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Arquivos por mêsjunho 2016

Sequela

 

1.
Começou a brincadeira de goiaba e mamão entre a Justiça Federal e o menino Toffoli, Ministro do STF.

Um prende, o outro solta.

2.
A Netflix avisa que vai relançar “Perdidos no Espaço” em 2018.

Tentaram fazer isso em 2004, mas os deuses da ficção científica trash intervieram a tempo e a serie foi pro espaço.

Também, era heresia pura.. A nave dos Robinson não era um disco voador. Dr. Smith era um garotão, com uma queda pela Jude. O Will não era sardento nem tinha uma voz irritante. O robô não aparecia. E mataram a Penny (mataram a Penny!).

Consegue imaginar “Perdidos no Espaço” sem o rabugento e desmunhecado Dr. Smith pontificando “Nada tema, com Smith não há problema” ou o robô agitando os bracinhos roliços aos gritos de “Perigo, perigo se aproxima!”? Nem eu.

Falta fazerem um rimeique de Daniel Boone (gay, em união estável com Bat Masterson, vivendo numa Bonanza clean com os filhos adotivos John Boy e Mary Helen), e seu fiel escudeiro Rin Tin Tin, um gato angorá.

3.
A vaquinha para pagar as viagens da presidenta afastada alcançou R$ 100 mil em seis horas.

Isso é um quinto da meta – que teria sido atingida em minutos se o Marcelo Odebrecht, o Alberto Youssef, o Ricardo Pessoa e outros militantes não estivessem impossibilitados temporariamente de acessar a internet e fazer suas doações.

As organizadoras do craudifunde deveriam ter deixado a vaquinha para pagar as quentinhas e o cachê do carregador de guarda-chuva. Podiam muito bem ter lançado mão da Lei Rouanet.

Afinal, viagem também é cultura.

4.
Cunha propõe renunciar, desde que possa indicar o seu substituto.

Tipo assim um presidente da república não concorrer a um terceiro mandato, mas indicar um poste para tomar conta do lugar até ele voltar.

O remendo costuma sair pior que a sineta.

5.
Nova operação da PF prende Fernando Cavendish, dono da Delta.

A melhor parte da história é que o amigo de fé, irmão camarada Sérgio Cabral não tem foro privilegiado.

6.
O item 2, lá em cima, tem uma incorreção que ninguém notou porque ninguém presta mesmo muita atenção ao que lê no feicebuque.

Uma coisa é um rimeique, outra é um ribute. Ou, para quem fez CCAA, remake e reboot.

Rimeique é recontar uma história, mantendo-se fiel ao original.
Ribute é pegar alguns elementos (personagens, trama) e criar uma nova história a partir daí.

E tem ainda a continuação, que é retomar a história e contar mais um pedaço dela. Também conhecida como sequência (sequel, para os frequentadores do NYCC, na Barra).

O novo “Perdidos no Espaço” seria um ribute, não um rimeique. Como o governo Dilma foi um ribute do governo Lula, e o governo Temer está sendo um ribute do governo Dilma.

Se Dilma retornar (toc toc toc), poderá tanto ser um rimeique quanto um ribute ou uma continuação. Mas tem tudo pra ser só uma sequela mesmo.

Éticaótica

 

1.
“Não dá pra garantir que houve homofobia em Orlando”, diz o “pastor” e deputado Marco Feliciano.

Talvez não dê pra garantir também que tenha havido corrupção no governo do PT, racismo nos xingamentos ao Daniel Alves e à Maria Júlia Coutinho, ou ato libidinoso no estupro da adolescente na favela carioca.

Pode ter sido só ilusão de ótica.

2.
“Aliança com PMDB de Temer foi meu maior erro”, diz a presidenta afastada Dilma Rousseff.

Não, querida. Esse foi o menor dos seus maiores erros.

3.
Houve indignação geral com a descoberta de que a Lei Rouanet foi usada para patrocinar um casamento de bacanas em Florianópolis.

Mas numa festa animada por cantor sertanejo cujo repertório inclui os hits “Bara Bará Bere Berê”, “Dói Né” e “Vai no Cavalinho”, o que mais falta é cultura, né não?

4.
Deveríamos utilizar a Psicologia Reversa também na construção civil.

No banheiro do apartamento em Salvador, acumula-se uma lâmina d’água de uns dois dedos e o ralo permanece sequinho, impávido, tal como a neve no topo do Monte Fuji numa planície japonesa.

É preciso puxar a água com o rodo, morro acima, para que ela escoe.

Culpa de quem? Dos arquitetos e engenheiros, que especificam que haja um caimento para o ralo de 1 a 2%.

Tem que deixar bem claro para o peão que não pode ir uma gota d´água sequer para o ralo. Que a água tem que ficar empoçada embaixo da pia, atrás do vaso. Que se o ralo molhar, estraga.

Aí, sim, o peão vai se esmerar em colocar o ralo um pouco abaixo do resto do ambiente.

Enquanto a Psicologia Reversa não for aplicada à engenharia, ciclovias vão cair (“esquece as ondas, rapaz!”), prédios vão desabar (“pode derrubar, é só uma parede com função estrutural”) e a água vai empoçar no banheiro, na cozinha, na varanda – onde quer que haja um ralo.

5.
Longe de mim defender o Bolsonaro (ele é indefensável).

Mas se vão abrir processo no Conselho de Ética acusando-o de apologia à tortura por elogiar um torturador, tinham que processar toda a bancada do PT, PSOL, PC do B, por apologia à corrupção.

6.
Tenho que dar um jeito de ir embora da Bahia enquanto é tempo.

Já estou começando a gostar de Wesley Safadão.

Conceição do Almeida

 

O que não falta aqui por perto de Santo Antônio de Jesus é cidadezinha da qual nunca ouvi falar, e cujo nome, por si só, já dá saudade e vontade de voltar, mesmo sem nunca ter ido lá.

Conceição do Almeida é dessas. Não imagino quem teria sido a Conceição, muito menos o tal do Almeida. Mas o nome me evoca tradições da roça, em que sempre se é de alguém. Minha mãe, por exemplo, era Maria de Clotilde, Maria de Zizico, antes de se casar e virar Maria de Sidney.

Quase em frente à igrejinha, a barbearia me lembra de que já tem quase um mês que não aparo a barba, e que é hora de abandonar esse visual de náufrago.

O lugar é pintado de vermelho, o barbeiro se chama Lula, mas não é petista. Peço para só aparar, mas ele se entusiasma e não economiza na navalha.

Na rua em frente, o açougue é a céu aberto, para deleite das moscas. Na volta, vejo que se vendeu tudo – os mocotós, a cabeça de porco, as vísceras, e as moscas agora estão às moscas.

Mais adiante, alguém escolhe galinhas numa gaiola. Outro pinta a casa de verde, amarelo e azul, todos brilhantes. E a vendinha tem apenas meia dúzia de laranjas, todas vencidas. E outra barraca exibe apenas quatro litros de licor – o dono e os amigos, sentados ao lado, parecem ter tomado todo o resto (há ainda um litro, do de genipapo, sendo lentamente degustado).

O vento nas bandeirinhas faz a cidade parecer banhada por uma cachoeira.

Conceição do Almeida, Bahia. A que já era uma saudade antes mesmo de ter sido.

 

São Francisco da Mombaça

 

Fica logo depois de Conceição do Almeida, no caminho para São Felipe.

Da estrada, só era possível ver as bandeirolas e parte do casario, arrodeando a igrejinha, que fica de costas para a pista.

Mas não deu pra resistir: desci ali mesmo – era tudo que eu procurava: um arraial de verdade, sem palco para show, sem barraca de pizza e sem música sertaneja (tocava era forró mesmo)..

O único boteco não tem banheiro. Toma-se cerveja por conta e risco.

Boas surpresas acontecem quando se está aberto para que elas aconteçam.

 

Cruz das Almas

 

A maior tradição das festas juninas de Cruz Dazalma são as queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus.

Esqueça pular fogueira, tomar quentão ou ouvir Wesley Safadão – a boa daqui é a guerra de espadas, que consiste é soltar um rojão que voa a esmo, ropopiando pelo chão e pelos ares, mas vindo inapelavelmente na sua direção.

O folguedo é proibido, claro. E, claro, praticado a céu aberto, com hora marcada, multidões de aficcionados.

As casas se protegem com telas, e são o único refúgio seguro – no galope para fugir do bombardeio, entrei em duas, sem pedir licença.

O que não falta é banquinha vendendo bombinha, traque, rojão, e o que quer que leve pólvora, faça barulho e seja perigoso.

Há também um hilário casamento na roça e muitos, muitos entrondos.

Definitivamente, Cruz das Almas não é recomendada para refugiados de guerra, pessoas com apreço pelos tímpanos e pela própria pele.

Vinte e quatro de junho

 

Ontem se completaram 42 anos da morte do meu avô.
Hoje meu pai completaria 82.

Mortos e mortes fazem aniversário?
Ou aniversários são celebrações de anos de vida, não da passagem do tempo?

É o primeiro ano sem meu pai no 24 de junho, mas não o primeiro ano sem festa.
Meu pai deixou de comemorar a data desde que meu avô morreu, na véspera do seu aniversário. A data de mais um ano de perda se sobrepôs à de mais um ano de vida. O dia perdeu para ele a graça, a razão de ser

Ao fazer 80 anos, meu pai ainda não queria festa. Fizemos-lhe uma, quase à revelia. A desculpa para não celebrar continuava a mesma de sempre: a morte do pai, décadas antes.

O dia e a véspera de São João desde então unem meu pai a seu pai, fundem morte e nascimento, como se suas pontas se unissem, como se um ciclo se fechasse.

(Um grande medo que eu tinha, na adolescência, era que um dos meus pais morresse no meu aniversário – como meu avô morrera no de minha irmã, e meu outro avô no do meu pai – e contaminasse para sempre a data, entristecesse os presentes, amargasse o bolo, e as velas sobre o bolo evocassem outras velas, aquelas que só se apagam por si mesmas.)

Hoje é o primeiro 24 de junho, em décadas, em que não ligo para desejar feliz aniversário e não ouço, pela enésima vez: “hoje faz anos que papai morreu”, o que era uma fórmula que ele usava para dizer que não havia o que comemorar.

(Meu pai sempre se referiu a seu pai assim, desse modo infantil: “papai”
“Meu pai morreu” quer dizer que meu pai já não vive.
“Papai morreu” quer dizer que algo em mim não vive mais, também.)

Gostaria de chamar meu pai e meu avô, nesta hora, de papai e vovô. Minha irmã e meu irmão caçula é que ainda dizem “papai”. Não tenho essa força.

Por isso este texto de quase parabéns começa com:
“Ontem se completaram 42 anos que meu avô morreu.
Hoje meu pai não está aqui para completar seus 82.”

Dói menos.

O Rio Vermelho é azul

 

Amargosa

 

Porteiros não entendem de nada.

Amargosa é mil vezes mais interessante que Santantõe de Jesus.

 

O melhor São João da Bahia

 

Perguntei ao porteiro (porteiros sabem de tudo) qual o melhor São João da Bahia.

Ele não teve dúvidas: Santo Antônio de Jesus.

Depois tergiversou: tem também Cruz das Almas e Amargosa. Mas Cruz das Almas tem guerra de espadas, que deixa centenas de queimados todos os anos. Santantõe, sim, é o melhor São João.

No caminho para cá, dos dois lados da estrada, povoados, vilarejos, casinhas isoladas, tudo embandeirado, como se Volpi tivesse passado por aqui e deixado sua marca onde quer que houvesse um poste, um mourão de cerca, um terreiro, uma varanda.

Em Santantõe a coisa é mais profissional. Tem palcos e mega-atrações como Flávio José, Padre Alessandro, Adelmário Coelho, Aduílio Mendes, Os Tião, Os Cumpadi, Acarajé com Camarão, e os onipresentes Luan Santana e Wesley Safadão.

O Safadão, aliás, aparentemente estará em todos os municípios baianos (quiçá em todos os nordestinos), entre hoje e domingo. Talvez seja um caso de clonagem, de teletransporte, de bilocação (ou polilocação, plurilocação, onilocação).

Estou de olho é no show de Filomena Bagaceira – seja isso uma cantora, uma banda, ou um cover do Safadão.

 

Trem

 

1.
Marina Silva diz que é uma injustiça e uma “agressão sem tamanho” a denúncia de que teria recebido dinheiro sujo para sua campanha.

Não é.
É apenas uma denúncia – como centenas de outras a outros políticos – e que deve ser apurada.

Se não se comprovar nada, ela retoma o papel de “a virgem do puteiro”.
Se se comprovar, a casa das primas taí é pra isso mesmo.

2.
Marina Silva quer novas eleições para “repactuar a sociedade”.

Marina Silva diz que “estamos nesta situação porque as pessoas só pensam em eleição”.

Marina Silva sabe que as eleições hoje só interessam ao Lula, já que não há alternativa ou oposição.

Marina Silva só pensa em eleição.

3.
Dilma usará financiamento coletivo para viajar pelo Brasil, depois que o Temer cortou suas asinhas.

Nunca antes na História deste país uma anta dependeu de uma vaquinha pra voar.

4.
São 6:53 da manhã e ainda não caiu nenhum Ministro.

5.
Uma sujeita decidiu ficar pelada e depilar suas vergonhas em frente ao Museu de Arte Contemporânea.

Até aí tudo bem, podia ser só uma performance de arte contemporânea.

Alguns viram naquilo um ato de apoio a Dilma Rousseff, já que a despudorada empoderada gritava “Fora, Temer!”.

A meu ver, depenar o entre-as-coxas foi uma forma clara de demonstrar apoio aos coxinhas, e uma crítica sagaz aos petistas, esses pentelhos que temos que arrancar pela raiz.

Tá, ela gritava “Fora, Temer” – e daí? Queriam que ela, em posição ginecológica, gritasse “Entra, Temer”?

Ia é levar umas bifas da Marcela, que pode ser bela, recatada e do lar, mas não entende nada de arte contemporânea.

6.
Em algumas coisas, a Bahia é bem parecida com Minas.

Diz que o mineiro foi à estação ferroviária, carregando aquele monte de trem que todo mineiro carrega quando viaja.

Aí bateu uma fome, e ele resolveu comer um trem qualquer no botequim ao lado. O trem não caiu bem, e ele começou a ter um trem.

No hospital, foi atendido por uma enfermeira que era um trem de doido. E se tem um trem que mineiro gosta é ser tratado por um trem bão daqueles.

Como tinha um trem importante para fazer na outra cidade, e seria um trem danado se não chegasse a tempo, ele catou os trens, escreveu um trem qualquer como agradecimento, e por pouco não perde a locomotiva.

Pois na Bahia, a porra é mais ou menos assim também. Passa uma mulher da porra, numa ousadia que só a porra, numa porra de um vestido justo da porra. O cara, porra, fica naquele tesão da porra, se perguntando que porra é aquela, e quase acaba todo sujo de gala.