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Arquivos por mêsmarço 2016

Agora vai

 

Pode até demorar um pouco, mas não vejo a hora de começarem as entrevistas desse povo que apoia Dilma, esclarecendo que não era bem assim.

Eram a favor dos programas sociais, entende? Não sabiam das tenebrosas transações. São artistas, intelectuais, sabe como? Rodam suas ideias noutra plataforma, e não têm tempo para o mundo-cão dos jornais – além, claro, de não ver tevê, nem frequentar essa feira de vaidades que são as redes sociais.

Já imagino o Wagner Moura afirmando, categoricamente, que sempre foi contra a corrupção, e vamos falar da nova minissérie. A Camila Pitanga dizendo que a arte é apolítica e que a mídia, essa rede de intrigas, distorceu suas palavras, e que sua personagem na nova novela é um presente do autor. A Zélia Duncan relativizando o que disse, pensou ou escreveu – eram só reflexões, um lance conceitual, meio breinstorme, e agora vamos falar do novo disco.

Claro que isso não vale para os dinossauros. Jô, Veríssimo, Chico, Leonardo Boff, Paulo Henrique Amorim, José de Abreu, esses chegarão à missa de sétimo dia chamando Fidel de democrata e Lula de líder operário.

São como os velhos bolcheviques, que jamais caíram naquele conto dos crimes de Stálin, ou os que, mesmo diante das pilhas de ossadas, continuam negando o Holocausto. Afinal, as evidências enganam, né não?

2.
Com a defecção (adoro essa palavra!) do PMDB, Dilma começa a reestruturação do seu governo. Ou, como diz o Jaques Wagner, a “repactuação”.

Vai buscar no que sobrou da “base aliada” os nomes para o primeiro escalão da República – aqueles com altas responsabilidades, grandes salários e foro privilegiado – além, claro, de votos contra o impítiman.

Antevejo a posse e a pose da nova nata do Executivo: Tiãozinho do Posto (PQP-RO) na Saúde, Juvanildo Quaresma (PORN-PR) nas Minas e Energia, Pastor Isaías (Partido do Evangelho Triangular do Dízimo Ungido-PI) na Ciência e Tecnologia, Galega do Gás (PCC-SP) na Aviação Civil – e mais uns 600 nos escalões inferiores.

Agora vai.

3.
Afastada Dilma, empossado Temer, começa a batalha do PMDB, PSDB e assemelhados para esvaziar a Lava Jato, desidratar Sérgio Moro e, com isso, garantir a governabilidade etc etc etc.

O PT irá para a oposição, com a faca nos olhos e sangue nos dentes, cobrando ética, exigindo transparência e pagando lição de moral.

A gente veste uma camisa amarela e sai por aí, porque não vai ter golpe e a luta continua.

Diferenças irreconciliáveis

 

– O que é isso, Miguel?
– Estou fazendo as malas, Vilma.
– Vai me abandonar quando eu mais preciso de você, seu traste inútil?
– Cansei de ser tratado como se fosse meramente decorativo.
– Decorativo, você? Não se enxerga, mesmo.
– Basta de sofrer ao seu lado. De viver à sombra.
– Chega de mimimi. Quanto você quer para ficar?
– Você pensa que sou um mercenário…
– Metade agora e os 30% restantes em 2018. É pegar ou largar.
– No começo você só roubava 10%…
– Inflação, meu filho. Tudo subiu.
– Pra mim, já deu. Seja feliz com sua base aliada, que eu irei em busca de novos desafios.
– Miguel, você devia me agradecer por eu te desprezar, porque seria pior se eu te ignorasse.
– Eu te dei tudo: carinho, apoio, base pra lamentar…
– Você só ficou comigo por interesse! Passou todos esses anos às minhas custas, seu sanguessuga, seu parasita! Se você sair por essa porta, vou fazer da sua vida um inferno! Fica, por favor… Daqui pra frente, tudo vai ser diferente.
– Eu não vou sair, Vilma.
– Eu sabia. É um bundão mesmo.
– Vilma…
– Peraí, essa mala vermelha é minha…
– E quem você achou que estava saindo?
– Miguel, e todos esses anos, e tudo que fizemos juntos, o mensalão, o petrolão, o canguru perneta de cócoras, nada disso conta?
– Tchau, querida.
– Me deixa ficar, Miguel, são só mais três anos…
– …
– E não é que o desgraçado ficou com o disco do Chico e me deixou o do Lobão! Malfeito eu até aceito, mas isso é golpe baixo. Golpe, não!

Desastres naturais

 

1.
O Jardim Botânico, apoiado pelo TCU e pelo Ministério do Meio Ambiente, venceu a queda de braço com as comunidades que vivem dentro do parque. Venceu, mas não levou, porque os moradores ocuparam o JB ontem, se recusam a sair e ameaçam botar fogo na mata.

Após a desocupação, as casas serão derrubadas e a flora degradada, recomposta. Para a associação dos moradores, entretanto, o que o Jardim Botânico está fazendo é “especulação imobiliária”. Argumento tão racional quanto o “não vai ter golpe”.

Petismo é que nem Baidu: uma vez instalado, só formatando a máquina pra se livrar dele.

2.
O feicebuque me avisa que estou na área da explosão em Lahore e pede que eu informe aos meus amigos se estou bem.

Sim, tirando a zika, a chicungunha, as intermináveis obras para as olimpíadas e os discursos inflamados (e infectados) da Dilma, estou bem, aqui no Paquistão, capital Buenos Aires.

3.
O Gilmar Mendes sempre disse que impeachment não é golpe.
A Cármen Lúcia disse que não é golpe.
O Celso de Mello disse que não é golpe.
Até o Toffoli já disse que não é golpe.

Êita STF golpista, sô.

4.
A maior prova de o que governo Dilma acabou é que o PMDB está desembarcando dele.

O PMDB nunca esteve fora do governo desde que ajudou a eleger Tancredo, lá se vão três décadas.

Se quiser saber onde está o poder, cherchez le PMDB.

Pai

 

Esta semana completaram-se seis meses da morte do meu pai. Seis meses, seis horas, seis séculos, não faz diferença. Ele segue tão morto quanto nós, que sobrevivemos a ele, e tão vivo quando meus avós, que se foram muito antes.

Cada um que o conheceu há de se lembrar dele de uma forma – lembramo-nos de nós mesmos quando fingimos nos lembrar dos outros. Me lembro dele nas histórias que o ouvi contar, nas que me contaram, nas que vivi ao lado dele.

1.
Tomou posse como juiz em Unaí, aos 35 anos. Era uma cidadezinha perdida no noroeste de Minas – sem água, sem luz, sem calçamento e, principalmente, sem juiz há muito tempo. Uma espécie de terra de ninguém, com matadores de aluguel, coronéis, capangas, nos deslimites do sertão de Minas, divisa de Goiás e Bahia.

Mandou logo exumar, no cemitério local, todos aqueles sobre cuja morte pairasse alguma suspeita. Não havia câmara frigorífica (não havia nem luz elétrica!) e o cheiro dos cadáveres tomou conta da cidade.

Aqui e ali, dezenas de corpos dos mortos de morte morrida apresentavam fraturas, perfurações de faca e de bala – era morte matada.

Nos levou para lá após alguns meses, quando o cheiro já se havia dissipado no ar, e sua fama estava consolidada.

2.
Das aulas que dava na Escola da Magistratura, décadas depois, sua preferida era aquela em que ensinava que o primeiro ato de um juiz, ao assumir sua comarca, devia ser pegar o processo mais antigo, ou o mais complicado, ou o que envolvesse as pessoas mais importantes, e julgá-lo.

A partir daí, poderia fazer o que quisesse – já teria deixado claro que a Justiça funcionava.

3.
Ia sempre de carro para o Fórum, em Juiz de Fora, mas naquele dia, por algum motivo, resolveu ir de ônibus pela primeira vez, e descemos juntos pelo Bom Pastor.

Tomamos o primeiro ônibus rumo ao Centro e ele chamou pelo nome e cumprimentou efusivamente o motorista, que respondeu da mesma forma. Não sabia que tinha amigos motoristas de ônibus, comentei.

É preso meu, respondeu. Matou a mulher com três tiros. Condenei à pena máxima, e lhe arrumei esse emprego. Se não, quem vai cuidar dos dois órfãos?

4.
Para a porta da sua sala, no Fórum, mandaram fazer uma placa: “Deixai fora toda esperança, vós que entrais”.

Ele tinha imenso orgulho disso.

5.
Nos anos da ditadura, era alinhado à luta contra a “subversão”. Tinha ligações com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, encarregado da repressão), e marcava com um X, num cartaz afixado em sua sala, os procurados que caíam, mortos ou presos.

Numa reunião de opositores do regime, foi jurado de morte.

Chamado para depor sobre o grupo, defendeu os participantes. Não eram, segundo ele, terroristas – apenas faziam oposição. Sabia que se, se os entregasse, seriam presos e torturados (eram os anos Médici).

Nunca contou – a nenhum dos que tramavam sua morte – que possivelmente lhes havia salvo a vida.

6.
Voltava de Belo Horizonte para Andrelândia, e resolveu tomar um atalho, uma estrada que quase ninguém usava, passando por Santana do Garambéu.

No meio do nada, topou com um sujeito com o carro quebrado, pedindo ajuda.

“Estou aqui há horas, e não passa um filho da puta. O senhor é o primeiro que aparece!”.

Meu pai, que por muito menos puxava o revólver da cintura, não só ajudou o sujeito, como contou essa história infinitas vezes, sempre às gargalhadas.

7.
Foi rendido, num posto de gasolina, e sequestrado. Possivelmente queriam só o carro, e ele foi levado junto talvez para ser abandonado mais tarde, na estrada.

No banco do carona, um dos bandidos lhe apontava o revólver, enquanto no banco de trás o outro chupava as mixiricas que levava do sítio. O cheiro de mixirica pelo carro lhe parecia um abuso muito maior que o assalto.

“Vocês já estiveram num carro dirigido por um cadáver?”, perguntou. “Porque eu já sou um homem morto. E vocês vão morrer junto comigo”.

Acelerou e meteu a mão na buzina quando passou por um posto policial. Os assaltantes saltaram quando o carro foi fechado pelo da polícia, e conseguiram escapar.

Chamaram-no de louco – tanto os assaltantes quanto a polícia. Ele disse que já se considerava morto. E um homem morto não tem mais medo de nada.

8.
Estávamos em casa, em Viçosa, quando chegou a notícia de que meu pai havia sido assassinado. Eu teria uns 8 anos de idade, e me lembro das pessoas confortando minha mãe, gente entrando e saindo, alheia à minha incredulidade – até meu pai aparecer, vivo.

Um amigo dele, também advogado, é que tinha sido morto por um cliente.

Passados alguns dias, superado o susto, meu pai assumiu a defesa do assassino.

Foi quando decidi que não seria, jamais, advogado.

~
As histórias podem não ter sido exatamente assim. Podem ter sido dois os tiros e três os órfãos, ou os corpos exumados não serem dezenas, mas só uma dúzia, e eu ter 7, em vez de 8 anos, quando meu pai morreu pela primeira vez. Não importa.

Nos seus últimos dias, pedi a ele que me contasse de novo essas e tantas outras, que eu queria registrar, mas ele estava ocupado demais em não morrer. Falar do passado seria narrar, como Brás Cubas, suas memórias póstumas.

As histórias permanecerão assim, parciais, incompletas, memórias meio inventadas. Nem por isso menos verdadeiras.

Amigos

 

Viver é perder amigos.
Para a morte, para a própria vida.

Perdemos amigos porque mudamos, porque permanecemos os mesmos.
Perdemos porque nos esquecem, porque não nos lembramos mais, porque lembramos coisas demais, por não conseguir esquecer.

Perdê-los é uma arte que temos que dominar, se quisermos dominar a arte de mantê-los conosco vida afora.

É preciso saber perder.

Amigo não é coisa pra se guardar embaixo de tetra-chave.
Ou dentro do coração. Amigo guarda-se fora.
Não o pássaro na gaiola: amizade é o voo (guarda-se na memória).

Lugar e tempo, se um dia uniram, também separam.
Perde-se o amigo para a geografia, para a história.

Perde-se o amigo como se perde o trem, a hora.
E outros trens virão, com o mesmo destino.
Perder – amigos, trens, um império – não, não é nada sério.

Se ganhamos amigos ao descobrir novas afinidades
Também havemos de perdê-los, se não formos mais afins.

Amizade pressupõe admiração, respeito, um certo tesão de estar junto, de ouvir, discordar, discorrer, tornar-se outro.
E como admirar o tacanho, o obtuso, o impermeável à lógica, o inacessível à ironia?
O que se desapegou de raciocinar, o arauto da autolobotomia?

É possível ter amigos de outra fé, amigos-irmãos, camaradas.
Amigos que tomaram outros rumos, escolheram outra estrada.
É rico tê-los, saber por eles de outras paisagens.
E há, também, a grande riqueza de perdê-los, quando tudo que têm é só delírio, miragem.

Viver é perder amigos.
E ganhar outros, constantemente.

~
(Escrito a propósito dos que dizem que não devemos deixar que a política nos faça perder amigos, e contando com o auxílio luxuoso de Fernando Pessoa, Roberto & Erasmo, Milton & Fernando Brant, Elizabeth Bishop, Antônio Cícero, e quem quer que eu haja citado, inconscientemente).

Escalação

 

1.
Com o autogolpe, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Lula reassume a presidência e Dilma cai de novo na clandestinidade.

2.
Pra ninguém dizer que não estamos evoluindo.
Em 93, Lula dizia que o Congresso tinha 300 picaretas.
A lista da Odebrecht, de 2016, traz apenas 200.

Neste ritmo, chegaremos ao século 22 com praticamente zero picaretagem.

3.
O diplomata que disparou telegramas para todas as embaixadas brasileiras alertando para o risco de golpe no país foi advertido verbalmente e não poderá mais mandar mensagens sem autorização de um adulto.

4.
Alguém, por favor, explique aos petistas que não faz o menor sentido o seu “argumento” contra o impeachment de que “se sair Dilma, assume o PMDB”.

Será que quem votou na Dilma não sabia que estava votando também no Temer? Que foram eles que colocaram o Temer lá, no banco de reserva para o caso de lesão da titular?

5.
Nervosinho, Múmia e Caranguejo.
Lindinho, Atleta, Passivo, Viagra e Escritor.
Grego e Avião.

Escalação de time de várzea?
Não: apenas os codinomes de Sarney, Jarbas Vasconcelos, Randolfe Rodrigues, Eduardo Paes, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Jaques Wagner, Manuela d’Ávila, Lindbergh Farias, Humberto Costa e Jorge Picciani na lista da Odebrechat – não necessariamente nesta ordem.

Imagino como devem ser animados os encontros de Lindinho e Avião, Nervosinho e Múmia, Passivo e Viagra. Tudo regado a muita Brahma e com Madame por perto, fazendo vista grossa.

6.
A Odebrecht tinha um departamento (de “Operações Estruturadas”) só para gerenciar os pagamentos ilegais.

E a gente pensando que o PT é que era o top top top no crime organizado.

Laranja

 

1.
Já deve ter começado a patrulha a quem pintou a foto nas cores da bandeira da Bélgica, postou algo ao estilo “Je suis Bruxelas” ou se solidarizou com as vítimas do atentado – se esquecendo de Mariana, Santa Maria, Amarildo, dos deslizamentos em Friburgo ou do acidente do Cristiano Araújo.

Por via das dúvidas, melhor nem comer chocolate belga – e esconder as gaiolas, caso tenha canário belga em casa.

2.
Vergonhoso o pedido de perdão do Cláudio Botelho ao Chico Buarque.

Vassalagem tem limite.

3.
O Zavascki fez o que se esperava dele: arrancou Lula das garras do maléfico Moro e o aninhou sob as asas protetoras do foro privilegiado.

Lula, que nunca quis mesmo ser subalterno da Dilma, agora pode governar tranquilamente, nas sombras, bem ao seu gosto.

Talvez dê um grande impulso à citricultura nacional o fato de termos agora uma presidenta laranja.

4.
Evo Morales, Rafael Correa e Nicolás Maduro estão em campanha contra o golpe no Brasil, defendendo a democracia.

A gente morre e não vê tudo.

Essas moças, pobres moças

 

Tenho uma pena danada das feministas do PT, obrigadas a engolir em seco o machismo incontornável de Lula e ainda defendê-lo por haver dito aquilo que, em outra boca, as faria entrar em modo histérico.

Lula não apenas disse que sua fiel assessora Clara Ant deveria achar um “presente de Deus” o fato de cinco homens invadirem sua casa (que mulher não sonha com um estupro coletivo, não?).

Disse também que as mulheres do PT têm “grelo duro” – ou seja, são dotadas de micropênis, são mais que mulheres: são quase machos.

Criticou o Zeduardo Cardozo por não ser “homem” – não ter pulso, ser um fraco (homens são fortes, mulheres são fracas).

Seu pau mandado (leia-se “pau” em lato e stricto sensu) no Ministério da Justiça, o Aragão, é que deverá “cumprir o papel de homem” – descer o cacete na Polícia Federal ao menor “cheiro” de vazamento de informações.

Assim são os homens e as mulheres na visão cega de Lula. Estereótipos. Seres onipotentes dotados de falo x seres submissos carentes dele.

E foi mais longe: ao qualificar o Supremo Tribunal de “acovardado” (por não lhe ser absolutamente servil), pontificou: “se os homens (os ministros) não têm saco, “quem sabe uma mulher corajosa possa fazer o que os homens não fizeram”.

Essa mulher “corajosa” (leia-se “com culhões”) é Rosa Weber, um dos cinco juízes que Dilma considera como “seus”. É justamente a ela que caberá julgar o habeas corpus de Lula (Fachin, um dos “sem culhões”, se considerou impedido, não por ser petista, mas pelas relações de amizade que mantém com um dos advogados de Lula).

Pobres militantas feministas, a fazer contorcionismos mentais para manter de pé um discurso que é, em si mesmo, um oxímoro, um paradoxo.

Pobre juíza (tão bela, tão loura, tão culta), diante de uma escolha de Sofia: morder a mão que a alimenta (e se tornar mais uma ingrata, como o “filho da puta do Fux” – na sensível definição de Dilma Rousseff) ou provar que é dotada de testículos, e de uma espinha bastante flexível.

Não deve ser fácil acumular as funções de mulher e petista. Tem mesmo que ter culhão.

Cabôco Mamadô

 

Nos tempos da famigerada ditadura militar, o Henfil – pai da Graúna e dos fradins, irmão do Betinho (o “irmão do Henfil”) – criou o Cabôco Mamadô.

Era uma entidade que, antes de os zumbis se tornarem fashion, já mamava o cérebro dos que (do seu ponto de vista) colaboravam com os militares – e por isso eram transformados em mortos-vivos.

No cemitério do Cabôco Mamadô viveram-morreram Elis Regina (que cantou o hino nacional numa Olimpíada do Exército ), Tarcísio Meira (que fez papel de Pedro I num filme considerado ufanista), Pelé (que sempre foi uma toupeira quando não estava com a bola nos pés) e (não me lembro mais por que motivo) Roberto Carlos, Carlos Drummond, Marília Pêra, Clarice Lispector.

Era a “esquerda” praticando o macartismo que tanto criticava.

Momentos de polarização têm disso. Tornamo-nos bipolares. Aos amigos, a defesa da democracia e das instituições. Aos inimigos, o golpismo. Mesmo que seja exatamente o contrário.

Saiu recentemente o “index” dos vendidos ao lulopetismo, aqueles a quem as pessoas de bem devem boicotar.

Como novos cabôcos mamadôs, recalibramos o radar a patrulha ideológica e quem vai agora para a expansão do cemitério dos mortos-vivos são Chico Buarque, Veríssimo, Jô Soares, Caetano Veloso, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Gregório Duvivier, Aldir Blanc, Augusto de Campos, Ziraldo, Wagner Moura e outros menos votados.

Regina Duarte sofreu patrulha por ter medo do Lula. Dina Sfat, por temer os militares. Marília Pêra, por apoiar Fernando Collor. Hoje isso é nota de rodapé.

Talvez um dia eu ainda consiga voltar a ouvir o Chico e o Wagner Tiso – mudos na estante de CDs já há alguns anos. Talvez volte a admirar a Letícia Sabatella – grande atriz, cantora fantástica. Todos, porém, abjetos politicamente – não por pensarem diferente de mim, mas por não pensarem.

A cada lista dos novos Cabôcos Mamadôs que vejo, corro os olhos com medo de topar com Milton Nascimento, Adélia Prado, Cristóvão Tezza… E se estiverem lá, de camiseta da CUT, estrelinha no peito e sanduíche de mortadela na mão, braços dados com Vaccari, Delúbio, Dirceu? De que modo vou deixar de amá-los, se não for lúcido? Como continuar amando-os, se não for doido?

(Em tempo: no último cartum da série, Henfil enterrou a si mesmo no Cemitério dos Mortos Vivos. O Cabôco Mamadô chupou-lhe o cérebro, num tardio “mea culpa”).

Muvuca

 

Não vejo a hora de acabar essa muvuca política.
Não pro país voltar a crescer, nem pro dinheiro roubado retornar aos cofres públicos, os bons serem recompensados e os maus, castigados (ou ficarem loucos, como em qualquer final de novela que se preze).
O que eu queria era ficar menos monotemático nas postagens.

Até acordo querendo esmiuçar os sonhos intranquilos que tive enquanto o vizinho de baixo berrava coisas desconexas madrugada adentro. Ou desenvolver os esboços de textos sobre palimpsestos, palíndromos, bustrofédons e catacreses.

Mas abro o jornal e…

1.
Chico Buarque proíbe que Cláudio Botelho continue usando suas canções num espetáculo chamado “Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos”.
Isso porque o ator e diretor ousou incluir um caco no texto, mencionando um ex-presidente preso e uma presidenta ladra.
O público interrompeu a apresentação, de punhos erguidos, aos gritos de “não vai ter golpe” – e Chico, eterno paladino da liberdade de expressão, censurou o espetáculo.

Cantar ou encenar Chico, doravante, só com atestado de pureza ideológica e alinhamento partidário.

2.
Caetano Veloso, que andava inexplicavelmente calado, compara as manifestações pelo impeachment às passeatas a favor da ditadura militar.
“Toda movimentação no sentido dessa tentativa de diminuir a desigualdade enfrenta a oposição da elite”, mandou, na lata – como se os milhões que foram às ruas no domingo passado fôssemos sinhás inconformadas com o batuque vindo da cozinha.

3.
Aderbal Freire-Filho – atualmente em relacionamento estável com a sra. Marieta Severo – escreve que “eleger a pauta do combate à corrupção como bandeira é uma tática para esconder outros interesses”.
Que interesses esconderá a defesa da corrupção?

4.
Enquanto o PT exerce seus podres poderes, cidadãos cansados de ridículos tiranos fazem o carnaval.

5.
(Meus ex-heróis – Chico, Caetano – sofrem de algum tipo de psicose.
Meus inimigos estão no PT.
Ideologia cega – quem precisa disso pra viver?)

6.
No mais, me larga, Caetano. Não enche.
Você não entende nada, e eu não vou te fazer entender.