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Arquivos por dia26 26UTC março 26UTC 2016

Amigos

 

Viver é perder amigos.
Para a morte, para a própria vida.

Perdemos amigos porque mudamos, porque permanecemos os mesmos.
Perdemos porque nos esquecem, porque não nos lembramos mais, porque lembramos coisas demais, por não conseguir esquecer.

Perdê-los é uma arte que temos que dominar, se quisermos dominar a arte de mantê-los conosco vida afora.

É preciso saber perder.

Amigo não é coisa pra se guardar embaixo de tetra-chave.
Ou dentro do coração. Amigo guarda-se fora.
Não o pássaro na gaiola: amizade é o voo (guarda-se na memória).

Lugar e tempo, se um dia uniram, também separam.
Perde-se o amigo para a geografia, para a história.

Perde-se o amigo como se perde o trem, a hora.
E outros trens virão, com o mesmo destino.
Perder – amigos, trens, um império – não, não é nada sério.

Se ganhamos amigos ao descobrir novas afinidades
Também havemos de perdê-los, se não formos mais afins.

Amizade pressupõe admiração, respeito, um certo tesão de estar junto, de ouvir, discordar, discorrer, tornar-se outro.
E como admirar o tacanho, o obtuso, o impermeável à lógica, o inacessível à ironia?
O que se desapegou de raciocinar, o arauto da autolobotomia?

É possível ter amigos de outra fé, amigos-irmãos, camaradas.
Amigos que tomaram outros rumos, escolheram outra estrada.
É rico tê-los, saber por eles de outras paisagens.
E há, também, a grande riqueza de perdê-los, quando tudo que têm é só delírio, miragem.

Viver é perder amigos.
E ganhar outros, constantemente.

~
(Escrito a propósito dos que dizem que não devemos deixar que a política nos faça perder amigos, e contando com o auxílio luxuoso de Fernando Pessoa, Roberto & Erasmo, Milton & Fernando Brant, Elizabeth Bishop, Antônio Cícero, e quem quer que eu haja citado, inconscientemente).