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Arquivos por mêsfevereiro 2016

Sylvia Kristel e eu

 

Conheci Sylvia Kristel em Belo Horizonte, em 1977. Fui encontrá-la, mais nervoso do que propriamente excitado, no Cine Regina, um cinema decadente da Rua da Bahia, que talvez nem exista mais. Eu tinha 18 anos e deve ter sido a primeira vez que não tive que mentir a idade para ver um filme impróprio – naquele tempo, os filmes eram classificados em “impróprios”, “proibidos” e “rigorosamente proibidos”, sendo esses últimos os únicos pelos quais valia a pena correr o risco de ser desmascarado pelo porteiro.

Eu não estava sozinho. Fomos em caravana, da Faculdade de Arquitetura, uns poucos rapazes escoltando as muitas meninas que colocavam os pés no Cine Regina pela primeira (e certamente última) vez. Todos queríamos ver “Emmanuelle”, usando a ironia para disfarçar a curiosidade, a excitação cedendo lugar às risadas.

“Echo in the night, I found the light, Emmanuelle.”

Eu já tinha visto alguns filmes eróticos, sempre enganando os porteiros com uma carteira de estudante falsificada. Mas “Emanuelle” era outro nível: era um pornô. E o primeiro pornô a gente nunca esquece.

Foi numa das poltronas do Cine Regina que me apaixonei por Sylvia Kristel, sem muita esperança de ser correspondido. Com todo o meu moralismo católico e provinciano, eu tinha ido lá para vê-la, e desejei não tê-la visto.

“Memories that haunt my brain / Face of a child, rain in your hair / Tears in your eyes, now you’re not there”.

O filme foi uma decepção. Mutilado pela censura, não tinha nada que eu ainda não soubesse ou não tivesse imaginado. Ali eu descobri que o erotismo não é mais que a pornografia dos covardes. “Emmanuelle” era apenas Sylvia Kristel e seu ar de santidade – às vezes revelando um seio, às vezes meia nádega – e seus olhos me implorando para que eu a tirasse daquele lugar e a levasse para ficar comigo.

“Mélodie d’amour chante le cur d’Emmanuelle / Qui bat cur à corps perdu”.

Reencontrei Sylvia quando ela veio ao Brasil, e foi recebida pelo Presidente da República, e apareceu numa novela. Ainda era a mesma – esguia, etérea, os mesmos olhos que um dia me pediram que a sequestrasse da tela, feito uma rosa púrpura. Ela não deve ter me reconhecido, já barbado, machucado por amores malsucedidos. Mais uma vez, não nos falamos, ela em Brasília, eu exilado em Curitiba.

Nos encontramos de novo agora, no seu obituário – e foi quando me dei conta de que nunca havia perdido as esperanças de que meu amor fosse correspondido. Mas já estamos todos mortos, Sylvia: você, o Cine Regina e aquele garoto de 18 anos.

“Nunca houve amor tão puro como Emmanuelle / e no entanto eu a perdi”.

(outubro de 2012)

Profundamente

 

Não foram só os dinossauros e os acendedores de lampião que se extinguiram, seja por força da tecnologia ou na natureza. Sem réquiem ou obituário nos jornais, sem que a comunidade científica o lamente ou o cidadão comum se dê conta, várias outras espécies parecem ter simplesmente desmanchado no ar.

Que fim levaram as desquitadas? Para quem nasceu de 20 anos pra cá e não liga o nome às pessoas, desquitadas eram moças não tão moças assim, que provocavam nas mulheres (nas casadas, mais que nas solteiras) um misto de repulsa e inveja (em doses iguais, e às vezes simultaneamente). Não era de bom tom ter amigas desquitadas, era perigoso conviver com elas e era um pesadelo vir a tornar-se uma delas. Ser desquitada era como ter uma doença invisível, sem sintoma e sem remédio. Os homens, por outro lado, pareciam se interessar muito por elas.

Que fim levaram os pederastas? Tínhamos um vizinho pederasta, de cujo pomar eu roubava uvas, escalando o muro do hotel do meu avô. Era um velhinho calado, que aparentemente nunca ria, e de quem mantínhamos prudente distância – por temer que ele soubesse que roubávamos suas uvas, e pelo fato de ser (seja lá o que isso significasse) um pederasta. A palavra era linda, sonora, daquelas de virar título de bolero, marca de perfume. Mas boa coisa não devia ser – ou meu avô não a murmuraria em tom tão baixo (como minha mãe o fazia, ao pronunciar “desquitada”).

Talvez pederasta fosse o masculino de desquitada, mas isso era só uma teoria. Me incomodava, apenas, que palavra tão feminina pudesse ser aplicada a um velhinho cabisbaixo – que sequer aproveitava as uvas do próprio quintal.

Que fim levaram os hippies? Eram estes um grande enigma. Mendigos por opção, não por necessidade. Podiam tomar banho, e não tomavam. Eram jovens, com barba de velhos. Homens com cabelo de mulher. Meu pai os desprezava, e costumava xingá-los, da janela do carro (“viado!”). Eu até entenderia se os chamasse de porcos, mas o que queria dizer ao gritar “viado!” quando via um deles? Pelo tom da voz, era um xingamento – mas ser comparado a um animal elegante e inofensivo não poderia ofender alguém.

Os hippies duraram menos que as desquitadas e os pederastas. Talvez porque ninguém soubesse ao certo (pelo menos ninguém do meu círculo de amigos, na escola primária) como se escrevia “hippie”. R.I.P.

Acabaram, também, os subversivos, estes os mais melífluos de todos. Não eram tão visíveis quanto os hippies, e quase tão difíceis de se detectar à primeira vista quanto uma desquitada, mas dizia-se que estavam em toda parte. Minha mãe tinha um primo subversivo. Havia sido preso, tivera agulhas enfiadas sob as unhas, fora pendurado no pau-de-arara e, após muito sofrimento (da mãe dele, principalmente), libertado e mandado para o exílio em troca de um embaixador sequestrado num lugar distante e perigoso chamado Rio de Janeiro. Meu pai odiava os subversivos, quase tanto quanto desprezava os hippies – e talvez com a mesma repulsa que minha mãe dedicava às desquitadas e meu avô ao pacato vizinho pederasta.

Os subversivos apareciam muito nos jornais, sempre de mãos amarradas, cara mal dormida. Roubavam bancos, matavam inocentes, sequestravam diplomatas, desviavam aviões para Cuba. Em Viçosa, se limitavam a explodir bomba embaixo de carro, na praça, obrigando minha mãe e eu a correr para dentro da igreja – e a fazer uma ou outra passeata, incitar uma greve e enriquecer meu vocabulário com palavras como “incitar”, “greve” e “passeata”.

As desquitadas, até onde sei, foram substituídas pelas divorciadas, que não provocam o mesmo temor às mulheres de família (até porque não se usa mais a expressão “mulher de família”). Os pederastas, que já eram relativamente velhos, morreram e deram lugar a outra casta, menos soturna, mais colorida e alegre. Os hippies (os que não morreram de overdose) tomaram banho, cortaram o cabelo e talvez sejam hoje avós tão zelosos e conservadores quanto os seus. Os subversivos que não morreram sob tortura tomaram o poder e hoje se comportam exatamente como aqueles a quem combatiam. Talvez um pouco pior, porque pelo menos aos fascistões de outrora nunca faltou coerência.

E que fim levaram as cartas e as máquinas de escrever? os quebra-ventos e os toca-fitas? as lutas de telecatch e o rum Montila, o sabão Rinso e os cães pequineses, as anáguas e a pomadinha japonesa?

Assim como subversivos, pederastas, desquitadas, hippies (e poetas modernistas), devem estar todos dormindo. Profundamente.

Oz

 

Tenho uma teoria (que nem sei se é minha, mas que adotei, reelaborei e na qual penso sempre) e que chamo de “Teoria de Oz”, por causa de um filme do qual todo mundo ouviu falar, mas quem tem menos de 50 anos possivelmente nunca viu. Conta a história da garotinha levada por um furacão para um mundo paralelo, onde encontra três seres incompletos: o Espantalho (que é bom, mas não tem cérebro), o Homem de Lata (racional, mas sem coração) e o Leão Covarde (que tem cérebro e coração, mas carece de coragem). Posso ter entendido tudo errado, mas para mim o filme é sobre o amor – ou melhor, os tipos de amor – ou, melhor ainda, sobre as incompletudes do amor.

Há o Amor Espantalho, em que existe afeto, mas não há diálogo. O que digo não é ouvido, o que ouço não me diz nada. Não há centelha, não há fagulha, cada palavra é uma agulha perdida num palheiro. Aquietada a paixão, adormecida a carne, se abre um fosso de silêncio – e o outro, que até agora há pouco era eu, era meu, é um estranho cuja língua não falo. O Amor Espantalho leva ao desprezo, às pequenas humilhações, às mesquinharias. Não compartilho mais: vivo na superfície de mim mesmo e do outro, porque não há onde mergulhar. O Amor Espantalho é o grande corvo que ronda a velhice das relações, e nos faz guardiões de mágoas e segredos, e não deixa que se fechem as feridas, que se abram as janelas, que se desfaçam os nós dos mal-entendidos. O Amor Espantalho é uma armadilha.

Há o Amor Homem de Lata, aquele em que o coração não dispara, em que as horas não disparam – o dia continua a ter 24 horas, a hora 60 minutos, o tempo não se contrai, não se dilata, ao sabor da presença ou da ausência o outro. É o amor racional, em que as coisas são o que são, em que não há transcendência, arrebatamento, em que canções não se colam à nossa vida como se tivessem sido escritas para nós, em que as palavras até rimam mas não se juntam para virar poesia. Tudo é apenas o que é, sexo é coisa física, com o prazer possível de se extrair da carne e das terminações nervosas. No Amor Homem de Lata a fantasia comete adultérios, cada olhar é uma promessa, cada sorriso é um convite, porque o sangue não circula, não nos enrubesce, não nos intumesce, não nos faz sentir vivos. O Amor Homem de Lata é uma grande ilusão.

Há, por fim, o Amor Leão Covarde, que não ruge, não rosna, não crava os dentes na jugular e não desarma. É um amor que não vai à caça, não ronda, não embosca, não conquista. Não me pega de jeito e faz comigo o que nem eu sei que é o que quero, porque quem faz a presa é o predador. O Amor Leão Covarde não sabe a força que tem, não sabe o fascínio que exerce. Segue por caminhos óbvios, não inventa trilhas. Conhece só o que aprendeu, esquece o instinto. Pede licença para entrar, cuida para que nada se arranhe, que tudo permaneça intacto, que as roupas estejam dobradas sobre uma cadeira, que os vizinhos não ouçam nada, que o lençol não se manche – que os limites da carne não sejam ultrapassados, que não fiquem marcas na pele ou na memória. O Amor Leão Covarde desconhece que o desejo é falta, que o desejo é fome, e que é da grande fraqueza de não ter que nasce o tesão de conquistar. O Amor Leão Covarde é uma fraude.

O amor só se sustenta se estiver apoiado no cérebro, no coração e no desejo. Sempre que um relacionamento meu dá errado (e disso tenho amostragem bem ampla) eu identifico: aqui o coração não bateu forte, ali os neurônios ficaram sedentários, acolá faltou pegada.

Não me lembro como termina o filme – se cada um ganha o que lhe faltava, se todos se juntam e formam um único ser. Pode ser que só mesmo além do arco-íris é que haja esse lugar onde os amores sejam completos. Esse é que deve ser o tal pote de ouro que dizem que tem lá.

Título

 

Nunca ponho título no que escrevo. Se conseguisse resumir em 3 palavras, ou numa frase só, o que eu tinha a dizer, não precisava ter escrito um texto enorme.

Deve haver alguma técnica pra escolher título. Um pulo do gato, um caminho das pedras. Tipo pinçar uma expressão do texto que seja relativamente chamativa. Ou uma que não chame tanto a atenção, mas, deslocada do contexto, ganhe relevo. Ou, ainda, uma que não tenha nada a ver, só pro leitor não entender, se achar um idiota e, por tabela, o autor parecer mais culto.

O titulo tem uma baita responsabilidade. Mal escolhido, afasta o leitor. Bem escolhido demais, pode causar altas expectativas, e frustrar o leitor que espera um texto à altura. É preciso ser um título mediano, mas não tão mediano que só atraia leitores medíocres. Tem que ser ao ponto, um pouco mais pra mal passado, se é que você me entende.

Imagino Tolstói levando meses pra escrever “Guerra e paz” – e anos para conseguir encontrar um título tão sucinto. Tempos depois, já escaldado, após centenas de páginas, dezenas de tramas e milhares de neurônios queimados, o vejo jogando a toalha e dizendo “chega! Vai “Anna Karenina” mesmo!” .

Aliás, achar título para um romance até que é fácil – basta dar o nome do/a protagonista e tá resolvido. Aí estão Lucíola, Lolita, Iracema, Sargento Getúlio, Madame Bovary, que não me deixam mentir. Machado de Assis, então, era um mestre nessa preguiça: Dom Casmurro, Quincas Borba, Brás Cubas… Mas, e quando não há protagonista, trama, suspense, nada? e é só um texto sobre uma coisa qualquer, meio indefinida, que começou de um jeito, tomou (como muitos de nós) outros caminhos e foi parar sabideus onde?

Carlinhos Brown e Djavan devem conhecer esse drama. Suas canções são sobre… sobre… quer dizer, tratam de… é… bem, elas falam de… no sentido de… tipo assim… pois é. E ainda assim todas têm título. E lindos, por sinal. Lilás. Pétala. Se. Oceano. Açaí. Álibi. Aê aê. Alfagamabetizado. Bog la bag. Hawaii e you. Ok, eu retiro o que disse. As do Carlinhos Brown não contam.

Já comprei livros pelo título. E me contentei com ler a capa. Tenho até medo de abrir “O deus das pequenas coisas” e “O obsceno pássaro da noite” e não serem tudo que prometiam. Pra mim, poderiam estar em branco. Olho para a capa, leio o título, e me dou por satisfeito. “Exortação aos crocodilos”. “Memórias de minhas putas tristes”. “Estar sendo, ter sido”. “A máquina de fazer espanhóis”. Precisa ler pra se encantar? Ok, eu li, e talvez releia. Mas nem precisava, com títulos assim.

Escrevo tudo isso porque minha prima Tânia Afonso pediu que eu desse título a um texto meu, pra ser publicado num jornal em Ribeirão Preto. E eu não consigo. Sou um pai diante da pia batismal, o padre com o aspersor na mão, o filho com a nuca já enrugada dentro da água, e o nome não vem. Fosse um filho de verdade, eu diria “bota Júnior, depois a gente troca”. Vamos ver quanto o tempo o padre ainda aguenta com a mão levantada, e o guri submerso.

Das vantagens e desvantagens de ser ateu

 

Ser ateu tem suas vantagens. Você não vai pro inferno quando morre (porque o inferno não existe) e nem vive naquele inferno de culpa e pecado (porque pecado também não existe). Não perde as manhãs de domingo indo à missa ou à escola dominical, não entrega 10% do que ganha para enriquecer o pastor e pode comer carne de porco à vontade (inclusive na sexta-feira santa, ou mesmo no ramadã).

Ser ateu tem suas desvantagens. Você não consegue se confessar de graça (tem que pagar um psicanalista) nem subornar sua consciência com orações e penitências (ou faz ações concretas ou ferrou).

Mas ser ateu tem seu lado bom. Você vive sem crendices, superstições, falsas esperanças de milagres. Você crê no real, e o real nunca te desaponta. Você não precisa fazer malabarismos mentais para justificar o fato de Deus não ter te dado aquilo que você pediu, ou para entender o que há de ruim no mundo. O mundo é como é, e é como o fazemos – ou seja, depende de nós que ele seja mais justo. Quanto aos acidentes, as tragédias… bem, são acidentes, são tragédias (talvez possam ser evitados, talvez não possam, e temos que ter sabedoria pra mudar o que depende de nós, e serenidade pra aceitar o que independe da nossa vontade, como dizem nos AA e NA da vida).

Mas ser ateu tem seu lado ruim. Não há feriados ateus. Temos que pegar carona nos feriados das religiões, comemorar Corpus Christi, Nossa Senhora Aparecida, paixão de Cristo, Natal, Rosh HaShaná, Iom Kipur, Shabat, Ramadã, São Jorge/Ogum. No meu andar, todas as portas têm luzinhas piscando, gorros de papai Noel, “ho ho ho”s e saudações em Inglês – menos a minha. Os vizinhos devem olhar com pena ou desdém para a minha porta ateia, nua, alheia às gargalhadas e ao cheiro de peru assado que vazam pelas frestas das suas portas emperiquitadas.

Ser ateu é bom, porque não tem que mandar cartão, comprar presente. E é ruim, porque você não se recebe cartão nem ganha presente. Quer dizer, até ganha, mas aí fica no maior sem-jeito, porque como não comprou nada, agora tem que se justificar, e tentar retribuir, em cima da hora, quando os shoppings estão abarrotados e tudo que não se quer é ouvir dingobéus, harpas paraguaias ou a Simone berrando que então é Natal.

No Natal, ateu se sente como torcedor do Vasco no meio da torcida do Atlético Paranaense (ou vice-versa, o que é ainda pior). Como um Bolsonaro na parada gay, um honesto no PT, uma clarissa descalça no Cordão do Bola Preta. Por isso, quando chega o Natal, eu me solidarizo com os perus. Sei exatamente como eles se sentem nesta época.

Vulgo

 

1.
Além do setor dedicado a dar nomes matadores às operações que deflagra, a Polícia Federal deve ter também uma equipe só para decodificar os nicks (como é mesmo que se diz nicks em Português?) usados por políticos e empreiteiras.

Em casa, no trabalho, eu me refiro às pessoas pelo nome delas, no máximo por um diminutivo. Mas nas quadrilhas – o PT, por exemplo – todo mundo tem codinome (pronto, lembrei como se diz nick em Português).

Não é nome de guerra, nom de plume, apelido. É codinome, aquilo que, nos jornais de antigamente se chamava “vulgo” (“O facínora Francisco da Costa Rocha, vulgo Chico Picadinho…”).

O codinome serve pra tentar esconder a identidade de alguém. E se você precisa esconder, é porque boa coisa não é.

“My Way, o Lindinho falou com o Bob que esteve com Brahma e Batman, para tratar do 3X da Madame. 120 acarajés, no minimo. Feira ficou de trazer o pixuleco do Vaca. Seminarista e Omeprazol estão apreensivos. MO pode ir em cana a qualquer momento, e se abrir o bico JD dança. Me traz um cheesburguer e duas batatas fritas, que hoje tem reunião com o Chefe pra tratar das obra do IL”.

A Polícia Federal ainda só não descobriu quem são Cheesburguer e Batata Frita.

2.
Polícia Federal diz que Lula, vulgo “Brahma”, deve ser investigado “com parcimônia”. Com um apelido desses, eu acho que devia era partir pra cima sem moderação.

3.
João Santana, vulgo “Feira”, elegeu seis presidentes e se casou sete vezes. Ou seja, tem seis ex-mulheres. Escolha errada é com ele mesmo.

4.
Evo Morales (a exemplo de Cristina Kirchner e Nicolás Maduro), também foi derrotado nas urnas e perdeu a boquinha de se perpetuar no poder. Segundo ele, a culpa não foi do seu autoritarismo, nem dos escândalos de corrupção, mas das redes sociais.

Taí uma boa desculpa pra “Gerentona” usar no discurso de despedida, no dia da cassação do seu mandato.

5.
A esperança do Planalto para abafar a repercussão da prisão do Feira, vulgo “João Santana”, é que as investigações da Lava Jato despejem na praça pelo menos uma dúzia de novos escândalos esta semana, entulhando as manchetes dos jornais e dispersando as atenções.

Nem que para isso seja necessário botar focinheira no Ministro da Justiça, de modo que ele deixe a PF e o Moro trabalhar em paz por uns dias. Assim que o furacão passar, eles soltam o Cardosão de novo.

6.
A Companheira Wanda, vulgo “Dilma Rousseff”, não participará da propaganda do PT, que vai ao ar hoje. Não gravou nenhum pronunciamento porque está “com a agenda cheia”.

Eu também não vou ver. Estou com o saco cheio.

Recapitulando…

 

Vamos recapitular:

A Dilma não sabia das roubalheiras na Petrobras.
Compravam refinaria enferrujada bem debaixo do seu nariz, e ela não dava fé.
Desviavam bilhões e ela nem tchuns.

Ela é honesta.
Gerentona.
Bigode grosso.

O marqueteiro dela recebeu sei lá quantos milhões por debaixo dos panos.
Tinha conta no exterior, offshore, o escambau.
Fazia campanha na Venezuela, no Peru, em Angola.
Com a Odebrecht e o BNDES por trás.
E Dilma nem aí.

Ela é honesta.
A caçadora de malfeitos.
Faxineira da ética.
Coração valente, estômago de avestruz.

Eleita à base de mentiras, com dinheiro roubado.
Eleita não pra governar mais 4 anos, mas pra empurrar pra debaixo do tapete a sujeirada dos últimos 12.

Perdeu, playgirl.

Os tesoureiros de campanha estão presos.
O marqueteiro da campanha está preso.
E a campanha, não tem nada de errado com ela?

Se alguém no TSE tiver um pingo de vergonha na cara, um mínimo de apreço à própria biografia, a chapa Dilma & Temer não terá como escapar da cassação.

A única chance de o PMDB não ir ao fundo, num aconchegante abraço de afogado com o PT, é cassar Dilma antes que o TSE o faça.

Vão-se os anéis, os dedos, as mãos, os braços, mas ficam os ombros.

O chefe e a madame perderam o cafofo com elevador privativo e o refúgio com pedalinho.
Dilma Rousseff, a mata-mosquita, perde o palácio. O tapete vermelho. O séquito carregando sua bolsa e o mucamo com o guarda-sol protegendo seu topete.

Como sempre, no Brasil, será feita uma transição pacífica. Pedro I rompendo com João VI para que a família não perca o trono. Aureliano Chaves com um pé na última nau da ditadura e outro no cais da democracia. Itamar pulando do avião do Collor com o paraquedas do FHC. Temer fazendo a ponte para o futuro com o entulho em que ajudou a transformar o país.

Mais uma vez, a gente mudando tudo para não mudar nada.

Mas temos que comemorar. Chegamos a tal ponto que trocar seis por meia dúzia é lucro.

Cidade imaginária, cheia de encantos mil

 

Sinto que minto quando digo que moro no Rio. Não moro. O Rio de Janeiro é um lugar imaginário, uma Macondo, Terra do Nunca, Nárnia, Oz, Pasárgada, Eldorado.

Sequer moro, geograficamente, naquilo que se convencionou como sendo o Rio – meu endereço fica na Barra. E morar na Barra e dizer que mora no Rio, convenhamos, é comer sardinha e arrotar salmão, sobrevoar a Albânia e dizer que conhece a Europa, esbarrar com a Grazi no shopping e sair falando que se encontraram (no meu caso, nem chegou a ser um esbarrão, mas ela sorriu – se bem que ela sorri sempre).

Um conhecido veio morar no Rio e se frustrou, porque esperava ouvir bossa nova ao caminhar pelo calçadão de Copacabana – e tudo que ouvia era o barulho dos carros. Sugeri que usasse fones de ouvido, mas a ilusão já se perdera. Copacabana era mais Copacabana (era mais real) na imaginação.

O Cristo, por exemplo, é minúsculo. Tem o tamanho de uma estátua, quando deveria ser maior que o próprio Corcovado (que é, afinal, apenas seu pedestal). Não é sequer visível da Lua, como a Grande Muralha e o Rio Amazonas. Pensando bem, não é visível nem de Madureira.

O Maracanã é só um estádio (agora ainda menor, com a reforma). Não lembra em nada o coliseu que abrigara batalhas (como a final contra o Uruguai) e que me parecia maior que a própria Baía da Guanabara naqueles filminhos do Canal 100 que eu era obrigado a assistir cada vez que ia ao cinema (e eu ia muito). Ali havia sempre um torcedor fanático, com a camisa do Flamengo, sorrindo desdentado para as câmeras; havia dilúvios encharcando os dribles e fustigando a geral; havia alguém com o radinho de pilha colado à orelha (o jogo narrado é mil vezes mais emocionante do que o jogo jogado no campo). Vou ao que dizem ser o Maracanã (não é) e onde está a geral? cadê os radinhos? os desdentados? o câmera do Canal 100? os 100 mil torcedores ululando?

Passo pela Niemeyer, e procuro em vão, abandonado no costão, o corpo seviciado de Cláudia Lessin. Saio do Rebouças e à minha frente se estende, intacto e engarrafado, um Paulo de Frontin que não se parece em nada com o que me aterrorizou na infância, jazendo em pedaços sobre ônibus e fuscas esmagados.

O bondinho não balança, subir ao Pão de Açúcar dentro dele não é nenhum esporte radical, nada que lembre o duelo de 007 contra o Dentes de Aço (e o foguete da morte). É só um viajar engaiolado, elevador panorâmico que corre na diagonal.

Nas favelas não há Marias de lata d’água na cabeça, não há barracões de zinco com estrelas salpicadas pelo chão – o que se ouve quando a noite escurece é funk, não a ave-maria.

Ok, os Arcos da Lapa estão lá, mas sem Madame Satã. A Cinelândia tem mais manifestantes que travestis, mais templos evangélicos que cinemas. Em Ipanema as pessoas correm, pedalam, zunem nos seus skates e patins, sem sombra do doce balanço a caminho do mar.

Procuro o bonde de Santa Teresa (não há, há só os trilhos). A Praça 11, e só há o trânsito. A Praça Mauá, e só há obras (onde foram parar os marinheiros, os inferninhos, os cafetões de cigarro no canto da boca e São Jorge pendurado no peito?).

Só o que bate com a ideia que eu tinha do Rio é o Leblon. Como uso óculos, ninguém ali nunca olhou mesmo pra mim.

Ler ou não ler, eis a questão

 

Meu amigo Zé Antunes desistiu de ler jornais. Prefere não saber das coisas palpitantes que em meia hora não terão mais valor nenhum. São assim as notícias: nos excitam durante o café da manhã e no dia seguinte só prestam para embrulhar peixe na feira ou forrar gaiola de passarinho.

Eu, não. Eu gosto dessas coisas inservíveis que os jornais (e as revistas, e os portais, e os telejornais) nos servem diariamente. Dessa cultura inútil. Desse amontoado de não-fatos, não-personagens, não-histórias. Das intrigas, das entrelinhas, do banal. Há uma canção que diz que o mais importante do bordado é o avesso. O importante da vida é seu avesso também – suas desimportâncias.

Nos últimos dias, fui informado de coisas que nunca me fizeram falta, e morreria sem saber delas sem que isso tornasse minha vida mais (ou menos) vã.

Susan Sontag fez um comercial de vodca. Cássia Kis dormiu em banco de praça por não ter onde morar. Juscelino Kubitscheck era cigano. Diz-se que os 30 anos são a idade da razão porque é de 30 anos a órbita de Saturno. O pai da Maitê Proença matou a mãe dela e depois se matou (a Maitê tinha 12 anos).

Nada disso altera minha vida, enriquece minhas conversas, me faz ganhar mais dinheiro ou chegar mais rápido aos meus compromissos. Mas assim como é a mão invisível dos segundos que escava na surdina rugas no meu rosto, me enferruja as juntas e desfoca a visão, são essas partículas subatômicas da verdade que vão dando forma à minha compreensão (ou incompreensão) do mundo.

Uma mulher bela como a Maitê ter sempre dado muito mais valor ao intelecto que aos dotes físicos parece agora ter a ver com essas perdas – sabe na carne como a carne é efêmera. E o notório desapego da Cássia Kis à vaidade, à juventude, e sua personalidade áspera, quem saberá se não vêm também da aridez dos tempos difíceis, das couraças que teve que desenvolver para não sucumbir? Olho-as com outros olhos agora – vejo as mesmas mulheres, só que sob outra luz.

Todos têm um preço. Por dinheiro, Pelé anunciou remédios inócuos, Gerson vendeu cigarros, Giselle Bündchen finge que usa Pantene, Flávia Alessandra simula comprar na Leader Magazine, Roberto Carlos sorri diante de um bife. João Gilberto fez propaganda de cerveja, Gorbachov fez reclame de pizza e da Louis Vuitton. Susan Sontag, um dia, deixou a filosofia e a polêmica de lado, e foi vender vodca. Vender-se (vender a própria imagem) pode destruir algumas biografias – e humanizar outras. E é, no mínimo, curioso reler essas personalidades através de detalhes periféricos como esses.

Será que o sangue nômade de Juscelino é que o teria feito levantar acampamento e mudar a capital para Brasília? Se Saturno, o deus soturno, que devorou os próprios filhos, girasse mais rápido, amadureceríamos também um pouco mais cedo? Jamais saberemos.

Ah, sim: Clarice Lispector nasceu para curar a mãe de uma doença (sífilis), adquirida num estupro. E foi apaixonada por um escritor gay, a quem ela queria “curar” da “doença” da homossexualidade. Saber isso não muda nada. Ou muda tudo?

Três pequenas reflexões sobre ser ateu

 

1.
Uma nova moda (ou onda, ou praga) ganhou força no Rio (talvez no Brasil todo), o “vai-com-deus”. Em qualquer despedida, ou mesmo na saída do supermercado, do posto de gasolina, é quase inevitável ouvir a frase.

Ok, “adeus” já tinha esse significado (“a Deus”: que Deus te acompanhe, a Deus te recomendo), mas como soa estranho (e pega mal) o frentista ou o segurança dizer “adeus” a quem ele nem conhece, o “vai-com-deus” caiu nas graças do povo.

Fico pensando no que diria um evangélico a alguém que se despedisse dele com um “vai com Xangô”, ou um muçulmano em relação a um “vai com Jeová”.

Tenho vontade de dizer “fique você com Deus: eu sou ateu”, mas ia comprar briga. Ou pelo menos receber o mesmo olhar que Belzebu receberia, se existisse e se materializasse diante de um crente. De mais a mais, reagir como um neopentecostal ou um fundamentalista islâmico não é referência de comportamento.

Agradeço, e deixo quieto. E se Deus vai comigo, vai quieto também. Não diz um A.

2.
Meu ateísmo é sempre posto à prova: aproveito ou não o feriado de Natal, de Corpus Christi? Numa nação laica, datas religiosas seriam comemoradas (religiosamente, eu suponho) apenas pelos que tivessem algum motivo para fazê-lo. Os demais tocariam a vida.

Não aqui, onde o Catolicismo deixou de ser oficialmente a religião do Estado para continuar a sê-lo de fato: nas cédulas que insistem que Deus seja louvado, nos crucifixos onipresentes em repartições públicas, nos feriados em que o país para pra, teoricamente, celebrar o nascimento de Cristo, o corpo de Cristo, a mãe de Cristo, a paixão de Cristo.

O que fazem os não-católicos (aproximadamente 70 milhões de almas – ou não-almas, talvez) nesses dias ditos santos? Vão à praia, vão pescar, visitam a sogra, arrumam a casa, lavam o carro na calçada… Ou seja, mais ou menos o mesmo que faz a maioria dos católicos.

Para que, então, feriados religiosos – ou melhor, feriados católicos (já que – à exceção de um Dia de Ogum, disfarçado de Dia de São Jorge – nenhum feriado comemora datas muçulmanas, judaicas, budistas, umbandistas ou cientológicas)?

3.
A palavra “ateu” me incomoda.

O que me define, talvez, não seja não crer em Deus – mas em mitologias, superstições, pensamento mágico.

Sei que toda “mágica”, por bem executada que seja, e ainda que eu não descubra o pulo do gato, é apenas um truque. E que “sobrenatural” é só aquilo para que não se tem ainda uma explicação (como não tiveram, um dia, os relâmpagos, as infecções, os terremotos).

Eu também não creio em gnomos, e nem por isso me declaro “agnomo” – ou “aduende”, “abichopapão”, “achupacabra”.

Melhor me definir por aquilo em que acredito – não sou ateu, mas racional, demasiadamente racional.