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Arquivos por mêsoutubro 2016

Mau cheiro

 

1.
Hoje é aniversário de Luís Inácio da Silva.

Escorpião (23/10 a 21/11). Elemento: Água. Modalidade: Fixo. Signo complementar: Touro. Regente: Plutão. Nada pode se comparar às pequenas manifestações de gentileza. Afinal, são elas que conseguem suavizar os momentos difíceis e criar amor. É tempo de compartilhar mais afeto com o parceiro.

Por essas e outras é que eu, taurino desde que nasci, não acredito em horóscopo.

2.
Não vejo a hora de sair a delação do Marcelo Odebrecht & cia.
Consta que vá jogar na fogueira 130 parlamentares e 20 govenadores (atuais e ex).

Torço para que haja gente de todos os partidos, incluindo Arena, UDN, PFL, Partido Republicano, Partido Farroupilha e até do Partido Português, extinto em 1831.

Com isso a petezada para de choramingar que o Moro só bate neles, que a Lava Jato é uma perseguição seletiva a eles, e que tudo é um complô da Globo, da Veja, da Fiesp, da Coca Cola e dos Iluminati contra eles por causa dos pobres comendo barrinha de cereal com o cinto afivelado e as poltronas na posição vertical etc.

3.
Paula Lavigne fez um jantar para angariar fundos para a campanha do Freixo.

Fernanda Lima e Mateus Solano doaram R$ 10 mil cada.

Menos generosos foram o maridão Caetano, Fábio Assunção, Fernanda Torres, Renata Sorrah, Cleo Pires, Patrícia Pillar e as indefectíveis Camila Pitanga e Letícia Sabatella.

Resta saber se a grana (R$ 100 mil) vai ter o mesmo destino da que foi arrecadada para a família do Amarildo.

4.
Marcelo Odebrecht trabalha varrendo o chão da sede da Polícia Federal em Curitiba.

É bom providenciarem um controle das vassouras e botarem chip nos baldes, para a eventualidade de um certo aniversariante do dia assumir a função em breve.

5.
A Infraero, depois de gastar milhões na reforma do Terminal 1 do Galeão, resolveu desativá-lo.

Quem sabe um dia, quando a classe D voltar a andar de avião…

6.
Crivella, praticamente eleito, foge do debate e de responder às incisivas (e pertinentes) perguntas d’O Globo.

Já deve estar é se preparando para governar com 2/3 da população contra ele: o terço que votará no Freixo e o terço que votará branco, nulo ou irá à praia no domingo.

7.
Freixo, que diz ser contra misturar religião e política, recebeu o apoio de padres católicos ligados à Teologia da Libertação.

A Arquidiocese, por outro lado, desautorizou a manifestação, e diz que não se pode compactuar com quem defende o aborto, a eutanásia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Ou seja, ela é contra justamente o pouco que o Freixo tem de bom.

8.
A semana que vem será infinitamente melhor do que esta.

Não teremos mais que escolher entre Freixo e Crivella.

Aí é tapar o nariz e orar para que esses quatro anos passem depressa.

Plugado

 

Só tem uma coisa pior que pesadelo.
Insônia.

Três da madrugada, você tem a impressão de que já mudou de posição mais vezes que político do PMDB, e ainda não dormiu nada.

E só sabe que são três da madrugada porque abriu o olho uma dúzia de vezes pra ver se tava clareando – não tava – e foi checar no celular que horas eram, achando que a culpa era do horário de verão.
Não era.

Ficar na cama, procurando esvaziar a mente e abrir caminho pro sono dar as caras – ou assumir que não vai rolar, e começar o dia antes mesmo de o dia começar: eis a questão.

Três da madrugada é uma boa hora para fazer as propostas que você prometeu que ia mandar ontem (quando o cliente acordar, já vão estar na caixa postal dele, ele vai ver a hora que você mandou, se sentir culpado e quem sabe ter vergonha de pedir desconto).

É uma boa hora para escrever, já que as obras no prédio em frente ainda não começaram, o vizinho de cima ainda não acordou e o de baixo acaba de ir dormir.

Uma boa hora para atacar a geladeira, ignorar tudo que houver de saudável, e acabar atracado com um pacote de biscoito maizena.

E aí, feitas e enviadas as propostas, devorado o biscoito e puto porque o silêncio não te inspirou a escrever nada, você vai ver se tem e-mail, se o Lula foi preso, se vazou algo da delação da Odebrecht, se o Renan aprontou mais alguma – e o melhor que o UOL tem a te oferecer são “5 posições para facilitar o sexo anal para principiantes”.

Sim, o portal petista da Folha de São Paulo – que eu assino desde antes de haver petismo, quando até eu era de esquerda – me informa, nas manchetes de hoje, que “mulher finge ser prima de vítima de tragédia para viajar de graça”, que “não vai ter Mariah Carey”, que a vegetariana Preta Gil come carne, que Freixo pede voto de confiança ao eleitor – e que a posição de quatro “não é a mais adequada para quem está iniciando na prática do sexo anal”.

O melhor é começar usando um plugue, de preferência curto e fino – que, com o tempo, pode ser trocado por outros, de outros tamanhos, formas e espessuras.

Apresenta, depois, uma série de posições, ilustradas de modo politicamente correto, com casais inter-raciais, hetero e homoafetivos – incluindo um hipster e uma oriental, um careca de barba e um marinheiro, um rastafári e uma tatuada.

Não fosse essa bendita insônia, eu jamais teria descoberto que “o segredo é inserir o pênis, de forma lenta, em um ângulo de 45 graus, apontando para o umbigo”.

E eu que achava que bastava camisinha, lubrificante e uma boa lábia. Tem que ter também um esquadro e GPS – ou vai que você mira o baço, e põe tudo a perder.

Puxadinho

 

Quer deixar um simpatizante do PSOL puto da vida, é só dizer que o partido é um genérico do PT.
Um PT cover.
Uma segunda marca do partido do Lula.

O PSOL saiu de uma costela do PT.
Saiu porque discordava de alguma coisa (como acontece com tudo que nasce de uma costela), mas continuou apoiando incondicionalmente (ao contrário de qualquer coisa que nasça de uma costela).

O PSOL é um PT que ainda não aprendeu a fazer acordos e alianças.
Porque acha que toda aliança é uma concessão inaceitável.

O que leva gente que pensa assim a querer fazer política, que é a arte da conciliação, do contraditório, da coexistência civilizada com as diferenças?

O que salva o PSOL de ser o fundo do poço é que existe o PSTU, que é um PSOL ainda mais sectário, fundamentalista e surreal (sim, isso é possível).

O pissolista pensa (pensa?) como petista, se comporta como petista, tem todos os vícios, tiques e manias de petista.
Mas não é petista.

Ele está para o petista assim como a feijoada está para o porco: tem pé de porco, focinho de porco, orelha de porco, rabinho de porco, e mais algumas porcarias – mas não é porco.

Talvez porque ainda não tenha roubado como um petista.
O que não chega a ser muita vantagem, porque ninguém nunca roubou tanto quanto os petistas.

O PSOL tenta como pode escamotear suas origens.
Renega no discurso as práticas petistas, mas reza pelo mesmo catecismo, lê pela mesma cartilha, calcula pela mesma tabuada.

O pissolista é o jabuti que fica puto quando apontam suas semelhanças com tartaruga.

Também tem o cágado, mas deixemos o PSTU pra outra hora.

Tirania feminista

 

A Folha (sempre ela!) publicou outro dia um texto maldoso, raivoso, ressentido e preconceituoso contra a Marcela Temer.

A primeira dama cometeu, como se sabe, o crime inafiançável de ser bela, recatada e do lar.

Será que foi para isso que as mulheres lutaram tanto? Para deixar de ser obrigadas a se dedicar apenas à família e ser agora obrigadas a fazer qualquer coisa, menos se dedicar à família?

Que libertação é essa que troca uma servidão por outra? Que tira de cena o macho opressor e instala na função a feminista opressora?

Qualquer mulher deve ser livre para fazer o que quiser.
Ser do lar, do bar, surfar ondas gigantes, pilotar avião, fazer crochê.
Abortar, ter quantos filhos quiser, dar de mamar em público, só se despir no escuro, dizer palavrão, fazer novena.
Ser recatada, puta, liberada, moderada, ir pra cama no primeiro encontro ou só depois do casamento.
Por que não?

Marcela é execrada porque o seu filho, como milhões de outros (inclusive eu) leva o nome do pai. Porque, no seu pacto conjugal, não trabalha fora, de carteira assinada (para as feministas, o trabalho doméstico não conta, não pesa, não honra, não vale).

A inútil e “decorativa” Marcela é comparada a outras mulheres.
De um lado. Dilma Rousseff, a mulher que “inflou fantasia maior que a dos contos de fada”, essa, sim, mulher de verdade.
Do outro, as “princesas”, meninas vestidas de cor de rosa, que sonham com castelos e príncipe encantado. A loira Marcela (sim, ela é culpada disso também) fica ali, no limbo, entre a princesa indefesa e o dragão.

Por que a jornalista não comparou Marcela a outra primeira-dama, Dona Marisa Letícia? Essa era uma profissional de que área mesmo? Trabalhava onde? Lutou que batalhas, pegou em que armas em defesa da igualdade de gêneros? Que nome tem o filho de Dona Marisa, o Lulinha? Será que ela, feminista, guerreira, empoderada e independente, também não pôde nem escolher o nome do filho?

O problema, para a Folha de São Paulo e sua articulista, não são as escolhas de Dona Marisa Letícia.
São as escolhas de Marcela.

O Brasil teve Ruth Cardoso, antropóloga, e Rosane Collor, recepcionista.
Teve Marly Sarney, mãe de família, nos anos 80, e Nair de Tefé, caricaturista e vanguardeira, nos anos 10 do século passado.

Nenhuma foi eleita. Chegaram à vida pública na garupa do marido, por conta desse resquício de monarquia que é o posto de “primeira-dama”.

Ângela Alonso, autora do texto, sugere que a próxima presidenta extinga esse cargo.
Nem precisa, porque o cargo não existe, não está na folha de pagamento, não consta de nenhum organograma.
É uma tradição. É só um nome. E há de desaparecer naturalmente.

A única coisa aproveitável do discurso da petista é quando diz que precisamos de “mulheres de nervo e cérebro”.
Faltou dizer que deve ser um cérebro que funcione, não um como o seu, de uma inépcia de dar nos nervos.

Mequetrefes

 

1.
Comprovando o que disse em sua “Carta aos cariocas”, dirigida ontem a todos os patos, oops, eleitores do Rio de Janeiro, descobre-se hoje que Freixo realmente tem o hábito de fazer apenas indicações técnicas para os cargos da sua administração, sem interferências partidárias.

Tanto que sua então mulher foi assessora no gabinete de dois vereadores do PSOL enquanto era casada com ele.

Não, não é nepotismo (mulher não é parente, certo?) e a escolha foi eminentemente técnica.

2.
Por outro lado, quem é assessora de Crivella no Senado é sua própria mãe.

Mãe também não é parente, é?

3.
E o usurpador Temer, que indicou a própria mulher, a bela e recatada Marcela, para o cargo de Primeira-Dama?

Isso a imprensa golpista não fala.

4.
Renan Calheiros chamou o ministro da Justiça de “chefete”, e de “juizeco” o juiz federal que mandou prender parte da milícia – oops, polícia – do Senado.

O senadorzinho diz que vai recorrer à ministralha do STF e já foi se queixar ao Presidenteco.

O parlamentarote, investigado naquela operaçãozeta comandada pelos curitibocas, está com os nervitos em frangalhos depois da prisãozaça do deputadinho Eduardo Cunha.

5.
Aproveitando o “Dia Nacional da Adjetivação Revoltada”, comemorado ontem, Crivella chamou os jornalistas da Veja de “patetas” e os d’o Globo de “vagabundos e patifes”.

Velhaco, safado, sacana, bandido, ordinário, canalha, miserável, moleque, crápula, verme, bandalho, bilontra, birbante, bisbórria, cachorro, cafajeste, salafrário, sicofanta, mequetrefe, alarife, calhorda, safardana, pulha, biltre e fedaputa ainda devem ser utilizados ao longo da semana.

6.
Fechado o acordo de delação premiada do Marcelo Odebrecht.

O Rivotril já tinha sumido das farmácias com a prisão do Cunha.
A partir de hoje, o que deve sumir das prateleiras são as fraldas geriátricas.

E a gente zoando a Venezuela, onde falta papel higiênico.

7.
A Polícia Federal abriu processo disciplinar contra o hipster que escoltou o Cunha, por ter dado entrevistas sem autorização.

Ainda bem, porque mais uma semana e ele estava participando da Dança dos Famosos, desfilando de sunga na SP Fashion Week ou posando para a G Magazine.

Fotografia

 

Num tempo em que a fotografia era uma tecnologia cara, acessível a poucos, não se fazia fotos de comida ou selfie no espelho da academia. Tirar uma foto era um evento.

Mesmo em famílias abastadas, era alto o índice de mortalidade infantil, e muitas crianças morriam sem ter jamais ter tido a imagem registrada.

Daí o hábito de fotografar o morto para guardar dele pelo menos uma imagem, uma recordação.

Algo que o lembrasse, dentro do possível, ainda em vida. Normalmente adormecido, pensativo, em repouso. Com seu brinquedo preferido, suas melhores roupas. No berço, no colo dos pais, junto dos irmãos.

Não havia nada de macabro. Era só a fotografia fazendo o que a fotografia nasceu para fazer: mentir, tentar deter o tempo, congelar o momento.

A maior parte das imagens desses “memento mori” que se encontram na internet não são de mortos. Como a técnica ainda era complicada, demorada, as pessoas pareciam artificiais, muitas vezes apoiadas em suportes de madeira, braços amarrados para se manterem imóveis. As crianças se mostravam entediadas, ou acabavam adormecendo. Mas estavam vivas.

Hoje não fotografamos mais nossos mortos. Queremos reter deles a imagem idealizada de beleza, saúde, juventude, alegria. Por isso essas imagens nos chocam, de alguma forma.

Por mais que fossem imagens fingidas, montadas, por mais que fossem encenações, são mais honestas que as fotos que guardamos hoje dos que já se foram.

Ali eles estão tais como foram vistos pela última vez. É a visão que hoje procuramos esquecer, substituir, numa espécie de negação.

Mortos-vivos são os de agora, os que sorriem e nos olham nos olhos, depois de já decompostos – não esses.

 

Carta aos cariocas

 

Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2016

Prezado carioca,

Primeiramente, fora Temer.

É com prazer que pego da pena pra escrever essas mal traçadas linhas, esperando que esta missiva lhe encontre gozando de saúde junto aos seus entes queridos.

Meu nome é Marcelo, sou professor, quarentão, signo de Áries. Gosto de praia, blequibloque e ditaduras bolivarianas. Fui contra o golpe que derrubou a nossa querida Presidenta, e tive a honra de contar, no meu palanque, com outro ex Presidente, o Lula, aquele injustamente perseguido pelo conservadorismo careta, pela Polícia Federal e pelo STF.

Andam espalhando por aí que eu, se for eleito, vou fazer tudo que prometi no meu programa de governo. Mentira. O programa de governo foi feito apenas para a militância ficar tranquila, não invadir, não ocupar, não fumar maconha ou defecar no meio da rua, não pichar prédio histórico nem detonar caixa eletrônico do Itaú, e não atrapalhar a campanha.

Se eu for eleito, vou montar um secretariado inteiramente formado por técnicos com comprovado conhecimento, integrado, de forma equilibrada, por mulheres e homens (sem nenhum transexual, transgênero, hermafrodita ou boiola). Nenhum secretário será nomeado por indicação de partido político (o partido vai indicar é a comissão que fará uma plenária que indicará o comitê que elegerá o colegiado que vai indicar o secretário, o que é bem diferente).

Ter como prioridade a redução do custo de vida e a melhoria dos serviços públicos. (Para isso, vamos criar vários órgãos, inclusive um banco, e dar emprego a alguns milhares de militantes nossos.)

Garantir o equilíbrio do orçamento municipal, aumentando investimentos com a redução de gastos com custeio e cargos comissionados. (Neste sentido, vamos criar vários órgãos de controle e uma comissão para avaliar, no prazo máximo de 4 anos, o corte de cargos comissionados).

Revisar e tornar públicos todos os contratos da Prefeitura, de modo a afastar as empreiteiras envolvidas com o atual governo e substituí-las pelas que nos apoiam.

Respeitar os contratos em situação regular (ou seja, nenhum) e investigar o que estiver sob suspeita (ou seja, todos).

Atuar de forma ética e equilibrada junto ao setor privado, garantindo a independência da Prefeitura e o crescimento econômico (através da desprivatização do que for possível, e da estatização do resto).

Dialogar com o governo estadual corrupto, o governo federal usurpador e golpista e a Câmara de Vereadores vendida e fisiológica, priorizando os interesses da população do Rio de Janeiro.

É isso. Um beijo na família, nas crianças, que Marx ilumine seus caminhos, e garanta o nosso estado laico, em nome de Stálin, Hugo Chávez e Luís Inácio, amém.

Seu camaradinha,

Marcelo Freixo

Contexto

 

Precisamos de um dicionário que não se limite a dar o significado das palavras, mas indique também quando foi que significou aquilo.

– E aí, comeu?
– Comi.
– E valeu a pena?
– Sim. Era um pão.

Dependendo da época em que esse hipotético diálogo tenha ocorrido, essas pessoas podem estar falando da ingestão de um alimento feito com farinha de trigo, água e fermento – ou de uma aventura sexual com um sujeito boa pinta.

Ou, vá saber, de algum ato libidinoso numa panificadora, ou a triste história de um modelo vítima de canibalismo.

Porque “comer” e “pão” já tiveram, ao longo do tempo, vários sentidos, nem sempre muito compatíveis.

“Peguei uma gata sinistra”, por exemplo.

Dito na década de 70, significa que você levou pra casa como animal de estimação uma felina tenebrosa. Hoje, quer dizer que você levou um mulherão pra cama.

Como querer que alguém no futuro vá saber que sentido tá valendo?

“Transar”, inicialmente, era elaborar, não transar, como é hoje.

Os artistas transavam um disco, as pessoas transavam uma roupa pra sair à noite, e estar rolando uma transa entre A e B era tão somente A e B estarem aprontando alguma.
Lembrando que também é preciso contextualizar “rolando” (girando? acontecendo?) e “aprontando” (preparando? provocando?).

O próprio verbo “comer” já foi unissex para o ato de deglutir, e só masculino na acepção libidinosa.
Isso até Leila Diniz começar a usá-lo.

“Pegar”, por outro lado, já nasceu de mão dupla – sinal inequívoco de que a emancipação feminina chegou ao vocabulário.

“Pintar uma parada”, nos anos 70, era fazer um quadro retratando um desfile. Nos anos 2000, podia ser tudo, absolutamente tudo – menos fazer um quadro retratando um desfile.

“Neguinho passou o rodo”, “maluco só queria dar um tapa”, “a mina detonou o bombado”. Afinal, é um sujeito pegando geral, um maconheiro querendo mais uma tragada e um garota dando um toco num marombado, ou um afrodescendente limpando chão, um portador de distúrbio mental partindo pra ignorância e uma bomba pleonasticamente explodindo alguém já explodido?

Lembremo-nos de que “boceta” já foi uma caixinha.

– Sua filha tem uma bocetinha linda, senhor marquês.
– “Ora, pois, a mãe dela tinha uma igualmente pequena e delicada, mas o tempo é cruel, senhor visconde: estragou de tanto uso e hoje não tem mais serventia.

Sem situar as definições no tempo, podemos ser levados a tirar conclusões precipitadas sobre o grau de liberalidade dos costumes na época do Império.

No futuro, talvez não se entenda muito bem por que em 2016 as pessoas no Brasil gostavam de todos os frutos do mar, mas odiavam lula.

Por que, em tempos de alimentação saudável, coxinhas eram tão populares.

Ou por que procurassem tanto proteger o mico-leão-dourado do risco de extinção, mas não viam a hora de se livrar da anta.

Meteoros

 

Talvez você nunca tenha se perguntado por que caem muito mais meteoros na Rússia que em qualquer outro país. Ou por que há muito mais vídeos de acidentes de carro na Rússia do que em qualquer outro lugar do mundo.

Não é que os meteoros gostem de lá (ou, no caso, não gostem dos russos). Ou que os russos dirijam embriagados (sim, eles dirigem) e provoquem mais acidentes.

É que a Rússia é o maior país do mundo e, estatisticamente, há mais chances de meteoros caírem lá. E, como praticamente todos os carros têm câmeras, tudo que acontece é filmado.

Penso nisso quando ouço / leio / vejo petista reclamar que a Lava Jato é seletiva, só persegue petista. Não percebem (ou fingem não perceber) que o PT está para a corrupção assim como a Rússia está para os meteoros.

Pode até um meteoro despencar sobre o Liechtenstein, o Vaticano, Andorra ou o selim da sua bicicleta – mas as chances de cair na Rússia, ou na China, ou no Oceano Pacífico, são infinitamente maiores.

Penso nisso, de novo, quando vejo / leio / ouço os antifreixistas reclamarem que a grande imprensa (batizando os semoventes: Veja e O Globo) faz campanha aberta contra o Crivella, apontando seus podres nesta reta final de campanha.

Não é culpa da imprensa se o que não falta ao bispo são podres. Se ele é preconceituoso, incapaz de compreender e aceitar outras culturas, outras crenças, outras orientações sexuais. Se ele escreveu sobre isso, pregou sobre isso, deixou vídeos registrando isso. Se ele é parte do plano maquiavélico do seu tio para levar o fundamentalismo ao poder e acabar com esse nosso rascunho de estado laico.

Não que Freixo seja melhor. O aprendiz de bolivariano, que apoiou a propinocracia petista e apoia ditaduras mundo afora, odeia a imprensa livre e só pensa em estatizar e aparelhar, é o pior que podia acontecer ao Rio neste momento. É um desfibrilador aplicado no coração valente do petismo moribundo, que pode lhe dar alguma sobrevida. É a pá de cal na falida economia carioca.

Mas o passado do Crivella é uma Rússia com milhões de motoristas bêbados dirigindo no asfalto coberto de gelo – e com câmeras ligadas. É uma Sibéria oferecendo seus milhões de quilômetros quadrados para o meteoro que quiser aterrissar por aqui.

Não são O Globo, com suas manchetes de primeira página, e a Veja, com sua infeliz capa desta semana, que querem destruir Crivella. É a biografia dele pedindo passagem.

Assim como a Lava Jato não é responsável pelos desmandos petistas, a imprensa não tem nada a ver nem com o tenebroso passado do bispo nem com a tragédia anunciada do bolivariano.

Criticá-la por mostrar que o bispo está nu é culpar o mensageiro pelas más notícias.

Ficha Suja

 

Sabe o que é que Eduardo Cunha, Chico Buarque, Marcello Crivella, Hugh Grant e eu temos em comum?
Já fomos presos.

Por motivos diferentes. Mas fomos.

Aos 17 anos, Chico Buarque roubou um carro e foi preso. Tempos depois, subiu na mesa de um restaurante e atacou os outros fregueses com ovos e um discurso esquerdista – não se sabe o que incomodou mais – e foi preso também. Derrubou um muro em Santos – e foi preso pela terceira vez. Provocou um acidente de carro, e foi preso de novo.

Hugh Grant foi preso por fazer sexo no carro com uma prostituta.
Cunha, pelo conjunto da obra (mas oficialmente, por mentir numa CPI).
Crivella, por querer retomar na marra um terreno da Igreja Universal, ocupado por invasores.
Eu, por fotografar.

Aconteceu na pequena e pacata cidade de Andrelândia, terra da Solange, da Graça, da Rogéria, do James, da Alice, da Vanda, da Stella, da Lourdinha, da Delfina, da Maria de Fátima, da Valmira, do Carlos Giovanni Salomão.

Trinta anos depois de ter me mudado de lá e perdido totalmente com contato com todos esses amigos, resolvi voltar e ver se tudo estava igual como era antes.

Estava.

A mesma praça, o mesmo banco, não sei se as mesmas flores, mas certamente o mesmo jardim.

Não fosse minha casa não ser mais minha nem azul, e terem arrancado a escadaria do Colégio das Irmãs Sacramentinas (deixando-o com cara de elefante sem tromba), era como se três décadas não tivessem se passado.

Saquei a cam e comecei meu passeio sentimental pela igrejinha do Rosário, a ponte sobre o Turvo, a linha do trem, a estação, a ladeira que dava no Colégio, a casa azul e branca do James, a Igreja Matriz, a casa verde da Graça, o Fórum, e estava fotografando o cinema quando chegaro os home.

A patrulhinha parou do meu lado, desceram dois soldados com o dedo no gatilho e pediram os documentos. O que é que eu estava fazendo na cidade?
– Passeando.
E por que estava fotografando?
– Porque gosto de fotografia.
E para quê estava fotografando?
– Para mim.

De onde eu era? Por que tinha escolhido Andrelândia para passear? Onde estava hospedado? Para que queria as fotos?

Expliquei a história. Tinha morado lá quando era adolescente. Nunca mais tinha voltado. Deu saudades. Estava passando por perto, e resolvi ver como estava a cidade.

Não convenceu. Havia alguma coisa de muito errada no meu comportamento. Ninguém sai do Rio de Janeiro para ir fotografar uma cidadezinha do interior de Minas num domingo de manhã. Ali tinha treta.

Me lembrei do dr. Paschoal, meu professor de Português, pai da Lucília, promotor de justiça quando meu pai era juiz. Já tinha morrido. Perguntei quem era o delegado, talvez tivesse conhecido meu pai. Não havia delegado, eles é que eram a autoridade.

Perguntei que crime havia em fotografar se eu estava em lugar público, não tinha invadido a propriedade de ninguém.

Tocaram a campainha no prédio dos Correios, que fica bem ao lado do cinema, e chamaram o agente. O sujeito devia ter acabado de acordar. Pediram, na minha frente, que ele fizesse uma denúncia contra mim, por atitude suspeita. Que declarasse ter me visto rondar o prédio dos Correios, e por isso chamara a polícia. O sujeito concordou.

Pronto. Agora havia um crime, uma testemunha (ou potencial vítima, não sei) e eu ali, domingo de manhã, na rua deserta, com a arma do crime na mão (uma Canon 40D, com cartão de 8 gigas de memória e lente de 75-300mm), pronto para ir em cana.

Tentei ligar para o meu pai. Mas não tinha antena da Oi em Andrelândia.

Pra alguma coisa serve ter visto tanto filme de Hollywood, e falei que não ia preso sem um advogado. Só que, trinta anos depois, eu não me lembrava do nome de nenhum advogado dali. Tinha o meu professor de História, dr. Mauro Medeiros – mas quem disse que o nome dele me vinha à memória?

Os próprios policiais começaram a citar nomes, e um me pareceu familiar. Fomos pra casa do sujeito.

Abriu a porta com uma cara pior que a do prestimoso agente dos Correios. Obviamente não se lembrava de mim (saí de lá com 15 anos, estava com 45), mas tinha sido muitíssimo amigo do meu pai, e assumiu minha defesa na hora.

Não, não era caso de prisão – ainda mais depois de ouvir que a denúncia contra mim tinha sido forjada. Eu não era um perigoso marginal, um delinquente, um facínora. Só um nostálgico. Não, não precisavam me levar para a delegacia. Já tinham lavrado a ocorrência, eu já estava identificado, já tinha advogado constituído, na segunda-feira ele iria lá para pedir a baixa. E, não, não ia me cobrar nada. Que eu mandasse um abraço ao meu pai, e estava pago.

Os dois valorosos agentes da lei entraram na patrulhinha e seguiram sem mim, pelas ruas desertas, de volta à delegacia. O advogado (quem disse que me lembro do nome?) voltou para a cama. Eu perdi o tesão de fotografar (vai que sou preso de novo, e viro reincidente) e piquei a mula. Só voltei anos depois, e só fotografei acompanhado de algum amigo nativo.

Pensando bem, não foi exatamente uma prisão: não mofei atrás das grades, não fui algemado, não botei uniforme listrado nem fiquei marcando os minutos com riscos na parede.
Mas a prisão do Crivella também não foi prisão (só foi fichado, como eu) e ainda assim virou capa da Veja.

De qualquer modo, se um dia eu me candidatar ao que quer que seja, a oposição não precisa inventar nada, nem procurar nenhum escândalo sexual (que, infelizmente, não há).

É só ir a Andrelândia e requisitar minha folha corrida.
Não sou mais ficha limpa.