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Arquivos por mêsjulho 2016

Je suis Moro

 

MANIFESTAÇÃO DE 31 DE JULHO

Manifestação hoje em Copa.

Achei que não fosse ter ninguém, porque o impítimã já são favas contadas. Mas tinha muita gente.

Só que foi uma manifestação mais à direita, mais reacionária, mais preocupante.

Surgiu uma bandeira vermelha na praia – tinha que ser baixada, recolhida, retirada das vistas. Por que não respeitar o outro, o direito do outro à divergência? A praia é de todos, o direito à manifestação também.

E dá-lhe dizer que temos que banir o comunismo (não temos: é preciso garantir que todos possam se expressar livremente), que é preciso intervenção militar (não é: é preciso reforçar a democracia).

Bolsonaro estava lá, recebendo abraços, cantando virilmente o hino dos paraquedistas, sorrindo para selfies. Vade retro.

Estavam lá os monarquistas, os devotos de Plínio Salgado, de Olavo de Carvalho, os patriotas (“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, Samuel Johnson), os xenófobos (um gritava que Dilma abriu as portas para o terrorismo islâmico se instalar aqui ao aceitar refugiados sírios; que logo estaremos sendo degolados e “nossas mulheres” feitas de escravas).

Felizmente, havia os que só estavam lá para apoiar Moro (faz aniversário amanhã, ganhou até parabéns pra você), a Lava Jato, a Polícia Federal, o saneamento das contas públicas, a ética na política.

Mais à frente (estacionadas diante do Copacabana Palace), mulheres negras protestavam contra o racismo, entre um “fora Temer” e outro – como se todas as mortes que elencavam, se toda a injustiça que diziam combater, não tivesse ocorrido justamente nos 13 anos de governo do PT.

Felizmente, as duas manifestações ocorridas ao mesmo tempo, no mesmo lugar, jamais se encontraram. Duas intolerâncias juntas não iam acabar bem.

 

Linguiça vegetariana

 

1.
Esta noite, sonhei que estava no restaurante de um amigo (não tenho nenhum amigo que tenha restaurante) e me perguntavam se eu não queria uma salada de cordeiro.

Perguntei de volta se era uma salada de carne de cordeiro (existe salada de carne de cordeiro?) ou uma salada feita na pacata cidade de Cordeiro, RJ.

Por que? queriam saber. Porque não como mais carne, eu disse.

Nem numa emergência? tornaram a perguntar.

Não sei quantas vezes na vida ocorre de estarmos presos em Alcatraz, e a única comida disponível ser uma ave que pousa nas grades da cela, ou uma barata que passa aos nossos pés, respondi – para logo corrigir a mim mesmo, lembrando que barata não tem carne.

O resto do sonho se perdeu. Não sei do que era feita a tal salada, ou se é mesmo necessário interpretar a presença do cordeiro num sonho que evoca alguém submetido às tentações da carne.

2.
Parar de comer carne é o menor dos problemas. Complicado mesmo é ter que explicar os motivos aos amigos carnívoros.

Se você jurar fidelidade ao Estado Islâmico ou participar de vaquinha para ajudar a pagar as despesas de presidenta afastada, as pessoas podem fazer muxoxo, balançar a cabeça e sibilar tsk tsk tsk entre os dentes. Mas ao recusar uma picanha ou uma pizza de calabresa, é melhor dizer qualquer coisa, menos que é (ou está em vias de ser) vegetariano.

As pessoas são capazes de entender que você tenha alergia a embutidos. Que seu médico proibiu o consumo de ovos e laticínios. Que sua religião não permite comer carne de porco. Que te disseram no centro espírita que sua mãe reencarnou galinha, e você tem medo de comer sua própria mãe ao traçar um empadão.

Mas não diga que parou de comer carne por não estar de acordo com a maneira como os animais são criados e abatidos, ou que descobriu que pode perfeitamente viver sem proteína animal, e que se sente melhor assim.

Carnívoro perdoa tudo – menos o argumento da crueldade animal.

3.
Eu, por exemplo, agora recuso carne educadamente porque estou com colesterol alto, sabe? Até podia comer um pedacinho só, mas me ataca o ciático. Aumenta os triglicerídeos, abaixa a pressão, empedra os rins, dá gastura, refluxo, pereba, frieira, caspa e provoca gases.

Mas não explico mais os motivos reais, pra não perder o tempo e/ou o amigo.

Passar por neurastênico, esquisito ou sistemático sai mais em conta.

4.
Os italianos inventaram uma coisa com o recheio em cima, chamada pizza.

Vieram os ingleses inventaram uma coisa com o recheio no meio, chamada sanduíche.

Nós, depois de muito pensar, inventamos o escondidinho, que é uma coisa com o recheio embaixo.

Acho que não há muito mais o que inventar.

5.
Não sinto falta de carne. Mas tenho tido sonhos recorrentes com linguiça.

Meu id, definitivamente, não está nem aí para minhas convicções humanitárias – ou animalitárias.

E, assim como não interpretamos o cordeiro, não vamos interpretar a linguiça. Uma linguiça, como disse Freud, às vezes é apenas uma linguiça. Ainda mais se for defumada.

Laranjeiras

 

Imagine-se senhor de engenho, vivendo numa casa grande à margem esquerda do Cotinguiba, na “Atenas sergipana”, a bela Laranjeiras, maior e mais rica cidade de Sergipe, século 19 soprando lá fora.

Você tem uma filha, a quem adora.

A filha, mesmo tendo para si o rio, as palmeiras, um céu de aquarela, e dúzias de escravos para servi-la, e suco de mangaba, e beiju de tapioca, e moqueca de aratu, e graviola, pitanga, siriguela, cajá, carambola, manga, araçá, caju – essa filha (ingrata) quer se trancar num convento e renunciar a todos esses verdes, azuis, vermelhos, laranjas e amarelos.

Você a deixaria ir, para jejuns e penitências longe de si e dos seus, longe desse rio, do seu lar, dos seus cuidados? A deixaria ir, para morrer entre freiras de maus bofes, maus hábitos, bigodes espessos, dedos carcomidos de tanto terço, tanta solidão?

Não.
Você construiria, no quintal da fazenda, um convento só para ela. E uma capela – a mais bela de todo o Nordeste, e a mais rica. E era ali que a filha querida ficaria trancada, em oração, mas a dois passos de distância, quase ao alcance dos olhos, da mão.

Ali ela morreria, e seria sepultada, e seu convento de uma freira só, sua capela exclusiva (ela e Deus), seriam sua última morada.

A casa grande ruiu, não há mais açúcar, engenho, nada. De pé, ainda, só a capela de Sant’Aninha, túmulo da menina que renunciou à vida, da filha amada.

 

Comandaroba

 

Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba

Fica em Laranjeiras, Sergipe, meio que no meio do nada.

Foi construída em 1734 pelos capuchinhos, e depois entregue aos jesuítas.

Não é uma igreja qualquer: é uma igreja avarandada – e que varanda gostosa.

É como se entre a luz de fora e a penumbra de dentro fosse necessário dar um descanso à retina. Como se após a longa caminhada, houvesse um pouso, uma pausa para tomar fôlego antes de encarar a missa.

Só faltou uma rede pendurada ali, nos arcos da entrada, para que Deus pudesse esperar pelos fiéis tomando a fresca, um refresco de cajá, uma limonada.

Não tem torres: a sineira (sem sino) é vazada, e através dela passa o vento, passa o céu.

Diz a lenda que dali sai um túnel, pelo qual os jesuítas podiam escapar – para o pecado ou fugindo do Marquês de Pombal.

Comandaroba é um rio, e quer dizer, em Tupi, feijão amargo.

 

Infantil literatura

 

Vinte e tantos anos atrás, quando começaram a me nascer sobrinhos por todos os lados, resolvi que ia escrever livros infantis para eles.

É que sempre achei livros infantis um tanto… infantis demais.
Já achava isso quando era criança.
Não me identificava com aquela prosa tatibitate, com as ilustrações toscas, que me tratavam como se eu fosse uma… criança.

Queria que meus sobrinhos tivessem algo além do que eu tive.
Não tiveram, porque dei com os burros n’água: literatura infantil não é pra principiante.

Agora que os sobrinhos já estão me arrumando sobrinhos-netos, volta a vontade de escrever para eles, e retomar o projeto.

Quem sabe não aparece um ilustrador, não me vêm novas ideias, e a coisa, finalmente, deslancha?

Fui atrás do que escrevi lá no início dos anos 90- e talvez algo ainda se aproveite. Como, por exemplo…

O PEIXINHO QUE NÃO SABIA NADAR

Era uma vez um peixinho
que não sabia nadar

Vivia junto da praia
e tinha medo do mar.

Usava boia, o peixinho,
para poder flutuar

Comprou até pé-de-pato
mas não tinha como usar.

Seus colegas de cardume
iam pra lá e pra cá

Entretanto, o tal peixinho
não saía do lugar.

Tinha medo de baleia
e até de estrela do mar

Só de pensar em mergulho
sentia falta de ar.

E então a maré subiu
a ponto de transbordar

E lá se foi o peixinho
numa onda, para o mar.

As barbatanas tremiam
como se fossem voar

De susto, bateu o rabinho
e deslizou devagar.

Viu os cascos de navios
tesouros do fundo do mar

Sereias, conchas, golfinhos
– e nadava sem parar.

Fez logo um monte de amigos
além de se apaixonar

E com um cavalo marinho
saía pra cavalgar.

Nunca mais ficou sozinho.

Nem parecia o peixinho
que um dia, pequenininho,
tivera medo do mar.

São Cristóvão

 

São Cristóvão, primeira capital de Sergipe, quarta cidade mais antiga do Brasil (depois de Salvador, Rio e João Pessoa), é tombada pelo Patrimônio Histórico nacional, e sua Praça de São Francisco é Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco.

A cidade baixa é vibrante, suja e barulhenta. A cidade alta, silenciosa, vazia, perfeita para uma viagem a outro tempo.

 

Allahmpíadas

 

– Tudo pronto para as Olimpíadas, Ahmed?

– Sim, Mohamed.

– Arrumou os homens-bomba, o carro-bomba, os explosivos, as adagas, os capuzes negros?

– Bem, houve uma reengenharia nos planos, mas tudo vai dar certo.

– Como assim “reengenharia”? Não vai me dizer que não conseguiram fazer contato com os bicheiros, com a PM ou que os artigos estavam em falta no mercadão da Uruguaiana!

– Não, não, deu tudo certo. Os bicheiros entenderam a proposta, a PM ofereceu gente e norráu, e o que não tinha na Uruguaiana a gente arranjou em Acari. É que optamos por algo potencialmente mais destrutivo.

– Ataque nuclear?

– Não. Conseguimos que as obras da Vila Olímpica fossem feitas pela Odebrecht.

– Mas isso deve ter envolvido uma logística muito complexa!

– Que nada. Já estava tudo praticamente acertado quando entramos nas negociações. O material de segunda já estava comprado, a mão de obra desqualificada já estava a postos, a fiscalização tinha sido dispensada.

– Não precisa implodir, então?

– Não, Mohamed. Vai tudo cair sozinho. Aliás, já está caindo, aos poucos.

– Sei não, Ahmed, eu preferia algo de mais impacto midiático, entende?

– Mais impacto midiático que uma Vila Olímpica com fio solto, pia vazando, vaso entupido, chuveiro sem água, entulho na escada, infiltração no teto, forro despencado, só uma tevê por andar? Com a delegação da Bielorrúsia dizendo que o lugar era insalubre e a da Austrália se mudando pra um hotel? Com a da Nigéria fazendo gracinha pra pedir que façam os reparos? Duvido.

– E os apoios locais?

– Tudo conforme o planejado. O Prefeito já falou merda, o governo federal já disse que não é com ele, o Comitê Olímpico informou que vai fazer uma rigorosa investigação (o que, em Português brasileiro, quer dizer que haverá vista grossa).

– Encheram o mar de lixo, pelo menos?

– Não foi preciso, Mohamed. Os cariocas se encarregaram disso.

– E a Presidenta vai, para receber aquela vaia estrondosa, cujas ondas sonoras botarão abaixo o que ainda estiver de pé?

– É… hmmmm…. bem…. ela declinou do convite. Diz que está ocupadíssima, e não vai poder comparecer.

– Ocupadíssima fazendo o que? Ela não foi encostada, não está mais à toa que controlador de doping na delegação russa?

– Ela passa os dias caçando tamagochi com o celular.

– Mas não é Pokémon?

– Tentamos explicar a diferença, Mohamed. Não adiantou. Fizeram uma vaquinha e ela agora viaja pelo país afora, procurando os tamagochis. Não achou nenhum, mas diz que é golpe da Nintendo, que resistiu à tortura e que não desistirá jamais.

– Ela vai fazer falta na cerimônia de abertura. Só com Ludmilla, Anitta e Wesley Safadão… sei não.

– Não se preocupe, acionamos o plano B: o Eduardo Paes vai, e deve discursar.

– Allahu akbar!
– Allahu akbar!

Silêncio

 

1.
Quer exasperar uma mulher?
Fique em silêncio.
Nem precisa fazer cara de pensativo, com o olhar distante.
Basta não dizer nada por alguns minutos.

A mulher perdoa o adultério.
Releva a crise de ciúme.
Se solidariza no momento do “isso nunca me aconteceu antes”.
Mas não tolera o silêncio.

Depois do sexo, então, é cruel.
O silêncio significa que você não está pensando nela, mas em outra coisa.
Ou em outra.
Com certeza na outra.

– Diga.
– O que?
– O que é que você está pensando.
– Nada.
– Como assim, nada?
– Não estou pensando em nada.

As mulheres só conseguem pensar em coisas, sejam concretas ou abstratas. Os homens conseguem pensar em nada, algo que ultrapassa concretude e abstração.

– Está pensando nela?
– Ela quem?
– Ela. Só pode ser ela.
– Não tem ela nenhuma.
– Então no que está pensando?

A maior frustração feminina não é ter celulite, estria, culote, pé de galinha, papada, pelanca, peito pequeno, pé grande ou pontas duplas. É não ter o dom da telepatia.

– Somos pessoas adultas. Por que você não abre o jogo comigo, Luiz Felipe?
– Não tem jogo nenhum, amor. Foi ótimo, como sempre. Só queria ficar quietinho aqui, curtindo este momento. Deita aqui, vem.
– Não vem com essa conversa mole de foi ótimo, de momento lindo, de deita aqui querida. Eu te conheço muito bem. Em que você estava pensando?
– Em nada, já disse. Só estava…
– Tá me achando com cara de idiota, é, Luiz Felipe?

Nessas situações, a única saída é mentir. Dizer que estava pensando em algo. Um problema do escritório. Uma forma de não ir ao churrasco de aniversário do cunhado. Uma cor pra pintar a parede sala. Qualquer coisa. Mas que seja algo, não um nada.

– Estava pensando num problema lá do escrit…
– Você transou comigo pensando num problema do escritório, Luiz Felipe?
– Não, Margarete. Na hora eu só pensei em você. Depois é que me lembrei do problema do escrit…
– Nem nessa hora você pensa em mim? O que é que eu sou na sua vida? Um nada? Uma coisa descartável, que um minuto depois de transar você já esqueceu, para pensar nos “problemas do escritório”.

Se ela disser isso fazendo aspas no ar com os dedos para enfatizar os “problemas do escritório”, é sinal que você escolheu mal a mentira.
Mas qualquer mentira seria uma péssima escolha.
Nenhuma ia colar.
Ela só acreditaria se você dissesse que estava pensando numa mulher. Mas você não é doido de dizer isso.

– Ok, eu estava pensando em outra mulher.

Nesse instante se esvai toda a certeza dela de que você realmente estivesse pensando em outra. Ela não tinha certeza nenhuma. Muito pelo contrário. Era só uma vaga suspeita, uma suspeita padrão, default, que toda mulher tem por via das dúvidas, assim como quem fuma para ter o que fazer com as mãos.

– Uma mulher, Luiz Felipe? E tem coragem de dizer isso assim, na minha cara, na nossa cama?
– Foi você quem perguntou.
– E tinha que me contar? Tinha que me humilhar desta maneira? Você não presta, Luiz Felipe!

Ela agora vira pro lado, calada.
Ai de você se tentar dizer alguma coisa.
Ai de você se não disser nada.

2.
Quer exasperar um homem?
Comece a falar.

Feminismo de resultados

 

1.
Os movimentos sociais devem estar pintados pra guerra contra o Comitê Olímpico, a TV Globo, o Temer e a zelite.

A escolha de quem irá carregar o nosso pavilhão auriverde na cerimônia de abertura das Olimpíadas será feita entre Robert Scheidt (velejador), Serginho (jogador de vôlei) e Yane Marques (do pentatlo).

Nenhum é negro, cafuzo ou mameluco.
Nenhum (aparentemente) é LGBTX.
Só uma é mulher – mas branca e com dentição completa.
O Robert Scheidt consegue ser homem, branco, louro, de olho azul, alemão e espada.

Por que não uma atleta transexual, afrodescendente (quilombola, caiçara ou ribeirinha, de preferência), plus size, analfabeta, com dificuldade de locomoção e militante do MST? Por que?

Preconceito, só pode.

2.
O ex senador Eduardo Suplicy tumultuou uma reintegração de posse em São Paulo.

Fez do cumprimento de uma ordem judicial o palanque de que precisava para tentar alavancar sua candidatura a vereador.

Talvez não tenha cantado “Blowin’ the wind”, mas se jogou no chão e conseguiu ser preso – garantindo precioso espaço na mídia. E grátis, ainda por cima.

E a gente que pensava que ter sido marido da dona Marta, e só conseguir ser recebido pela Dilma depois que ela foi afastada é que eram os pontos mais baixos da sua biografia.

3.
Fui, como tantos outros, batizado com o nome de Eduardo em homenagem ao brigadeiro Eduardo Gomes, candidato derrotado (duas vezes) à Presidência, nos anos 40 e 50.

A depender dos eduardos atuais – Eduardo Cunha, Eduardo Suplicy, Eduardo Paes – certamente vem aí uma geração sem xarás meus.

4.
Descobri há pouco, no BarraShopping, que óculos não são mais óculos: agora são eyewear.

Suponho que sapato também já seja footwear, sutiã seja titwear, e esmalte seja nailwear.

Não demora, a Jontex estará lançando novas linhas de cockwear, inspiradas nos Jogos Olímpicos. Podem vir o High Perfomance, o Endurance, o Perseverance e o Doping (para usuários de sildenafila, catuaba e amendoim torradinho)

5.
A sensação de vergonha alheia com os atletas australianos se recusando a ficar na Vila Olímpica inacabada e cheia de gambiarra só passou quando me dei conta de que a vergonha era nossa mesmo.

Nós é que elegemos essa corja de incompetentes, nós é que bancamos essa farra, nós é que não botamos a boca no trombone.

O mico é todo nosso – pessoal e intransferível.

6.
A combativa deputada Cidinha Campos, autora de memoráveis discursos, será a candidata a vice na chapa do peemedebista Pedro Paulo, que concorre à Prefeitura do Rio.

Sobre o fato de o candidato ter espancado algumas vezes a ex-mulher, a feminista Cidinha foi taxativa: essa é uma discussão menor para o movimento feminista, que tem que cuidar é para que mulheres tenham o mesmo salário dos homens.

Ela é contra a violência doméstica, mas “quando é com pessoas desvalidas”. Para Cidinha, a ex está bem, está feliz, está casada inclusive com um homem mais rico. Ou seja, dinheiro não falta para pagar o dente quebrado na briga.

“Quando você se separa, o pau come” – pontificou a deputada.

Luiza Brunet, portanto, não tem do que reclamar.

É o “feminismo de resultados”.

7.
A dupla Pedro Paulo & Cidinha concorre com o “pastor” Crivela, o bolivariano Freixo, o marineiro Molon, a inenarrável Jandira Feghali e Flávio Bolsonaro, cujo sobrenome dispensa apresentações.

Pensando seriamente em transferir o título de eleitor para a Austrália.

Vinte e dois

 

Não que eu leia esse tipo de anúncio, mas uma das partes mais interessantes e enigmáticas dos jornais, para mim, é a dos classificados “pessoais”.

Nos jornais de Salvador eles só não têm mais destaque que os de pais, mães, filhos e filhas de santo, com seus amores trazidos de volta, amarrações, abertura de caminhos, ebó do amor e agradecimentos a Pai Pedro de Oxalá, Odália Taróloga e Mãe Jacira de Iansã.

Nos “Pessoais”, encontro “Dominique. Insaciável. Completinha”. Às outras, suponho, pode faltar um braço, uma orelha, um dente. À Dominique, não. Talvez por isso seja insaciável.

Aiara se apresenta como “iniciante”. Anitta é “recém chegada”, assim como Milly. Podem ser vesgas, tronchas, chucras – mas acabaram de desembarcar nos anúncios “pessoais”, e isso há de ter seu valor de mercado.

Esmeralda faz “oral finalizado”. As outras abandonarão o oral no meio do caminho, ao deus dará? Seriam orais parciais, interrompidos na melhor parte, como os antigos seriados? Por uma questão de isonomia, não deveriam as demais anunciar que fazem “oral inconcluso”?

Priscila tem “boca de veludo. Anal delirante”. Não consigo entender muito bem o que uma coisa tem a ver com a outra, ou como se poderia desfrutar de ambas as aptidões simultaneamente. Quer dizer, até sei, mas prefiro não desenvolver o raciocínio.

Morena Flor é “linda, avantajadíssima”. Acacau Mel também é “avantajadíssima!” (com direito a exclamação, inclusive). Seriam obesas, hipertrofiadas? Imagino uma mulher feliniana, saída de um freak show ou de uma família de classe média americana, daquelas que comem bacon no café da manhã, hambúrguer no almoço e pizza (família, borda recheada) no jantar.

Abiany é “Empinadinha”. Deve sofrer de hiperlordose, e não sabe. Aninha é loirinha, 19 aninhos. Tainá tem 18 aninhos e é safadinha. Magrinha ninfetinha atende num privê (talvez um privezinho). Andressa é moreninha, magrinha, 20 aninhos. Não devem cobrar baratinho.

Sheilinha é “Turbinada. Anal total”. Sem as turbinas, o anal seria um anal nas coxas, por assim dizer.

Acácia tem “boca quentíssima”. Alessandra 18 é “fogosa”. Cacau Show (olha o tino comercial da moça) também é “quentíssima”. Gabriela, além de “quente”, faz “tudinho”. Quanto essa gente gastará de ar condicionado, nessa sauna a céu aberto que é Salvador?

Loira (sem nome) tem “boca picante”. Será do acarajé? “Pimenta doce” oferece ninfetas, loiras e morenas, em Itapuã. Ao sol que arde em Itapuã.

Adriana tem belas massagistas trajando “langeries”. Anitta, do Rio Vermelho, também traja “langerie”. Deve ser uma espécie de abadá, talvez de lã. Vá saber.

Ronaldinho 27cm cobra R$ 200,00 e atende na Rodoviária. A Indiazinha (“completinha”) cobra R$ 80,00. Nas Gulosas do Vasco da Gama a tarifa é R$ 50,00. No “Privê Cigana”, é a partir de R$ 40,00. Adriele faz por R$ 30,00. Também no mundo dos anúncios “pessoais” a discriminação de gênero mostra sua face.

“Travesti” (assim mesmo, sem nome) tem “22 anos e motivo”. Certamente o anúncio é pago por palavra, e “Travesti” estava descapitalizada no momento. O que seriam “22 anos e motivo”? Talvez “22 anos, emotivo”? “22 anos e 22 motivos”? “22 anos e um motivo de 22cm?”. Jamais saberemos, porque não vou ligar pra perguntar.