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Arquivos por mêsagosto 2016

Epílogo

 

1.
Acaba hoje agosto, o mês do desgosto, o mês do cachorro louco.

Como a natureza aprecia simbolismos, acabam também os treze anos (treze! olha o simbolismo aí de novo!) de PT no poder.

Quando setembro vier, não encontrará mais esse odor de mortadela no ar.

O mundo político ficará menos divertido, menos risível, menos bizarro.

Seguirão para o aterro sanitário a “nova matriz econômica”, o “no que se refere”, a palavra “presidenta”.

Retomarão seus sentidos originais “malfeito” e “estarrecida”.

Anta voltará a ser apenas um simpático e levemente estúpido mamífero perissodáctilo da família Tapiridae.

2.
Inês caiu, a casa foi pro brejo, a vaca é morta.

Mas, feito uma zumbi, se condenada, a presidenta recorrerá ao Supremo contra o “golpe”.

E se for (toc toc toc) absolvida? Recorrerá também?

Ou o “golpe” só é golpe se for condenada?

3.
– Boa tarde. Tudo bem com a senhora?
– O que está em jogo são as conquistas dos últimos 30 anos.
– Desculpe, não entendi. Quero saber se a senhora está sentindo alguma coisa, se há algum problema…
– Todos sabem que este processo foi aberto por uma chantagem explícita do deputado Eduardo Cunha.
– Não quero ser indelicado, mas a senhora marcou consulta aqui no meu consultório, e eu preciso saber o motivo…
– É golpe.
– Como assim? A senhora sofreu um golpe?
– Este é o segundo julgamento a que sou submetida. A democracia está comigo no banco dos réus.
– Foi um golpe na cabeça?
– Ao assinar os decretos, agi em em conformidade com a legislação.
– Minha senhora, ou a senhora responde às minhas perguntas ou…
– Na luta pela democracia, por uma sociedade sem ódios e intolerância, por uma sociedade livre de preconceitos e discriminações.
– Ok, vamos tentar de novo. Qual a sua idade?
– Sou uma mulher honesta, não tenho contas no exterior.
– Estado civil?
– Ministérios seriam paralisados, universidades fechariam as portas, a compra de medicamentos seria prejudicada.
– A senhora está tomando alguma medicação controlada?
– Com o apoio escancarado da mídia, criaram o clima político para a desconstrução do resultado eleitoral.
– Etelvina, me encaminharam essa paciente por engano. Aqui é ginecologia. Acompanhe-a, por favor, até a psiquiatria. Mas peça pro Lourival ir junto, porque ela está em surto e todo cuidado é pouco.

4.
Dilma cai daqui a pouco, é questão de horas.

Em seguida, cai o Cunha – é questão de dias.

E se o avião presidencial, a caminho da China, cair também?

Assume o Rodrigo Maia e se convocam novas eleições.

Eu, se fosse o Temer, viajava com um galho de arruda na orelha, espada de São Jorge na mão e mandava dar um banho de sal grosso no AeroLula, antes da decolagem.

E tratava de rebatizar logo essa joça.

┐(ツ)┌

 

Fato.
Show.
Top.

De uns tempos pra cá, ficamos assim.
Secos.
Objetivos.
Quase monossilábicos.
Incapazes de nos expressar com algum grau de complexidade.

Qualquer raciocínio que envolva uma oração principal e uma subordinada virou “textão”.

Tenso.

Adeus início, meio e fim.
Descansem em paz, tese, antítese & síntese.
Foi bom enquanto durou, réplica e tréplica.

Agora é curti e não curti.
Nada que um emoticon não expresse melhor que mil palavras.

🙂
🙁
LOL

Talvez estejamos nos aproximando do refinamento máximo da linguagem, que é o grunhido.
Usaremos barulhos polissêmicos para nos comunicar.

Uau!
Oops.
Aff…

Será o fim dos dicionários.
Em vez de várias palavras para designar as sutilezas de cada coisa, teremos uma palavra só com sei lá quantos significados.
E os significados serão cada vez mais insignificantes.

Valeu.
Lacrou.
Sinistro.

Nem é tão mau assim.
Cometeremos menos erros de Português – principalmente se nos limitarmos a desenhar coraçõezinhos ou enviar minions.

Hasta la vista, metáforas, metonímias, antíteses, hipérboles, maiúsculas e minúsculas, pontos, vírgulas, pontos e vírgulas.
Inté, sintagmas, locuções conjuntivas, pronomes oblíquos, palíndromos, sonetos, parágrafos, frases de efeito.

Fui.

O sexo frágil

 

Algumas tragédias nos comovem mais que outras. Não por serem maiores, mas pela identificação, pela empatia com as vítimas – ou com os algozes.

Esta manhã, aqui perto, um homem matou a mulher a facadas, desacordou a marretadas os filhos de 6 e 10 anos e os atirou pela janela do 18º andar, jogando-se em seguida.

Deixou um bilhete em que fala do seu desgosto por ter falhado e não ter como sustentar a família. Prefere “acabar com tudo logo e evitar o sofrimento de todos”.

Haverá, a esta altura, quem o chame de covarde, anteveja sua chegada ao inferno, extravase a reprovação nas redes sociais, execrando seu ato.

Haverá, também, quem mencione crise, desemprego, depressão. Deus e Dilma serão, ambos, citados nominal ou veladamente.

O que o bilhete escancara a dificuldade masculina de lidar com o fracasso, com a impotência, com o revés.

Somos criados para não chorar.
Não levar desaforo pra casa.
Não nos dobrar.

Para ser o esteio, o provedor, o cabeça do casal.
O responsável pelo orgasmo na cama e a comida na mesa.
O que dirige o carro e não pede informação, mesmo perdido.

A única válvula de escape para alguma humanidade é a doença.
Aí, nos jogamos nas cordas.
Fazemos cena.
Gememos alto.
Amplificamos sintomas, exageramos dores.
Passada essa trégua, recolocamos a couraça.

Minha mãe, com labirintite, fazia o almoço num pé só, escorada na parede. Meu pai, ao menor sinal de resfriado, caía de cama, gravissimamente enfermo, carente de todos os cuidados.

Quantas mulheres perderam tudo e criaram a família lavando roupa, fazendo congelados, costurando noite adentro, se prostituindo, vendendo produtos de porta em porta?

Se dobraram e retornaram à posição inicial, sem se quebrar.

O fardo nos ombros masculinos não permite essa manobra.

Sempre se pode mudar para um apartamento menor. Colocar os filhos na escola pública. Vender o carro, pedir ajuda. Mas como lidar com o ego, com o suposto olhar de superioridade dos bem sucedidos, com a pecha de perdedor?

Atirar o filho de 6 anos pela janela do 18º andar é uma forma de protegê-lo – da vida, do sofrimento, da privação.
Esfaquear a mulher é poupá-la da vergonha, da humilhação.
Lançar-se no ar, rumo aos corpos dos dois filhos estatelados junto da piscina, é escapar da desonra.

Como é frágil o sexo forte.
Como são vulneráveis os que estão à mercê dele.

Pantomimimi

 

1.
É hoje a gravação das últimas cenas do filme estrelado por Dilma Rousseff e pequeno elenco, o “Golpe de Mestra”.

O único spoiler é que não, ela não vai de taiê vermelho. Todo o resto já é conhecido.

Vai dizer que foi desmamada cedo, não a deixaram usar chupeta depois dos sete anos, quebraram sua boneca (afrodescendente e transexual), levantaram sua saia na segunda série e um coleguinha a chamava de feia, gorda e dentuça, só porque ela era dentuça, gorda e feia.

Sofreu preconceito por ter pai búlgaro, por falar “uai” em Porto Alegre e “tchê” em Belo Horizonte (ela nunca conseguiu entender direito quando usar um, quando usar o outro) e por supostamente nunca dar fé de nada do que se passava à sua volta, nem dizer coisa com coisa.

Entrou para a luta armada para derrubar constitucionalmente a ditadura militar e substituí-la por uma democracia do proletariado à moda cubana.

Foi presa injustamente após alguns assaltos à mão armada e barbaramente torturada (neste momento o plano se fecha para um close, e uma lágrima ensaiada escorre lentamente, enquanto Chico Buarque canta ao fundo “chorei, chorei, até ficar com dó de mim”).

Casou, e o marido a traiu com a Bete Mendes (que ainda era pegável, na época). Ao fundo, Chico Buarque cantará “Te perdoo por te trair”.

Sobre sua atuação no Ministério das Minas e Energia, no Conselho da Petrobras e na Casa Civil, nem uma palavra, porque não vem ao caso. Como também não vêm ao caso as promessas de campanha, os métodos de arrecadação de campanha, a divisão do butim depois da eleição, as traficâncias no poder, a lambança nas contas públicas. Corta para o golpe.

Foi traída (pelo marido, pelo vice, pela “amiga” Marta Suplicy, pelo Delcídio e pelos fatos) e não traiu jamais.
É mulher honesta (não beija na boca desde as quartas de final da Copa de 70).
Não compactua, repele as ilações e se estarrece quando insinuam que houve malfeitos em seu governo.

Empoderou as mulheres (Chico Buarque cantará “Mulheres de Atenas”), alforriou os quilombolas (Chico Buarque cantará “Morena de Angola”) e locupletou os empreiteiros (Chico Buarque cantará “Vai Passar”, omitindo aquela parte das tenebrosas transações).

Militou pela causa LGBT (larápios, gatunos, bandidos e trapaceiros).

Lutou tanto pelos pobres e pelos desempregados que eles inclusive se multiplicaram durante sua gestão.

Está sendo julgada por uma elite branca (close nos olhos úmidos da mulata Gleisi Hoffman, do cafuzo Lindbergh Farias e da mameluca Vanessa Grazziotin) e machista (close numa impassível Ana Amélia e numa inquisidora Janaína Paschoal).

Da tribuna, de mãos dadas com Lula, Chico Buarque cantará “e para meu desencanto, o que era doce acabou”.

Não haverá a cena da descida da rampa, substituída por imagens do comício das Diretas Já, da campanha pela Anistia, das comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial e da torcida do Inter no Beira Rio, toda de vermelho.

Boa parte do elenco não poderá gravar depoimentos por estar na cadeia. Mas seus nomes sobem nos créditos, como “heróis do povo brasileiro”.

O povo brasileiro não verá o filme, que só será exibido em sindicatos, acampamentos dos que continuam sem terra e cursos de História

The End

2.
Você sabe que a situação na Venezuela está mesmo periclitante quando as pessoas começam a fugir para Roraima em busca de um futuro melhor.

Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer

 

O PT não roubou apenas dinheiro público e a esperança de muita gente.

Me roubou amigos (amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui) e parte da minha história – e essa não dá pra reescrever.

Vejo a estante cheia de CDs e alguns, que guardam parte da trilha sonora da minha vida, estão lá, intocados – e talvez permaneçam intocáveis ainda por muito tempo.

Não consegui, nos últimos anos, ouvir uma canção sequer do Chico Buarque. Olho nos olhos a sua cara na capa dos CDs, e não vejo o artista, vejo o canalha. Nunca mais ouvi Chico César. Nem Caetano. Nem Gil.

Pensei outro dia: e se Milton Nascimento declarar que o impítimã é golpe, que Lula é o cara e que se o Temer assumir vai revogar a Lei Áurea – como é que eu fico? Ainda bem que o Bituca permanece na mutuca, mineiramente, e posso ouvi-lo quando sinto saudades de mim.

Hoje, no jornal, Aldir Blanc – o letrista mais inspirado deste país – recebe as homenagens pelos seus setenta anos. Hesitei em ler – porque Aldir abdicou de toda a sua genialidade para defender (canhestramente) a presidenta (“as conquistas populares foram perdidas”), e atacar “a direita exuberante com dinheiro, verdadeiros canalhas mandando, fazendo o que querem”.

Como é que o Aldir, o sujeito que me rasga a alma com bisturi, sem anestesia, consegue não ver que foi a “esquerda” que se deslumbrou com o dinheiro, que foram eles os canalhas que mandaram e desmandaram, que fizeram o que quiseram e nos colocaram no fundo do poço em que estamos?

Se Vinícius fosse vivo, não estaria também ele agarrado a uma utopia, cego à realidade? Como ouvir Tom Jobim sabendo que, entre uma baforada e outra, ele se locupleta da Lei Rouanet e faz vista grossa à violência, ao desemprego, à deseducação ? Por sorte, a morte os levou antes, poupando-os de emporcalhar a própria biografia, como fizeram tantos.

Os livros do Veríssimo continuam na estante, juntando poeira, engordando traça. Perderam totalmente a graça – logo eles, que, junto com os do Carlos Eduardo Novaes, me inspiraram as primeiras crônicas, décadas atrás.

Nunca mais vi o Jô Soares. Não que este faça falta, mas fez parte da minha infância, adolescência, idade adulta, desde que era apenas o mordomo Gordon da Família Trapo. Merecia final mais digno, destino menos magro.

Prefiro, para me poupar de mais perdas, não saber o que pensam, o que defendem, de quem são cúmplices, o Edu Lobo, o João Bosco, o Arnaldo Antunes, o Lenine. Mas é autoengano, porque sei.

Talvez se possa recuperar parte do dinheiro desviado. Quem sabe alguns anos de Lula na cadeia nos devolvam a sensação de que a Justiça funciona, e que não há mal que sempre dure.

Mas quem vai me devolver o prazer de ler, ouvir e me reencontrar com tanta gente que eu admirava e, hoje sei, tinha pés de barro, caráter de lama?

Deve ser assim a dor de corno: a fisgada no membro que já perdi. A ponta de um torturante bandeide no calcanhar.

Narrativa

 

A melhor coisa do fim das Olimpíadas não é o trânsito ter voltado a ficar apenas totalmente engarrafado, em vez de absurdamente engarrafado. É não ter que ouvir a cada quinze segundos a palavra “superação”.

Eu supero muita coisa – a inveja, a gula, o medo de pitbull, a vontade de voltar pra Bahia -, mas não a ojeriza à palavra “superação”.

“Superação” é de uma mimimice insuperável.

Não importa aonde você chegou, mas os sacrifícios que teve que fazer para chegar lá. Os obstáculos intransponíveis que transpôs. os inimigos invencíveis que venceu.

O que se comemora não é a vitória, o objetivo alcançado, e, sim, como foi foda, quanto sangue, suor e lágrimas foram derramados.

Ganhar a medalha de ouro é o de menos: se não teve infância difícil numa favela violenta, com pai desconhecido e mãe cracuda, se não sofreu bullying por ser obeso, negro ou gay (de preferência tudo ao mesmo tempo), se não foi diagnosticado com uma doença incurável ou perdeu o cachorro na véspera da decisão… esquece.

Também não vejo a hora de acabar logo esse circo do impítimã, não só para nos livrar de vez da anta e dos ratos, mas também para dar um tempo na palavra “narrativa”.

O PT inventou a “narrativa” do golpe, e a partir daí, onde quer que se fale em golpe tem que se encaixar a tal da “narrativa”.

Como assim, “narrativa”?

Narrativa, mesmo que seja pura ficção, é coisa séria, tem um enredo, uma lógica, uma curva dramática, um sentido, uma moral.

Isso aí, “no que se refere ao golpe”, é uma versão fraudulenta dos fatos. Um conto da carochinha, um engodo, conversa mole pra militante dormir. É blablabá dos bons, e só.

Teremos nova overdose de “superação” agora com as paralimpíadas (outra palavrinha intragável: por que não paraolimpíadas ou parolimpíadas?) e uma recidiva da “narrativa” nas eleições de outubro.

Depois, tomara que ambas saiam de cena, e se recolham ao Retiro das Expressões Gastas, onde poderão passar o resto dos seus dias jogando biriba com o alquebrado “paradigma”, disputando animadas partidas de dominó com o “agregar valor”, e achando “gratificante” “fazer uma colocação” “pontual” sobre uma “plataforma” com “interface” “conceitual”.

Aí é respirar fundo e aproveitar a trégua, até que outra palavra seja “empoderada” e a tortura recomece.

Caça às bruxas

 

Passada a “polêmica” das continências no pódio, o mimimi do momento é a classificação indicativa para maiores de 18 anos do filme “Aquarius” – aquele com Sonia Braga, que ganhou as manchetes menos por suas qualidades artísticas do que pelo protesto contra o impítimã durante o Festival de Cannes.

O diretor argumenta, com razão, que não é possível que ainda haja, em pleno Anno da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2016, alguma restrição à livre exibição de um pênis ereto e cenas explícitas de sexo grupal.

O pau comendo solto é só uma desculpa, insinuam os envolvidos. Trata-se de perseguição política – e ponto final.

Nestes tempos de cólera, parar numa blitz de trânsito um apoiador da presidenta Dilma ou um defensor da corrupção (dá na mesma) periga ser interpretado como uma reedição do AI-5, uma volta aos anos de chumbo.

– Documentos, por favor.
– Só porque eu sou conta o golpe?
– Não. Porque o senhor passou pelo radar a 140, e o limite é 80.
– Isso é perseguição, uma nova caça às bruxas. São as forças reacionárias, que não aceitam as conquistas dos movimentos sociais, o empoderamento das mulheres e…
– A carteira de motorista, por favor.
– Os golpistas estão tirando nosso direito de ir e vir na velocidade que quisermos. Vou denunciar isso à ONU, ao Maduro. Isso é uma afronta à democracia!

Por causa da “censura” ao “Aquarius”, os diretores de “Boi neon” e “Mãe só há uma” retiraram suas obras da disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. Querem, com isso, forçar a penetração de “Aquarius” na lista dos indicados. Deviam, também, declarar que retiram sua candidatura ao Nobel da Paz, à presidência dos Estados Unidos e ao posto de jurados do MasterChef.

– Só proibiram porque o pênis ereto tinha uma leve inclinação para a esquerda. Se fosse torto para a direita, ninguém falava nada.
– E porque na suruba as mulheres, conscientes de que seus corpos lhes pertencem, agem empoderadamente. Se fossem submissas, a cena passava sem problema.
– Adultério em novela das 8 pode, ninguém reclama. Mas sexo explícito grupal, a zelite pira. E tem coisa muito pior na Sessão da Tarde.

Pelo pouco que conhecemos do Temer, ele vai dar pra trás. “Aquarius” será reclassificado para 14 anos, e, com toda a publicidade que a “polêmica” provocou, talvez fique alguns dias em cartaz.

– Viu que pau pequeno, Adelaide? E pensar que eu saí de casa, em Coelho Neto, e peguei duas condução, pra vir ao Méier ver isso. Uma mixaria dessa eu tinha em casa.
– No iutube tu acha coisa muito melhor, Adalgisa.
– Iutube? Vai no gúgol e digita “long dong silver”. Aquilo, sim, é pra maiores de 18.

Agora, sacanagem mesmo é a Sonia Braga só topar fazer um filme com sexo explícito agora, à beira dos 70. Custava ter feito quando tinha rugas a menos e neurônios a mais?

Chicanas

 

JULGAMENTO DA ANTA – DIA PRIMEIRO

– Declaro aberta a sessão. Que comece o julgamen…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Pois não, nobre senadora Vanessa Grazziotin.

– O julgamento deve ser suspenso porque a funcionária do Senado que faz o cafezinho não teve ontem direito aos 15 minutos de descanso, conforme manda a legislação trabalhista, uma vez que foi obrigada a verificar se havia pó de café suficiente e 12 minutos depois já era chamada de volta para conferir a quantidade de açúcar. Isso é trabalho escravo, e invalida todo o processo.

– Excelente a argumentação de Vossa Excelência, mas o caso em tela deve ser levado à Justiça do Trabalho. Prossig…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Pois não, ilustre senador Lindberg Faria.

– Peço a anulação imediata deste processo porque deixei um tubo de pasta de dente no lavabo do meu gabinete e hoje, ao me preparar para esta sessão histórica, verifiquei que a tampa não só estava frouxa como haviam apertado o tubo na base, e eu só aperto no meio. Logo, houve inegável invasão do meu gabinete por parte da elite golpista, o que viola a minha imunidade parlamentar, e, portanto, o processo de impeachment deve ser extinto.

– Excepcional alegação de Vossa Excelência. Vamos levar o caso à apreciação do FBI, mas não creio que…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Franqueio o uso da palavra à insigne senadora Gleisi Hoffman.

– Este processo não pode prosseguir enquanto o Senado não tiver implantado a cota de afrodescendentes, portadores de deficiência, alunos oriundos de escolas públicas e quilombolas. Se vale para o ENEM, tem que valer para o Senado, sob pena de nulidade desta votação.

– Brilhante a colocação da eminente senadora, mas o Senado é eleito por voto popular, e, constitucionalmente, o sistema de cot…

– Questão de ordem, senhor Presidente!

– Tem a palavra a ínclita senadora Kátia Abreu.

– Deve cessar de imediato o processo de impeachment, sob pena de impugnação pela ONU, OEA, OTAN, OAB, UNE e CNBB, uma vez que o golpista interinamente ocupando a presidência não liberou verba para trazer a Brasília, de jatinho particular, com todas as despesas pagas pelo erário, o Kamura, cabeleireiro oficial da presidenta injustamente afastada. Privá-la do seu topete é cercear sua defesa, o que vai contra a Lei de Licitações, a Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, e o Código Florestal. Portanto…

– Magnífico aparte da preclara senadora, mas… O refulgente senador Caiado quer se manifestar.

– Presidente, até quando vão ser permitidas essas chicanas?

– Chicana, não! Não admito que nos chamem de chicaneiros! Senhor presidente, eu, na condição de advogado da ex-presid… da atual presidenta e, conforme parecer do eminente jurista Thomas Turbando, exijo a invalidação do processo por abuso de autoridade, atraso no pagamento, excesso de velocidade, falta de crase e aumento de ácido úrico.

– Senhores, intervalo de uma hora para o almoço, e a seguir retornaremos para…

– Questão de ordem, Presidente!

– Não pode haver questão de ordem quanto ao almoço, egrégio senador Randolfe Rodrigues…

– O almoço contém glúten, e isso retira totalmente a legalidade do processo de impítimã da presidenta!

Jornalismo isento

 

A escrotidão da Foice de São Paulo não conhece limites.

Sobre o interrogatório de Dilma, diz a Foice: “O receio é com o comportamento da advogada de acusação, Janaína Paschoal, que pode fazer perguntas para a petista. Pelo seu estilo inflamado, o temor é que ela faça provocações à presidente afastada, tumultuando a sessão”.

Quem tumultua sessão é Gleisi Hoffman, ao dizer que o Senado não tem moral para julgar ninguém.

Prossegue a porta-voz do Foro de São Paulo: “Reservadamente, senadores petistas diziam que a sessão da próxima segunda -feira pode virar um circo, diante do histórico de atuações polêmicas da advogada Janaína Paschoal durante as outras etapas do processo de impeachment”.

Quem transforma o processo em circo são José Eduardo Cardoso, Lindberg, Gleisi, Grazziotin, com suas chicanas, tentativas de tumulto, golpes midiáticos (queixas à ONU, à OEA, ao papa).

E quem quer evitar que Janaína nocauteie a interrogada não é “um senador aliado de Temer”, mas justamente os poucos que ainda não se aliaram ao presidente em exercício.

Ninguém melhor do que Janaína, a destemperada, a possuída, para apagar a luz do poste, e botar o último prego no caixão, o ponto final no “tchau, querida”.

No que se refere ao depoimento…

 

– Vamos ensaiar, Presidenta. Só mais uma última vez.

– Não precisa, Zéduardo! No que se refere ao golpe, eu sei que…

– Não precisa dizer “no que se refere”, Presidenta. Pode ir direto ao ponto.

– No que se refere a quê eu não preciso dizer “no que se refere”?

– A tudo. A nada. É só não falar “no que se refere” hora nenhuma. Pula essa parte.

– Nem ao golpe no que se refere às pedaladas?

– Não. Diga apenas, qualquer que seja a pergunta: “Não pedalei. Impítimã sem crime de responsabilidade é golpe”. Só isso.

– Digo isso no que se refere a qualquer pergunta?

– Qualquer pergunta. Se perguntarem que dia é hoje, a senhora responde “Não pedalei. Impítimã sem crime de responsabilidade é golpe”.

– E no que se refere às ilações que me deixarem estarrecida?

– Principalmente nessas, a senhora repete, como se fosse um mantra: “Não pedalei. Impítimã sem crime de responsabilidade é golpe”. Repita.

– “Não pedalei. A responsabilidade do crime, no que se refere a golpe, é impítimã.

– Não, Presidenta. E desapega do “no que se refere”.

– Não falo nada no que se refere ao golpe, então?

– Ao golpe, sim. Ao “no que ser refere”, não.

– No que se refere ao “não pedalei”, está bom?

– Sim, o “não pedalei” está ótimo. Vamos de novo.

– “Não pedalei no que se refere ao golpe. A responsabilidade é do crime”.

– Prestenção, Presidenta. São só duas frases. Pode colocar na ordem que a senhora quiser, mas são só essas duas frases.

– Ah, então posso improvisar no que se refere à ordem?

– Sim, pode. …

– “Não é golpe. Pedalei, e é impítimã no que se refere ao crime”. Ficou melhor, não?

– Não muito, Presidenta. Repita comigo: “Não pedalei”.

– Não pedalei.

– “Impítimã sem crime”.

– Impítimã sem crime.

– “De responsabilidade é golpe”.

– De responsabilidade é golpe.

– Aleluia, Senhor! Agora a frase inteira.

– A frase no que se refere ao golpe que eu pedalei ou à responsabilidade no que se refere ao crime sem impítimã?

– Eu falei que era pra chamar um adestrador, um domador de circo, alguém que entendesse de condicionamento operante…

– Zéduardo, e se, no que se refere ao crime, eu falar no golpe do cachorro, na responsabilidade da mosquita e na pedalada da mandioca em Roraima?

– Pega lá dentro biscoitinho, jujuba e a maquininha de choque elétrico, Messias. Agora é tudo ou nada.

– No que se refere à jujuba, Bessias, se trouxer diet é golpe!