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Arquivos por mêsmaio 2016

Temeridade

 

1.
Há duas maneiras de se fazer as coisas: a sensata e a temerária.

A maneira sensata de se governar um país após 13 anos de gestões corruptas e inconsequentes deveria ser, no mínimo, com firmeza e honestidade.

Temer preferiu a gestão temerária de mudar o nome da receita sem mexer nos ingredientes ou no modo de preparo.

Convocou notórios corruptos para um governo que tem como um dos desafios combater a corrupção.

Colocou no Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle alguém que age nas sombras contra a transparência, a fiscalização e o controle.

Sabedor de que os pés de barro dos governos Lula e Dilma foram o loteamento de cargos, loteou também os seus.

Em vez de ser refém do Presidente da Câmara, fez-se refém do Presidente do Senado, trocando 12 por uma dúzia.

Acabou com o Ministério da Cultura para, em seguida, ceder às pressões e recriá-lo – sem se dar conta de que o que querem de volta não é o antigo ministério, mas o antigo regime.

E luta, tanto quanto lutou Dilma, para deter o jato saneador da Lava Jato.

Os dicionários do futuro terão dificuldade em esclarecer que a expressão “gestão temerária” não deve seu nome à gestão Temer.

2.
Na Globo News, outro dia, o Ibsen Pinheiro e o Ricardo Senner comentavam que não procede comparar Temer a Itamar, o outro vice que assumiu após um impítimã.

O espelho de Temer é Sarney, um vice que chegou lá por uma rasteira do destino, com o país clamando por mudanças, e fez merda do primeiro ao último minuto do mandato.

Ibsen e Senner não usaram a palavra “merda”, naturalmente.

Mas deixaram claro que Temer e Sarney são da mesma escola política, a dos “conciliadores”, dos que deixam como está pra ver como é que fica, dos que mudam o que for necessário para que nada mude.

A favor de Temer, apenas o fato de não ter filha governadora nem bigode.

3.
O delegado carioca acha que não houve estupro.

Mesmo a lei 12.015 dizendo que ato libidinoso com menor de idade é estupro, ele acha que não houve estupro.

Mesmo diante de um vídeo em que a vítima aparece nua, desacordada, com homens se vangloriando de haver abusado dela, ele acha que não houve estupro.

Afinal, a vítima frequentava o morro e tinha contato com os traficantes. E já teria feito sexo em grupo antes. Logo, pode-se fazer com ela o que quiser, que não é estupro.

Ainda bem que nem todos os casos de violência contra a mulher são investigados pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática.

4.
Passa por Renan Calheiros a escolha do novo Ministro da Transparência, Fiscalização e Controle.

Por que não mudam logo o nome para Ministério da Opacidade, Vista Grossa e Complacência?

5.
Depois de uma semana de chuvas, temporais e aguaceiros, me pergunto se isso aqui é mesmo a Bahia de Todos os Santos ou só de São Pedro.

Arte moderna

 

Um gaiato deixou um par de óculos no chão do Museu de Arte Moderna de São Francisco.

Sem saber se aquilo era uma só um par de óculos no chão ou uma obra de arte, muita gente admirou, conceituou e até ficou de quatro para fotografar.

Já passei por isso, no Museu de Arte Moderna do Rio.

Numa mostra, havia um pedaço de lona preta no chão. Minha primeira reação foi achar que ô povinho descuidado, que inaugura uma exposição e deixa resto da montagem espalhado.

Mas aí me deu um estalo, e comecei a olhar com mais cuidado. Vai que não era resto de obra, mas uma obra em si? Um pedaço de lona preta, jogado de qualquer jeito no chão, pressupõe certa elaboração, uma intencionalidade, talvez uma referência ao caráter transitório da Arte…

Arrodiei, arrodiei, assuntei, tentei fazer conexões com o resto da mostra, e acabou que a lona preta, fosse obra de arte ou descuido, tornou-se o objeto mais observado – não só por mim, mas por quem quer que passasse por ali, desentendido (ou, principalmente, entendido) do que fosse arte conceitual contemporânea – ou que nome tenha isso.

A partir dessa experiência, desenvolvi uma técnica para saber se uma coisa é obra de arte ou vacilo: procure a plaquinha.

Se tiver plaquinha com um título evasivo (“Investigação sobre o suporte #3”, “Da imanência inerente e descontínua”, “Estudo para um ocaso ambíguo” ou coisa que o valha), mais o nome de uma pessoa (ou de um coletivo) e uma data, não tenha dúvida: contra todas as outras evidências, é uma obra de arte.

Mas se não tiver a plaquinha, também pode ser – tipo assim uma proposta do artista de desrotular o objeto-arte inserindo-o na dinâmica fluida do espaço e rompendo a fronteira entre o objeto e o abjeto, entende?

Portanto, com placa ou sem placa, não pise, não toque, não coma, não faça nada, além de admirar com um certo ar blasê, como se tomado de náusea existencial ou de azia.

Se for obra de arte, vai ficar claro que você entendeu a proposta e o conceito (a cara de azia externa isso com clareza). Se não for, a sobrancelha arqueada e a ponta do lábio voltada para baixo (sinais de náusea existencial) vão demonstrar sua desaprovação por aquele balde com um pano de chão e um frasco de Veja Multiuso estar ali, no meio do salão.

Em outros museus, como o CCBB, a técnica pode ser outra.

Basta você fazer que vai se aproximar a menos de um metro da suposta obra.

Se a guardete disparar em sua direção, aos berros, feito uma ninja de TPM atacada por um cardume de abelhas africanas, é obra de arte.

Se ela permanecer sentadinha na cadeira dela, te observando à distância como se você fosse um simples visitante, não um vândalo em potencial, então passe reto: aquilo é só um extintor de incêndio mesmo.

Trinta homens

 

Não queria escrever sobre a menina e seus trinta estupradores.
Todo mundo já escreveu, já li quase tudo que escreveram, talvez não haja mais nada a dizer.

Não vi o vídeo. Seria como estar lá e não poder fazer nada.
Mas não foi possível deixar de imaginar a cena, o que também é como estar lá – e não fazer nada.

Era só uma menina de dezesseis anos, que talvez usasse um short muito curto, um top muito justo, talvez não fosse mais virgem (tinha um filho de três anos) e, por isso, merecia o que fizeram com ela.

Ou não: era só uma menina no lugar errado, na hora errada, no meio das pessoas erradas – e esse lugar errado é o mundo, a hora errada é agora, as pessoas erradas somos nós.

Penso nos trinta homens – homens? – que fizeram dela uma boneca inflável – sem vontade, sem amor próprio, sem direitos. Um brinquedo, algo com que se divertir.

Eram só trinta meninos, que não sabiam que faziam algo errado. Se soubessem, não teriam filmado. Não sorririam para a cam (não vi o vídeo, sei o que li), não dariam gargalhadas. Teriam feito às escondidas, e dissimulado depois.

Mas, não. Não esconderam o rosto, não destruíram o arquivo: colocaram-no na rede, para quem quisesse ver, orgulhosos do seu feito. A menina nua e desacordada era seu troféu de caça, meninos caçadores que são.

Li que a culpada é ela. Que a culpada é a cultura do estupro. Que os culpados são eles. Que somos nós.

Só que ninguém nasce estuprável ou estuprador. Tornamo-nos uma e outros, um tanto ao acaso, um tanto pelas nossas escolhas. Mas não chegamos lá sozinhos.

Há, sim, a cultura do estupro – que não nos torna a todos estupradores, mas que, se gera um único monstro desses, é uma cultura a combater.

Esses trinta (ou trinta e três, ou quantos milhares forem, já que este não é o único, há um estupro a cada onze minutos) tiveram mãe, colo, tiveram quem os cobrisse à noite, quem lhes amarrasse o cadarço, quem lhes desse o primeiro beijo. Onde foi que se lhes escapou a humanidade? Em que momento? deixaram de ser gente – capaz de empatia, de solidariedade, de respeito – para ser isso?

O estupro, coletivo ou individual, gravado e partilhado ou anônimo e jamais sabido, é uma violência contra cada um de nós. Se quem salva uma vida salva a Humanidade, quem estupra violenta todas as mulheres, avilta todos os homens.

Punir esses trinta é fundamental – saber seus nomes, colocar-lhes algemas, deixá-los enjaulados. Mas não impedirá que haja novas meninas despidas de sua dignidade e usufruídas, abusadas. Ou que novos meninos se tornem abusadores.

Logo aparecerá alguém para dizer que isso acontece porque não há ministras no governo, que a solução é a pena de morte, a castração química, a burca.

A solução não há. O que há é que não se pode permitir que isso ocorra. É preciso que as mulheres possam circular nuas, se quiserem, sem que ninguém lhes encoste a mão. E só vamos conseguir isso quando sexo deixar de ser uma forma de poder, de opressão. Quando não houver mais santas e putas, frouxos e predadores. Quando formos só seres humanos, iguais em direitos.

Até isso acontecer (e vai demorar), Educação e Justiça terão muito o que fazer para que a cada onze minutos não haja uma menina (todas as mulheres são meninas) com a alma em frangalhos.

Gerador de comunicados do Instituto Lula

 

O Instituto Lula declara que são
(  ) infundadas
(  ) mentirosas
(  ) fantasiosas
(  ) improcedentes
as
(  ) declarações
(  ) delações
(  ) confissões
(  ) revelações
(  ) suposições
do(a) sr.(a) ……… .

Trata-se de
(  ) ilações
(  ) calúnias
(  ) injúrias
(  ) aleivosias
de uma pessoa sem
(  ) caráter
(  ) credibilidade
com o único fito de
(  ) atacar a honra
(  ) destruir a reputação
(  ) macular a biografia
do
(  ) ilustre ex-Presidente
(  ) Presidente mais popular da História deste país
(  ) homem mais santo que já houve na face da Terra.

Lula
(  ) jamais conheceu
(  ) nunca esteve com
(  ) se viu, foi de longe
o(a) referido(a) senhor(a), nem com ele(a) tratou de qualquer assunto que não fosse
(  ) em favor da população mais pobre
(  ) ligado aos programas sociais do governo
(  ) no mais alto interesse nacional.

Lula
(  ) refuta
(  ) repele
(  ) desmente
(  ) contesta

(  ) veementemente
(  ) com indignação
(  ) com repulsa

mais esse(a)
(  ) ataque covarde
(  ) afronta gratuita
(  ) agressão com fins escusos
(  ) insinuação desprovida de bases reais

por parte da
(  ) imprensa golpista
(  ) burguesia ressentida
(  ) elite reacionária

e reitera que
(  ) todas as doações de campanha foram contabilizadas e declaradas ao TSE
(  ) o sítio não é de sua propriedade
(  ) jamais nomeou ninguém para a Petrobras
(  ) nunca esteve com José Dirceu, João Santana, Marcelo Odebrecht, Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, Delcídio do Amaral, Delúbio Soares, João Vaccari, Renato Duque, Pedro Correa e Alberto Yousseff
(  ) os bens desaparecidos do Palácio da Alvorada e do Palácio do Planalto foram parar em sua residência e nos cofres em seu nome por algum erro dos Correios
(  ) não fala palavrão
(  ) vive modestamente de palestras motivacionais e animação de festas infantis
(  ) não sabia de nada.

Para quando voltar a fazer análise

 

Sonhei esta noite com meu pai.

Ele estava bem, feliz, tal qual me lembrava dele antes da doença.
Parecia entusiasmado, querendo me mostrar caixas e mais caixas de fotografias.
Mas eu não me interessava pelas fotos, pelos recortes de jornal.

– Pai, como é a morte?

Ele não sabia, ou não queria responder. Talvez não se lembrasse.

– Você morreu, não morreu?

Ele concordou, a contragosto.

– E como é morrer?

O assunto não parecia ser do seu agrado. Ele estava ali, vivo, no seu escritório, cercado de caixas, pacotes, embrulhos bem amarrados. Para que falar disso?

– As coisas lá são caras. Uma (ininteligível) custa R$ 2,00.

Esperava outro tipo de revelação.

– Ouvi a voz de um santo. Mas muito baixo, muito longe.

E retomou o manuseio das caixas, cheias de fotos em preto e branco – ele com amigos, ele em seus júris, solenidades, condecorações.

Era bom vê-lo vivo de novo, jovem de novo, saudável de novo, e estar com ele, sentado no chão do escritório, entre os embrulhos bem amarrados que ele gostava de fazer, e caixas e mais caixas de fotografias.

E não voltei a lhe perguntar sobre a morte.

Homens são de Marte

 

Espalhou-se por aí a metáfora de que os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus. Ainda que tenhamos exemplos de sobra de mulheres que têm mais a ver com o deus da guerra que com a deusa do amor, e de homens que, em vez de marcianos, certamente são lunáticos, essa ideia procede e tem fundamento científico.

O dia em Marte tem quase a mesma duração do nosso dia terráqueo – só 40 minutos a mais. Por isso, quando um homem diz “estou aí em uma hora” e chega em uma hora e pouco, ele está sendo rigorosamente pontual.

Já o dia venusiano é uma parada completamente sinistra. Enquanto o nosso tem 24 horas, o de lá tem 2802. Ou seja, o dia de Vênus dura quase 117 dias daqui (116 dias e 18 horas, pra ser exato). Quando uma mulher diz “só um minutinho” e demora quase duas horas, ela também está sendo rigorosamente pontual. À maneira venusiana.

Mulher sente mais frio que homem. Não é frescura (às vezes até é), implicância ou só vontade de usar bota de cano alto, casaco e cachecol. Em Vênus, a temperatura média é de 461 graus (um pouco mais que Cuiabá em fevereiro ao meio dia), enquanto que em Marte (de onde veem os homens, fanáticos por ar condicionado no máximo) o máximo a que se chega é 17 graus (uma Curitiba no auge do verão), mas com picos de 142 abaixo de zero (uma Curitiba em julho, num apartamento face Sul, com a janela aberta e uns 3 curitibocas, daqueles bem formais, por perto).

As mulheres estão sempre se achando gordas. Não, não é vaidade ou falta do que fazer. É a gravidade. A de Vênus é 88% da da Terra – ou seja, lá elas são mesmo mais leves do que aqui.

O problema é que a gravidade em Marte é apenas 38% da nossa, o que faria os machos se sentirem muito, mas muito mais pesados que as mulheres. Ocorre que o homem atribui esse peso à consciência, não ao corpo. Um homem sempre tem culpa no cartório. Sempre tem algo a esconder. Se não fez, vai fazer. Se não fez nem vai fazer, pelo menos sonhou que fazia. O peso vai todo pra lá.

Por que as mulheres se preocupam tanto com o cabelo, ajeitam tanto o cabelo, não podem ver um espelho que lá vão elas mexer no cabelo? Coisa de quem veio de Vênus, claro. Se aqui os ventos têm, no máximo, uns 20% da velocidade da rotação do planeta, lá eles sopram (eu disse sopram?) 60 vezes mais rápido que o próprio planeta. Ou seja, brisa em Vênus é furacão. E o cabelo não para mesmo no lugar. Essa memória ancestral de descabelamento é que faz a fortuna dos fabricantes de creme rinse, dos donos de salão, das inventoras de escova progressiva e afins.

De qualquer modo, a teoria sobre os homens serem de Marte e as mulheres, de Vênus é tão correta que sempre se procurou mas nunca se achou vida inteligente em Marte.

Em Vênus, ninguém nem tentou.

Resenha

 

1.
Ônibus em Salvador é a maior diversão.

É um mercado persa.

Nunca peguei um que não tivesse pelo menos um vendedor a bordo, sempre de voz anasalada, para se destacar no burburinho que é todo ônibus em Salvador.

Vende-se de tudo.
Cheetos, paçoquita, chocolate, jujuba, halls, água mineral, prendedores de cabelo, palavras cruzadas, pares de meias (100% algodão, man!), quase tudo a R$ 1,00.

Há performances de teatro e poesia.
Concerto de violino.
Campanha para crianças vítimas de abuso.
Proselitismo da Igreja de Deus em Cristo.

Entram pela porta de trás, fazem seu merchã, agradecem (obrigado, meu lindo!) quando você compra, e não se esquecem do motorista (valeu, piloto!) na hora de saltar do buzu.

2.
Baiano é muito opiniático.
Dá palpite em tudo.
Toda prosa rende.

Sabe aquela coisa do Caetano e do Gil de falar muito, usar palavras difíceis, e entender de ponto de cruz, macroeconomia, física das partículas e unha encravada?
Pois é, aqui todo mundo é assim.

Fui cortar o cabelo e tive uma aula de filosofia.
Perguntei na barraquinha a diferença entre tapioca e beiju, e quase mudo de status no feicebuque para “em relacionamento sério”.

3.
(Se entendi direito, beiju é uma espécie de travesti da tapioca.
É a mesma coisa, o gosto inclusive é igual.
Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.)

4.
Aqui você não é bróder, chefia, sangue bom, como no Rio.
Você é nêgo, pai, papai, véi, man.

Ônibus não é ônibus nem busão: é buzu.
E o motorista é piloto, motô.

“Até fiquei” é “chega fiquei”.
Chega fiquei cansado de tanto correr atrás do buzu, man!

Você não espera duas horas.
Espera “duas horas de relógio”.

E “porra” não é palavrão.

O que o “trem” é pro mineiro, e o “lance” é pro carioca, a “porra” é pro baiano.
É adjetivo, substantivo, advérbio, adjunto adnominal, interjeição, é a porra toda.

5.
Ouvi dizer que baiano não bebe: come água.
Essa porra eu nunca ouvi, mas acredito.
Porque baiano é capaz de qualquer porra.

6.
Não espere ouvir Bob Marley nem Skank se um baiano te convidar pra um régui.
Régui pode ser axé, pagode, funk.

“Ir pro régui” é ir pra naite, pra balada.
Pode ser, inclusive, que nessa porra até role um reggae.

7.
Tem uma porra que eu ainda não descobri o que é: resenha.

Não tem a ver com uma descrição, com um resumo.
Tem a ver com… não sei.

Tento pegar pelo contexto, mas o que funciona num contexto não funciona no outro.

Oxe! Essa é barril de entender.

8.
Porras que nunca pensei que você viver o suficiente para ver:

1. Petista se deleitando com vazamento seletivo de gravações telefônicas.
2. Petista exigindo a demissão de ministro corrupto.
3. Petista criticando quem quer melar a Lava Jato.

Chega fiquei despaginado com essa resenha da porra.

Teori da conspiração

 

Tenho uma teoria (e não é uma teoria zavasque, uma teoria qualquer).

O impítimã foi golpe, sim.

Um golpe dado pelo PT.

Um autogolpe.

Dilma não tinha como se manter no poder. Não tinha credibilidade, não tinha competência, não tinha popularidade, não tinha mais de onde tirar dinheiro para financiar a quadrilha.

O TSE ia, mais cedo ou mais tarde, cassar a chapa Dilma + Temer, convocar novas eleições. Um adversário (Aécio) ou uma ex-correlegionária (Marina) ia ganhar e o PT estava fora do jogo.

Devem ter ido a um centro espírita e consultado o Golbery, o Jânio, ou à Papuda e tido uma conversa ao pé de ouvido com o Dirceu no parlatório. Por que não um autogolpe?

Encenaram um impítimã, afastaram Dilma temporariamente e colocaram lá o Temer, com a única missão de provar ao mundo que político é tudo igual, que o Brasil não tem mesmo jeito, que o PT não era tão estratosfericamente corrupto assim – apenas um pontinho ligeiramente fora da curva.

O presidente decorativo interino nomearia ministros corruptos, tentaria barrar a Lava Jato, faria a classe artística dar um piti, ameaçaria recriar a CPMF e, com a ajuda da Folha de São Paulo e da aguerrida militância (na verdade, a Folha faz parte da aguerrida militância, não sei por que distingui uma da outra) criaria na população aquela sensação de desalento, de mais do mesmo, de “pelo menos com a Dilma a gente se divertia mais”.

Provado que Temer não é a solução, nem paliativa, Dilma voltaria ao poder nos braços do povo, após 180 dias descansando a imagem.

Voltaria mais magra, repaginada, com mais botoques, um novo corte de cabelo, e a gente ficaria feliz de ter a coroa maluquinha de novo saudando o inhame no que se refere ao cachorro atrás de uma criança – com aquela doce nostalgia que nos faz engolir reprises sob a alegação de que vale a pena ver de novo.

Por que Temer toparia? Porque ele é PMDB, e o PMDB topa tudo.

Onde é que o Serra e o Meirelles entram nisso? Inocentes úteis: um arrumaria a economia (para o PT ter de novo de onde roubar) e o outro daria um chega pra lá nos parasitas bolivarianos (o que representaria uma despesa a menos).

O Oscar de “Melhor Performance Digna de Novela do SBT” iria para os indignados Lindbergh, Gleisi e Cardozão. O de melhor coadjuvante, para a Letícia Sabatella. Lula levaria o de “Efeitos Especiais”, chorando na descida da rampa.

Só não sei se combinaram com o Moro.

Porta pantográfica

 

Uma vez, meus primos de Belo Horizonte foram nos visitar em Andrelândia. Eram primos ricos e chiques, que moravam em apartamento. Morar em apartamento, para mim, era o cúmulo da riqueza e do chiquê.

Como se não bastasse não terem quintal (quintal era coisa de pobre, de quem morava em casa), eles andavam de elevador.

Elevador só existia em Belo Horizonte (dizia-se que também em Juiz de Fora, mas disso não havia comprovação científica). E um dos pontos altos de qualquer ida a Belo Horizonte (além do torcicolo de tanto olhar para os arranha céus da avenida Afonso Pena) era andar de elevador.

Não importava o andar, não importava para onde se ia, o que se ia fazer: o objetivo não era o destino, era o meio. O elevador se bastava.

Meu favorito era o de porta pantográfica, em que as lajes subiam (ou desciam), ritmadas, como um filme que acontecesse ao vivo, e que dava vertigem. E com a excitação extra de ser mais perigoso, pois se podia prender a mão na grade e ter os dedos decapitados para sempre ali mesmo, sem clemência.

Elevador pantográfico era uma espécie de peixe com espinho, de pé de jabuticaba madura, de tempo de manga – uma delícia só comparável em grandeza aos perigos que trazia em si.

Pois meus primos (ricos) de Belo Horizonte andavam de elevador quando bem entendiam, até mesmo para chegar em casa. O que eu fazia duas vezes por ano eles faziam várias vezes ao dia.

Talvez nem fossem ricos, ou mais ricos do que nós – mas eram privilegiados, e o privilégio é uma riqueza imaterial, mas quase palpável.

Pois os primos foram nos visitar, em nossa humilde Andrelândia (que até hoje não deve ter elevador), em nossa humilde morada azul celeste de dois pavimentos, imponente, com amplo jardim de hortênsias e bicos de papagaio, varanda e rampas. Nada que se comparasse a um apartamento com um terço do tamanho, sem jardim algum – mas com elevador.

E se encantaram com algo que jamais haviam visto, nem supunham existir: galinhas vivas.

Para eles, galinhas viviam, já devidamente mortas e congeladas, em supermercados. Vinham embaladas, sem penas, prontas para ir ao forno ou à panela. As nossas, não: ciscavam pelo terreiro, olhando assustadas para um lado e para o outro, corriam à nossa aproximação, batiam asas, chocavam pintos.

Me lembro que queriam tocar aqueles seres, alisar suas penas, sentir seu coraçãozinho de galinha palpitando acelerado, tanto quando eu queria entrar num elevador e apertar um botão qualquer (o de maior número, se possível) e arriscar a vida a menos de meio metro da traiçoeira porta pantográfica.

Descobri ali que tínhamos também uma riqueza, uma fonte de encantamento – ainda que prosaica, cacarejante, e nem de longe tão vertiginosa quanto um elevador de portas pantográficas.

Minha inveja serenou por algum tempo – apenas o suficiente para começar a sonhar com não ter que correr atrás das galinhas no domingo de manhã, acuá-las, cansá-las, até, finalmente, agarrar uma pelas asas e levá-la, triunfante, para ser sacrificada por minha mãe – sangrada sem dó, como se fosse um refém do Estado Islâmico – e depois depenada em água fervente, destripada, recheada com farofa e ir, de fundilhos costurados, ao forno, para então, dourada e aninhada em seu leito de alfaces, ocupar lugar de honra em nosso almoço dominical.

Não. Meu sonho passou a ser entrar num supermercado (Andrelândia não tinha supermercados), ir até a gôndola (Andrelândia não tinha gôndolas) das galinhas e capturar solenemente uma delas, já pacificada, conformada, nua e congelada.

Se possível num supermercado que tivesse elevador- com porta pantográfica.

Provinha de aritmética, nível maternal

 

1. Joãozinho ia ganhar R$ 500 mil de patrocínio do Ministério da Cultura. Agora Joãozinho vai ganhar R$ 500 mil de patrocínio da Secretaria da Cultura. De quanto foi o prejuízo de Joãozinho?

a) R$ 500.000,00
b) R$ 1.000.000,00
c) R$ 2.000.000,00
d) Uma fortuna incalculável
e) Não sei fazer conta, sou de Humanas.

2. D. Maria tem dois filhos, Juquinha e Pedrinho. Juquinha é miserável e recebe uma bolsa família de R$ 28 bilhões. Pedrinho é empresário e recebe uma bolsa empresário de R$ 270 bilhões. Sem usar a calculadora, podemos afirmar que:

a) Juquinha é o filho preferido de D. Maria, e sua razão de existir.
b) Juquinha é o principal motivo de D. Maria não ter um tostão no bolso.
c) Juquinha deve apoiar incondicionalmente D. Maria porque ela faz tudo que pode para tirá-lo da miséria.
d) Juquinha devia dar um pouco do que tem ao seu irmão menos privilegiado pela sorte, Pedrinho.
e) Não sei fazer conta, sou de Humanas.

3. Mariazinha tinha um negócio em que investia R$ 2,6 bilhões em Cultura. Ela passou o negócio adiante, a contragosto, com uma dívida de R$ 200 bilhões. Sobre Mariazinha é correto afirmar:

a) Nossa, como ela valoriza a cultura! Vamos apoiá-la.
b) Puxa, cultura era sua prioridade! Vamos defender que ela continue à frente desse negócio.
c) Caramba, como ela gastava em cultura! Mariazinha é boa companheira, Mariazinha é uma pessoa batuta.
d) Mariazinha é uma guerreira da cultura brasileira.
e) Não sei fazer conta, sou de Humanas.

4. Zezinho é empreiteiro. Ele constrói casas vagabundas para quem vivia em barracos vagabundos e agora vive muito mais feliz e satisfeito porque sua casa é sua vida. Com o rombo que sua patroa deixou na empresa, daria para Zezinho construir casas vagabundas ininterruptamente por 8 anos. É correto afirmar que:

a) Ainda bem que o dinheiro do rombo foi para outro lugar, porque ia faltar material de segunda no mercado, e não haveria gente para tanta casa vagabunda.
b) A casa e a vida das pessoas era uma prioridade da finada patroa de Zezinho.
c) Se as casas fossem menos vagabundas, o dinheiro que foi para o ralo daria para construir moradias por apenas 6 ou 7 anos.
d) Se as casas fossem ainda mais vagabundas… bem isso é quase uma impossibilidade, então pule essa alternativa.
e) Não sei fazer conta, sou de Humanas.

5. Cidinha recebeu uma fortuna de seu padrinho, e deixou de herança uma dívida de R$ 200 bilhões. Sem contar nos dedos ou colar do seu coleguinha, você diria que:

a) Cidinha é uma administradora muito competenta
b) Cidinha é uma pessoa honrada e honesta. Foram as más companhias.
c) Como Cidinha herdou a fortuna legalmente, ninguém pode fazer nada.
d) O padrinho de Cidinha deve estar muito tristonho e arrependido – e seus herdeiros, mais ainda.
e) Não sei fazer conta, sou de Humanas.