eu avisei: bota um dos nossos…

– Na Cultura? Vade retro! Nem eu queria que houvesse a Cultura.

– Ainda se fosse a Apicultura, a Floricultura, a Lipoescultura…

– Alea jacta est. Agora o Geddel conformar-se-á com um apartamento no décimo terceiro andar.

– E eu, cumé que eu fico?

– Com um curriculum vitae como o seu – ex-ministro, ex-presidente do Senado – não deixá-lo-ão ad aeternum na fila do seguro desemprego.

– Mas o STF começa a me julgar esta semana. Se eu perder o foro privilegiado e não sair a anistia ao caixa dois, vou acabar fazendo companhia ao Cunha. Ao Cunha!

– Quo usque tandem abutere, Renan, patientia nostra? Se eu disse que daria um jeito, dá-lo-ei, caraca!

– E tem que ser logo, antes da delação premiada da Odebrecht. Porque tu também tá nessa…

– Vox Populi. Quo vadis? Causa mortis, carpe diem, alter ego…

– Hã?

– Nada, estou gastando o Latim enquanto penso em como salvar-nos-emos desta e manteremos o status quo.

– E se combatermos duramente o caixa dois…

– …dando um cala boca na vox populi…

– … e dissermos que o que recebemos por fora foi caixa três, ou caixa quatro…

– … que não é crime no Código Penal! Dura lex, sed lex!

– Meu garoto!

– Meu paipai!

Oficina do diabo

 

Ocupa 01

Ocupa 02 Ocupa 03

 

1.
O movimento “Ocupa UFPI” (da Universidade Federal do Piauí), cujo lema é “Juntxs contra a PEC 241” promove diversxs atividadxs e oficinxs culturais para manter a galera ocupada.

Sabe como é, mente vazia é a oficina do diabo.

Tem aulão sobre um tal de “Foulcalt” – sem explicar se isso é uma técnica culinária, um golpe de jiu-jitsu ou um estilo de renda de bilro. Filósofo francês é que não é.

Tem oficina de faixas e camisetas – e duvido que seja para ensinar a colocar vírgula em “Fora, Temer”.

Tem espaço de resistência negra – talvez havendo também espaço para tomada branca e fusível azul.

E tem ainda oficina de empoderamento de buceta – que, espero, seja aberta a pessoxs de todxs xs sexxs.

2.
Em contrapartida, a Igreja Batista Getsêmani (Av. Portugal 300, Jardim Atlântico, Belo Horizonte MG) oferece, com entrada franca, uma palestra sobre como prevenir e reverter a homossexualidade.

Uma psicopedagoga – que não é nem psicóloga nem pedagoga, mas pastora evangélica – deverá falar sobre formas de contágio (quartos pintados de verde, vestidos azuis, lego com alguma peça cor de rosa), técnicas de descontaminação (vara de marmelo, castigo no milho), além de castração química, terapia eletroconvulsiva e vídeos do Donald Trump falando sobre como as mulheres devem ser tratadas.

É hoje, quinta-feira, às 19:30.

Não se esqueça de levar seus discos da Lady Gaga e/ou Ana Carolina para ser queimados na fogueira santa da libertação.

3.
Na mesma linha do “Ocupa UFPI”, o “Ocupa UESC”, em Santa Catarina, tem “Oficina de ginecologia autônoma para pessoas com vagina”.

Para quem esteve em Marte durante o governo Dilma, curso/oficina de ginecologia autônoma é “um espaço de compartilhamento de saberes entre mulheres e lésbicas de qualquer idade sobre nossas corpas.”

Sim, mulheres “e” lésbicas, porque lésbicas são consideradas um gênero à parte.

E corpo, no masculino, é o do macho patriarcal opressor.

Mulheres têm corpa, no feminino (ou será na feminina?).

Lésbicas, suponho, têm corpx.

O conteúdo inclui “autoconhecimento: nossos ciclos, a lua, nosso entorno, autoexame; menstruação: tabus, exercícios para o útero, receitas naturais para cólica e regular o ciclo menstrual; alta magia; infecções vaginais e urinárias: prevenção e receitas naturais; cistos e miomas: prevenção e receitas naturais.”

Pessoos sem vagina devem aguardar o “Oficino de desempoderamento fálico”, aindo sem dato.

4.
Ou o Brasil acaba com a imbecilização ou a imbecilização vai acabar acabando com o Brasil.

Homens de bens

 

1.
Dizem que o poder inebria, que o poder corrompe.

Em outro lugar, talvez – não no Brasil.

Aqui, com o poder sobrevém a amnésia.

Não é que Lula nunca soube de nada que se passava à sua volta.
Soube só no instante, para no momento seguinte não saber de mais nada.

A mesma “síndrome de Dory” se abateu sobre Cabral.
Não se lembra de onde vieram as jóias, quem as comprou.
Não sabe quem reformou seu apartamento, ou como as obras foram pagas.

Cláudia Cruz também não sabe de onde vinha o dinheiro que bancava suas bolsas, seus sapatos, seus jantares.
Até queria saber (“Dudu, a gente tem saldo pra isso? Isso não é mais que o seu salário?”), mas se esqueceu de perguntar.

2.
O poder, que noutros lugares sobe à cabeça, aqui nos torna mais humildes.

Lula, podendo ser dono de latifúndios, usava de favor o sítio de amigos para passar os finais de semana.
Dependia de conhecidos para guardar suas tralhas.
E da bondade de estranhos para ter uma vista pro mar.

Cabral navegava no iate de um amigo, voava no helicóptero de um amigo, e mesmo a mansão que frequentava em Mangaratiba não é dele – é da mulher.

Garotinho preferiu não utilizar a rede pública de saúde, ocupando um leito que poderia servir a alguém mais necessitado, e optou por pagar do próprio bolso a internação num hospital particular para a cirurgia eletiva de emergência.

Essa é a diferença entre homens de bens e homens de bem.

3.
O poder atrai homens de gabarito.

E quer homem com gabarito mais elevado que o ministro Geddel?

Não contente em receber salário acima do teto, comprou um apartamento no 25º andar de um prédio cujo gabarito, por lei, é de 13 pavimentos.

É disso que o governo Temer precisa.

De homens que pensem alto.

Descendentes

 

Descendentes 27

Há os que herdam terras, títulos, tesouros, tralhas. Doenças hereditárias, intrigas, tristezas, traumas. Uma tradição não escrita quis, lá atrás, que herdássemos crapô, bom humor e palavras cruzadas.

Que fizéssemos trocadilhos infames, e déssemos barrigadas com ouros sobre paus, e copas sobre espadas.

Que os homens fossem calmos e calvos; as mulheres, belas. Que o sobrenome fosse o nosso; a vontade, a delas.

O legado nos veio sem formal de partilha ou testamento. Cruzar palavras – e fazer surtar as palavras – não pede aval: requer talento.

Cresceríamos no trato diário com elas, na intimidade com as que costumam dormir na penumbra do dicionário. A riqueza não nos veio em cofres ou cifras – veio no riso, na paciência, no vocabulário.

Quem começou tudo isso? Tio Tão, Tia Geralda, Tia Gonia? Em que dia pegaram o primeiro livro, e fizeram dele sua companhia?

Quem decidiu que seria esse, tão valioso, o nosso dote? Bereco? Tio Antônio, Tio Miguel, Tia Hilda, Tia Aparecida, Vó Rosa, Vô Tote?

Já se foram todos – e estão todos aqui, multiplicados. Logo nós é que não estaremos (já não está meu pai), mas seremos outros, de sobrenomes embaralhados, ainda fazendo piada, jogando cartas, cruzando palavras, e reinventando seus significados.

 

Maria Clara

 

Maria Clara

Gosto muito de criança
Não tive filho de meu.
Um filho? Não foi de jeito
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Quem escreveu foi o Manuel Bandeira. Podia ter sido eu.

Os filhos que não tive, tiveram-nos meus irmãos.
Uma dúzia de sobrinhos que fotografei sempre que pude, quase como uma forma de trazê-los um pouco mais para mim.

Foi assim com a Amanda, sobrinhafilhada, xodó e musa desde sempre.
Com Alice, que mereceu cartas e poemas, e infinitas fotos.
Com o Caio, dono de uma inteligência invejável, e de uns olhos azulados, que se tornaram verdes e hoje há que inventar uma cor que os defina.
Com a Esther, a dona do sorriso mais bonito, da personalidade mais forte.
Com a Julie, a mais suave de todas – e talvez a mais decidida.

Mas uma das sobrinhas me escapava, fugia de mim.
Dos abraços e das lentes.

A mais tímida – talvez acuada por tantas belezas à volta, mesmo sendo tão bela.

Nunca posou, nunca me deixou tentar roubar sua alma numa fotografia.

Pois o milagre aconteceu – justo para mim, que não creio em milagres, nem em alma.

Quando vi, lá estava ela, indiferente à minha lente.
Linda como sempre foi – talvez mais linda agora, quando não tem medo da própria beleza.

Bem vinda ao panteão das minhas musas, Maria Clara.
Seu lugar esteve aqui, todos esses anos, esperando por você.