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Reflexões matinais sem muita dor

 

1.
O inconformismo dos petistas com a Lava Jato vem da sua certeza íntima de que o país não está contra a corrupção, mas contra a corrupção “deles”. Isso porque, por princípio, eles nunca foram contra a corrupção, mas contra a corrupção “dos outros”.

Como Dilma, que não lutou contra a ditadura, mas tentou derrubar uma ditadura pra implantar outra, os petistas não entendem que se possa ser contra o conceito de corrupção (ou de ditadura) em si, independentemente de quem seja o beneficiado.

O PT crê firmemente que os fins escusos justificam os meios ilícitos.

2.
(Quadrinha de pé quebrado)

Já nasceu com o pé esquerdo
Meteu os pés pelas mãos no caminho:
Começou em pedalada
Acabou em pedalinho

3.
Não tenho amigos petistas, apenas uns poucos “não sou petista, mas…”, que garantem que fiquei monotemático – mesmo que escreva sobre minhocas, ateísmo e conjunções adversativas.

Alguns insistem que eu devia parar de ler a Veja. Porque, como todo coxinha que se preze, eu seria um Bob Esponja ideológico, cem por cento influenciável e sem qualquer senso crítico.

Por motivos nem um pouco político-partidários (apenas puto com o péssimo atendimento do SAC da Abril), cancelei a assinatura da Veja e (quem diria!) o processo de desencoxinhamento não foi deflagrado automaticamente.

Mesmo sem oferecer meu cérebro toda semana em sacrifício no altar da imprensa golpista, continuo achando que roubar é feio, que o público não é privado e que bandido tem que ir pra cadeia.

Pode ser que uma Veja residual ainda esteja impregnando meus neurônios, e leve tempo para ser eliminada. Pode ser que eu tenha uma falha de caráter e trabalhe com artigos anacrônicos como valores morais.

Tudo que preciso é que apareçam uns cinco milhões de dólares na minha conta na Suíça. Dependendo de como eu reagir, saberei se me tornei um socialista do século 21 ou se a Veja me lesou de vez.

4.
(Haikai do medo inconfesso)

será isso o progresso?
sai a OAS
entra o Aécio

Mas…

 

O “se” não é a partícula mais insidiosa da língua portuguesa. O título pertence ao “mas”.

O “mas” é traiçoeiro. O “mas” te alcagueta, te aponta a braguilha aberta, a couve no dente, a meia furada, a bunda de fora.

É o “mas” que mostra a distância entre o que você diz e o que quer dizer. Entre o que o cérebro maquina e o que chega à boca.

O “mas” passa uma borracha impiedosa sobre tudo que veio antes. Faz política de terra arrasada e estabelece: o que vier depois de mim é que vale.

Você é um ótimo funcionário, mas…
Eu te amo, mas…
Seu currículo é muito bom, mas…
Você tem razão, mas…

Não, você não tem razão. Seu currículo não é tão bom assim. Você não é um ótimo funcionário. Não te amo mais.
Difícil de dizer, assim, na lata, não?
Há coisas que a sinceridade não ousa. Para todas as outras, existe o “mas”.

A conjunção adversativa te permite acariciar a cabeça antes de descer a guilhotina.
Bancar o sensível, o bonzinho, antes de fazer o que tem que ser feito.

Não sou racista, mas não namoraria uma negra.
Não sou machista, mas acho que mulher não tem capacidade de julgar.
Não sou homofóbico, mas não suporto ver dois homens se pegando.
Não sou petista, mas por que não investigam o FHC?

O “mas” denuncia sua covardia, sua tibieza, sua hipocrisia.

O “mas” não é uma ponte entre as margens opostas de um rio – é uma estreita passarela entre dois navios indo em direções contrárias.
Sob a ponte do “mas”, há o mar.

Dica do dia: troque o “mas” por “e”, e veja se seu texto se mantém de pé.
Se não se mantiver, decida o lado de que quer ficar.

Paladino da Justiça

 

“É difícil fazer com que alguém entenda algo quando seu salário depende do não entendimento desse algo.” (Upton Sinclair, escritor americano, citado por José Padilha, cineasta brasileiro).

É difícil querer que alguém perceba o óbvio quando esse óbvio põe em xeque todo o seu sistema de crenças.

Para certas pessoas, Lula continuará sendo o líder operário honesto, defensor dos pobres e oprimidos, paladino da Justiça, não importa quantos indícios, evidências e provas sejam encontrados pela Polícia, demonstrando que se trata de um milionário corrupto e corruptor, que arrastou milhões para a pobreza, destruiu a outrora sexta maior economia do mundo, zomba da Justiça e se considera acima da lei.

Para essas pessoas, é irrelevante que Lula seja efetivamente honesto, vítima de preconceito, inimigo das elites – basta que ele se afirme como tal. A palavra fala mais alto que o fato. Principalmente se for a palavra que se quer ouvir, e o fato que faz desmoronar o castelo de cartas.

Quando um petista, hoje, afirma algo, apenas externa sua negação. Não vai ao cerne da questão, não aborda pontos objetivos: se desvia, se contorce, se agarra a sofismas, dogmas, clichês, feito um afogado que, na falta de um colete ou de um bote salva-vidas, busca apoio no vento, na espuma.

Como no câncer (toda ideologia que cega é um câncer) o passo seguinte é a raiva. Que vai se expressar em violência, intolerância, que vai fazer vítimas, aprofundar a crise, abrir ainda mais o fosso entre o “nós” e o “eles”.

Diz a teoria que depois vêm a negociação, a depressão, e a aceitação final. Talvez o petismo seja mais maligno, e fique só na negação e na raiva, não admita redenção.

Foi assim com a denúncia dos crimes de Stálin. Ainda hoje há quem não acredite nos milhões de mortos dos gulags – ou do Holocausto – nem mesmo diante de suas ossadas.

Não importa quantas evidências haja de que Lula seja um bandido, o chefe da quadrilha. Para os membros da seita, ele seguirá venerado feito uma Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido.

4 de março

 

4 de março de 2016.
A História não dá saltos nem piruetas. Ela marcha, ralentado, acelerado, em ordem unida, cada um por si – mas marcha, um passo depois do outro, num movimento contínuo, um gesto nascendo do anterior e gestando o seguinte, um revezamento de protagonistas, tocha passando de mão em mão (pra gastar ainda mais as metáforas olímpicas).

Não há fraturas, hiatos, transubstanciações.
Há inflexões. Momentos em que o cru já pode ser chamado de cozido, em que o mal passado chegou ao ponto.
E aí a História anota a data: 4 de março de 2016.

Ontem tocou-se o intocável.
O inefável foi pronunciado, em alto e bom som, com todas as letras.
O rei, que desfilava chacoalhando as vergonhas, foi autuado por atentado ao pudor.
O brasileiro cordial (aquele que pensa com o coração) descobriu que pode pensar também com o fígado.

Não houve qualquer revelação (alethea é só uma metáfora): todos sabíamos desde sempre quem era o capo, o chefe da quadrilha, o “Pai” da facção.
Sabíamos onde morava (num sítio que não era seu), onde iria morar (num triplex que não lhe pertencia), onde estavam suas tralhas (num depósito pago por bolso alheio).
Era só questão de tempo para chegar até ele.
4 de março de 2016.
O início do fim do tempo de plantar, o fim da espera pelo tempo de colher.

~

Convidado coercitivamente a depor, Lula mentiu.
No depoimento e, principalmente, depois dele.

Disse que nunca se furtou a prestar esclarecimentos.
Sempre furtou, e muito, e não só a prestar esclarecimentos.
Nunca esclareceu as “palestras”, os “presentes de amigos”, os bens em nome de terceiros.
Apelou à Justiça para não ter que depor, para não ser investigado.
Perdeu.

Mentiu ao dizer que não deve (deve) e não teme (agora, mais que nunca, tem muito a temer).

Mentiu ao dizer que os filhos são perseguidos por serem seus filhos.
Não são perseguidos, são investigados. E por crimes comuns, não pelo infeliz DNA que carregam.

Mentiu ao dizer que foi sequestrado em casa.
Foi levado com base em ordem judicial, sem algemas, sem violência, para depor em local público e sabido, à luz do dia, diante de seu advogado.
Sequestro foi o que ele fez com o dinheiro público, com a ética, com as esperanças de quem votou nele pensando no bem do país.

Apelou para a vitimização.
Enquanto os que o “prendiam” não faziam nada, ele lutava pelo direito de expressão (inclusive a imprensa golpista?) e d. Marisa (aquela que se deslumbrou com a vista do Guarujá e plantou o símbolo do partido nos jardins do palácio) era empregada doméstica.

Conclamou à luta os seguidores da sua seita.
Se houver sangue no que os seus militantes já chamam de “março sangrento”, ele lavará as mãos, como sempre fez.
Tingir o Brasil de vermelho faz parte do seu show.

Pateticamente, se comparou a Bill Clinton, a Kofi Annan.
Pateticamente, afirmou que só faltaram levar sua neta de um mês, e mandarem exumar sua mãe.
Pateticamente, em pleno estado de direito, afirmou que hoje quem condena são as manchetes.
Pateticamente, informou ter 70 anos e um tesão de 30.

Ao contrário dos representantes da Polícia Federal, que concederam entrevista coletiva e não se furtaram a qualquer questão, Lula não permitiu perguntas.
Discursou rodeado por sua corte de gleisis hoffmans e mocinhas da outrora combativa união dos estudantes.
O homem que não pode sair à rua sem ser vaiado fez questão de descer do carro e encenar para as câmeras a entrada triunfal em casa abraçado por militantes. Isso depois de reclamar do espetáculo midiático de sua “prisão” (que, infelizmente, não houve – ainda).

~

Lula só não mentiu numa coisa: ao dizer que a jararaca não morreu.
O que ele talvez não saiba é que as jararacas não são eternas.
E bem antes do que supõe sua chã filosofia, a Justiça estará mostrando o pau.
Aquele mesmo que foi levantado ontem, 4 de março de 2016.

Pressuposto da culpa

 

– Jurandir, é verdade isso que tá todo mundo falando a seu respeito?
– À partida, Lucimar, não posso confirmar o conteúdo dessas informações.
– Mas o travesti contou tudo!
– Não conheço a origem.
– Tem até foto de você vestido de Chapeuzinho Vermelho ao lado do traveco pelado com uma máscara de Lobo Mau!
– Não reconheço a autenticidade do documento.
– Como não reconhece, se ele está praticamente esfregando o documento na sua cara, Jurandir!
– Esse travesti não tem credibilidade.
– Quem não tem credibilidade nem vergonha na cara é você, seu cretino!
– O que a Brenda Samantha disse não sobrevive a uma análise mais profunda.
– Como é que você sabe o nome dela?
– Em momento algum, nem antes, nem depois, eu disse que sabia o nome dela.
– Bem que eu devia ter desconfiado. Um chupão aqui, umas unhadas nas costas ali, uns fios compridos de cabelo louro acolá, aquelas manchas estranhas na roupa, umas despesas num certo Motel L’Amour aparecendo no cartão de crédito… Como pude me deixar enganar por tantos anos, meudeus?
– Eu continuarei defendendo que o princípio da presunção de inocência vale para todos por ser um instrumento fundamental do nosso casamento. Continuarei defendendo que a presunção de inocência não pode ser substituída pelo pressuposto da culpa. Nem tampouco dar lugar a execração pública sem acusação formal e a condenação sem processo por meio de vazamentos ilegais e seletivos.
– Eu sei muito bem a que vazamentos você se refere… As manchas não saíam nem a pau! E a idiota aqui esfregando com vinagre, passando Vanish, que tira as manchas mais difíceis…
– Lucimar, todas as minhas ações têm se pautado pelo compromisso com o fortalecimento das instituições familiares, pelo respeito aos direitos individuais, o combate ao adultério e a defesa dos princípios que regem o sagrado matrimônio. Os vazamentos apócrifos, seletivos e ilegais devem ser repudiados e ter sua origem rigorosamente apurada, já que ferem a lei, a Justiça e a verdade.
– Olhe nos meus olhos e me diga que você nunca esteve no Motel L’Amour com a Brenda Letícia.
– Brenda Samantha. Com TH.
– Que seja.
– Não podemos, no momento, nos manifestar sobre a fidedignidade dos fatos relatados
– Olhando nos meus olhos, Jurandir!
– Esses expedientes não contribuem para a estabilidade do nosso casamento.
– Olha nos meus olhos e descruza os dedos, Jurandir!

Zung zwang

 

Estou estarrecido.
Delcídio cometeu o PTcídio na delação premiada e contou que Dilma e Cardozão manobraram para livrar da prisão os investigados da Lava Jato.
Quando que a gente ia imaginar uma coisa dessas?

Quando íamos sonhar que uma Presidenta da República, eleita democraticamenta, iria chamar um juiz na chincha e pressioná-lo a decidir conforme os interesses do partido?
Estou estarrecido.

Estarrecido continuei ao saber que foi Lula o mandante da proposta indecorosa para livrar o Cerveró – e que custou a temporada do Delcídio no xilindró.

Mas todo mundo sabe que Lula não manda nem instalar elevador privativo, nem escrever o nome dos netos nos pedalinhos, quanto mais bancar plano de fuga de bandido!

Estarrecedor.
Ainda bem que o Cardozão, agora Advogado de Porta de Cadeia Geral da União, veio a público esclarecer que o ex líder do seu partido no Senado não tem credibilidade.

Será que tinha e perdeu? A gente perde tanta coisa – guarda-chuva, caneta bic, o juízo, a mocidade – por que não perderia também a credibilidade?

Ou nunca teve e o governo, que jamais sabe de nada, que saúda mandioca, estoca vento e compra refinaria enferrujada, é que ainda não tinha se dado conta?

Nunca imaginei que Lula e Dilma fossem capazes de algo assim.
Meu mundo caiu. Aguardo ansiosamente Ruy Falcão e o Instituto Lula lançarem o desmentido.

Até lá, continuo sem condições de opinar. Totalmente estarrecido.

Nada de novo no front 2

 

1.
Custava o Brasil, tão alinhado à vanguarda do “socialismo do século 21”, engatar uma ré e pegar o bonde do bom e velho comunismo do século 20? A China seria um ótimo exemplo a seguir: anunciou ontem que vai demitir 6 milhões de comunistas que ocupam cargos públicos.

Se Dilma fizesse o mesmo aqui (nem precisava ser 6 milhões: uns 5 milhões e meio já estava de bom tamanho), aliviaria a folha de pagamento, não comprometeria em nada o desempenho da máquina pública (muito ao contrário!) e salvaria o emprego de dezenas de milhões de brasileiros.

2.
O PT é contra flexibilizar as leis trabalhistas para garantir empregos e evitar a quebra de mais empresas, e, consequentemente, novas demissões.

É perfeitamente coerente: o partido é, já no nome, só dos trabalhadores. Tem que defender os trabalhadores. Sejam eles muitos, poucos ou quase nenhuns. Os desempregados que se danem.

3.
Para acalmar Lula, Dilma trocou o Cardozão por um pau mandado do Jaques Wagner. Não sairia mais barato fundir a Casa Civil com o Ministério da Justiça, e deixar o próprio Jaques botar focinheira no Ministério Público e cortar as asinhas da Polícia Federal, sem intermediários?

Economizava um salário de ministro, a conta de luz de um ministério, a impressão de novos cartõezinhos e dispensava o boneco de ventríloquo. Além de liberar o único neurônio ainda parcialmente ativo da Presidenta da ingrata tarefa de decorar o nome de mais um ministro.

4.
Previsão do tempo para março de 2018:

– Para acalmar Lula, Dilma nomeia Ruy Falcão para comandar a Polícia Federal.

– O Instituto Lula informa que D. Marisa Letícia não é mulher de Lula. Ela é mulher de um amigo dele, que a disponibilizou para o ex presidente em função das relações de amizade.

– Taxa de desemprego bate novo recorde de 98%. PIB já é menor que o do Haiti. Impopularidade de Dilma chega a 178%. Oposição diz que prepara discurso duro e que se o governo não der sinais de que está aberto ao diálogo construtivo, ai ai ai.

– Eduardo Cunha adia pela milésima ducentésima nonagésima quarta vez a votação de sua cassação no Conselho de Ética.

– Marcelo Odebrecht aceita fazer delação premiada, mas a Polícia Federal não tem mais papel, caneta, dinheiro pra gasolina, cortaram a luz – e fica por isso mesmo.

Minhoca

 

Não creio em reencarnação – o que é uma pena, porque seria ótimo retornar com um apigreide, tendo a chance de viver de novo como um ser mais completo, mais sábio, mais evoluído. Minhoca, por exemplo.

Minhoca mora na própria comida. Deu fome, não precisa descongelar lasanha no microondas, entrar em fila de restaurante a quilo, contar calorias, verificar se contém glúten: é só abocanhar o que estiver mais perto – a parede, o teto ou o piso (o gosto, inclusive, costuma ser o mesmo).

Sendo hermafrodita, o risco de minhoca ficar chupando dedo num sábado à noite é praticamente nulo. E não só porque ela não tem dedo: se não aparecer ninguém (ou ninguéns) mais interessante, ela resolve tudo consigo mesma.

Claro que sempre há a possibilidade de se nascer uma minhoca trans ou gay – e aí temos de convir que os embalos de sábado à noite teriam um complicador e tanto. A probabilidade estatística de uma minhoca de orientação sexual alternativa encontrar, sem internet, Tinder ou Grindr, outro anelídeo compatível é quase a mesma de haver vida inteligente em partidos de esquerda. E isso sem contar que “minhoca gay” é um cacófato e tanto.

Mas suponhamos que, na ficha de reencarnação, eu possa escolher não só a espécie (“minhoca”) como também a orientação sexual (“hermafrodita cis heterossexual opressora”). Os benefícios serão infinitos.

Primeiro, minha parte feminina não vai precisar fingir orgasmo: a parte masculina terá plena consciência de tudo, e não se deixará enganar com um mero revirar de olhinhos e unhas cravando no travesseiro – até porque não haverá nem unhas nem travesseiro. Por outro lado, qualquer falha do meu lado masculino ficará em completo sigilo – só eu mesmo ficarei sabendo – e nem precisarei tentar me iludir dizendo que isso nunca me aconteceu antes, porque estarei careca de saber do meu histórico de micos.

Não precisarei inventar uma enxaqueca pra não transar nem terei que mentir sobre o que é que estou pensando, cinco segundos depois de acender o cigarro. E se alguém ocupar mais da metade da cama, serei sempre eu – e dormirei de conchinha comigo mesmo, e sempre antes de eu começar a roncar.

Meus pais nunca vão se separar – a menos que algum acidente os corte ao meio. Minha mãe será minha sogra – e ela não é doida de não me aceitar como genro. Ou nora.

Tudo bem que não poderei nunca pular a cerca sem ser descoberto (nada é perfeito!), mas o melhor de tudo é que jamais levarei um pé na bunda. Não só por não ter pé, mas principalmente por não ter bunda.

Nãopinião

 

Como disse o Umberto Warhol (ou teria sido o Andy Eco?), no futuro as redes sociais darão quinze minutos de voz aos imbecis.

Rede social, para quem chegou do mundo real agora, é aquele lugar em que a gente pontifica sobre tudo, bate boca com quem topar pela frente, não gagueja, não engasga, tem certezas monolíticas, odeia minuciosamente, ri por escrito e posta foto fazendo bico.

É onde a fé (ou a falta dela, ou seu simulacro) deixou de ser questão de foro íntimo para virar espetáculo – e haja anjo com glitter, Jesus saradão, exorcismos e contorcionismos para arrancar uns trocados a mais de senhoras de longas madeixas, sobrancelhas felpudas, libido amordaçada e saias nos tornozelos.

É onde o livre arbítrio atingiu seu formato mínimo: se você ama Deus, compartilha; se não ama, curte.

Onde o Bem e o Mal têm fronteiras bem demarcadas: o paraíso somos nós (sejamos nós os coxinhas ou os petralhas), e o inferno, o purgatório, o limbo são os outros (sejam eles petralhas ou coxinhas).

Aqui somos todos caetanos velosos, aptos a discursar, divagar, discorrer e lacrar sobre tudo.

Precisamos ser um pouco mais glórias pires, e nos limitar a achar bacana. Interessante. Gostei. Não vi (não li, não me aprofundei, não sei do que se trata). Não sou capaz de opinar.