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Arquivos por dia22 22UTC fevereiro 22UTC 2016

Cidade imaginária, cheia de encantos mil

 

Sinto que minto quando digo que moro no Rio. Não moro. O Rio de Janeiro é um lugar imaginário, uma Macondo, Terra do Nunca, Nárnia, Oz, Pasárgada, Eldorado.

Sequer moro, geograficamente, naquilo que se convencionou como sendo o Rio – meu endereço fica na Barra. E morar na Barra e dizer que mora no Rio, convenhamos, é comer sardinha e arrotar salmão, sobrevoar a Albânia e dizer que conhece a Europa, esbarrar com a Grazi no shopping e sair falando que se encontraram (no meu caso, nem chegou a ser um esbarrão, mas ela sorriu – se bem que ela sorri sempre).

Um conhecido veio morar no Rio e se frustrou, porque esperava ouvir bossa nova ao caminhar pelo calçadão de Copacabana – e tudo que ouvia era o barulho dos carros. Sugeri que usasse fones de ouvido, mas a ilusão já se perdera. Copacabana era mais Copacabana (era mais real) na imaginação.

O Cristo, por exemplo, é minúsculo. Tem o tamanho de uma estátua, quando deveria ser maior que o próprio Corcovado (que é, afinal, apenas seu pedestal). Não é sequer visível da Lua, como a Grande Muralha e o Rio Amazonas. Pensando bem, não é visível nem de Madureira.

O Maracanã é só um estádio (agora ainda menor, com a reforma). Não lembra em nada o coliseu que abrigara batalhas (como a final contra o Uruguai) e que me parecia maior que a própria Baía da Guanabara naqueles filminhos do Canal 100 que eu era obrigado a assistir cada vez que ia ao cinema (e eu ia muito). Ali havia sempre um torcedor fanático, com a camisa do Flamengo, sorrindo desdentado para as câmeras; havia dilúvios encharcando os dribles e fustigando a geral; havia alguém com o radinho de pilha colado à orelha (o jogo narrado é mil vezes mais emocionante do que o jogo jogado no campo). Vou ao que dizem ser o Maracanã (não é) e onde está a geral? cadê os radinhos? os desdentados? o câmera do Canal 100? os 100 mil torcedores ululando?

Passo pela Niemeyer, e procuro em vão, abandonado no costão, o corpo seviciado de Cláudia Lessin. Saio do Rebouças e à minha frente se estende, intacto e engarrafado, um Paulo de Frontin que não se parece em nada com o que me aterrorizou na infância, jazendo em pedaços sobre ônibus e fuscas esmagados.

O bondinho não balança, subir ao Pão de Açúcar dentro dele não é nenhum esporte radical, nada que lembre o duelo de 007 contra o Dentes de Aço (e o foguete da morte). É só um viajar engaiolado, elevador panorâmico que corre na diagonal.

Nas favelas não há Marias de lata d’água na cabeça, não há barracões de zinco com estrelas salpicadas pelo chão – o que se ouve quando a noite escurece é funk, não a ave-maria.

Ok, os Arcos da Lapa estão lá, mas sem Madame Satã. A Cinelândia tem mais manifestantes que travestis, mais templos evangélicos que cinemas. Em Ipanema as pessoas correm, pedalam, zunem nos seus skates e patins, sem sombra do doce balanço a caminho do mar.

Procuro o bonde de Santa Teresa (não há, há só os trilhos). A Praça 11, e só há o trânsito. A Praça Mauá, e só há obras (onde foram parar os marinheiros, os inferninhos, os cafetões de cigarro no canto da boca e São Jorge pendurado no peito?).

Só o que bate com a ideia que eu tinha do Rio é o Leblon. Como uso óculos, ninguém ali nunca olhou mesmo pra mim.

Ler ou não ler, eis a questão

 

Meu amigo Zé Antunes desistiu de ler jornais. Prefere não saber das coisas palpitantes que em meia hora não terão mais valor nenhum. São assim as notícias: nos excitam durante o café da manhã e no dia seguinte só prestam para embrulhar peixe na feira ou forrar gaiola de passarinho.

Eu, não. Eu gosto dessas coisas inservíveis que os jornais (e as revistas, e os portais, e os telejornais) nos servem diariamente. Dessa cultura inútil. Desse amontoado de não-fatos, não-personagens, não-histórias. Das intrigas, das entrelinhas, do banal. Há uma canção que diz que o mais importante do bordado é o avesso. O importante da vida é seu avesso também – suas desimportâncias.

Nos últimos dias, fui informado de coisas que nunca me fizeram falta, e morreria sem saber delas sem que isso tornasse minha vida mais (ou menos) vã.

Susan Sontag fez um comercial de vodca. Cássia Kis dormiu em banco de praça por não ter onde morar. Juscelino Kubitscheck era cigano. Diz-se que os 30 anos são a idade da razão porque é de 30 anos a órbita de Saturno. O pai da Maitê Proença matou a mãe dela e depois se matou (a Maitê tinha 12 anos).

Nada disso altera minha vida, enriquece minhas conversas, me faz ganhar mais dinheiro ou chegar mais rápido aos meus compromissos. Mas assim como é a mão invisível dos segundos que escava na surdina rugas no meu rosto, me enferruja as juntas e desfoca a visão, são essas partículas subatômicas da verdade que vão dando forma à minha compreensão (ou incompreensão) do mundo.

Uma mulher bela como a Maitê ter sempre dado muito mais valor ao intelecto que aos dotes físicos parece agora ter a ver com essas perdas – sabe na carne como a carne é efêmera. E o notório desapego da Cássia Kis à vaidade, à juventude, e sua personalidade áspera, quem saberá se não vêm também da aridez dos tempos difíceis, das couraças que teve que desenvolver para não sucumbir? Olho-as com outros olhos agora – vejo as mesmas mulheres, só que sob outra luz.

Todos têm um preço. Por dinheiro, Pelé anunciou remédios inócuos, Gerson vendeu cigarros, Giselle Bündchen finge que usa Pantene, Flávia Alessandra simula comprar na Leader Magazine, Roberto Carlos sorri diante de um bife. João Gilberto fez propaganda de cerveja, Gorbachov fez reclame de pizza e da Louis Vuitton. Susan Sontag, um dia, deixou a filosofia e a polêmica de lado, e foi vender vodca. Vender-se (vender a própria imagem) pode destruir algumas biografias – e humanizar outras. E é, no mínimo, curioso reler essas personalidades através de detalhes periféricos como esses.

Será que o sangue nômade de Juscelino é que o teria feito levantar acampamento e mudar a capital para Brasília? Se Saturno, o deus soturno, que devorou os próprios filhos, girasse mais rápido, amadureceríamos também um pouco mais cedo? Jamais saberemos.

Ah, sim: Clarice Lispector nasceu para curar a mãe de uma doença (sífilis), adquirida num estupro. E foi apaixonada por um escritor gay, a quem ela queria “curar” da “doença” da homossexualidade. Saber isso não muda nada. Ou muda tudo?

Três pequenas reflexões sobre ser ateu

 

1.
Uma nova moda (ou onda, ou praga) ganhou força no Rio (talvez no Brasil todo), o “vai-com-deus”. Em qualquer despedida, ou mesmo na saída do supermercado, do posto de gasolina, é quase inevitável ouvir a frase.

Ok, “adeus” já tinha esse significado (“a Deus”: que Deus te acompanhe, a Deus te recomendo), mas como soa estranho (e pega mal) o frentista ou o segurança dizer “adeus” a quem ele nem conhece, o “vai-com-deus” caiu nas graças do povo.

Fico pensando no que diria um evangélico a alguém que se despedisse dele com um “vai com Xangô”, ou um muçulmano em relação a um “vai com Jeová”.

Tenho vontade de dizer “fique você com Deus: eu sou ateu”, mas ia comprar briga. Ou pelo menos receber o mesmo olhar que Belzebu receberia, se existisse e se materializasse diante de um crente. De mais a mais, reagir como um neopentecostal ou um fundamentalista islâmico não é referência de comportamento.

Agradeço, e deixo quieto. E se Deus vai comigo, vai quieto também. Não diz um A.

2.
Meu ateísmo é sempre posto à prova: aproveito ou não o feriado de Natal, de Corpus Christi? Numa nação laica, datas religiosas seriam comemoradas (religiosamente, eu suponho) apenas pelos que tivessem algum motivo para fazê-lo. Os demais tocariam a vida.

Não aqui, onde o Catolicismo deixou de ser oficialmente a religião do Estado para continuar a sê-lo de fato: nas cédulas que insistem que Deus seja louvado, nos crucifixos onipresentes em repartições públicas, nos feriados em que o país para pra, teoricamente, celebrar o nascimento de Cristo, o corpo de Cristo, a mãe de Cristo, a paixão de Cristo.

O que fazem os não-católicos (aproximadamente 70 milhões de almas – ou não-almas, talvez) nesses dias ditos santos? Vão à praia, vão pescar, visitam a sogra, arrumam a casa, lavam o carro na calçada… Ou seja, mais ou menos o mesmo que faz a maioria dos católicos.

Para que, então, feriados religiosos – ou melhor, feriados católicos (já que – à exceção de um Dia de Ogum, disfarçado de Dia de São Jorge – nenhum feriado comemora datas muçulmanas, judaicas, budistas, umbandistas ou cientológicas)?

3.
A palavra “ateu” me incomoda.

O que me define, talvez, não seja não crer em Deus – mas em mitologias, superstições, pensamento mágico.

Sei que toda “mágica”, por bem executada que seja, e ainda que eu não descubra o pulo do gato, é apenas um truque. E que “sobrenatural” é só aquilo para que não se tem ainda uma explicação (como não tiveram, um dia, os relâmpagos, as infecções, os terremotos).

Eu também não creio em gnomos, e nem por isso me declaro “agnomo” – ou “aduende”, “abichopapão”, “achupacabra”.

Melhor me definir por aquilo em que acredito – não sou ateu, mas racional, demasiadamente racional.

Pequenos vícios que doem como unha riscando o quadro negro

 

Sabe uma coisa que eu não suporto? Gente que fala perguntando e respondendo. Sabe por que? Porque é ridículo você falar como se estivesse entrevistando a si próprio. E sabe por que tanta gente tem essa mania? Isso é algo que eu me pergunto, e não consigo encontrar a resposta.

E o que acontece? Dialogando consigo mesma, a pessoa acaba falando muito mais do que se estivesse realmente conversando com alguém e, por nunca discordar de si mesma, o papo fica muito chato.

E sabe o que mais me incomoda? É que a pessoa que faz isso não se dá conta, e se você apontar a questão, ela nega. Sabe de uma coisa? Deve ser muito difícil assumir que se tem um vício de linguagem.

Tenho, também, implicância aí com essa mania de usar “aí” como se fosse vírgula. E fora do lugar! Você ouve aí no rádio, na tevê, o tempo todo, que fulano vai lançar aí um novo CD, que beltrano está ensaiando aí uma nova peça e que o país está passando aí por uma fase muito positiva. “Aí” virou complemento de verbo. Qualquer verbo. É só prestar aí um pouco de atenção, e você vai perceber aí do que é que estou falando.

Outra coisa que detesto é o sujeito duplo. O sujeito duplo ele é o seguinte: a pessoa ela fala uma coisa e sempre coloca “ele”, “ela”, “eles” ou “elas” depois do sujeito. Tipo “Jesus ele vai te salvar” ou “o Lula ele sabia de tudo”. As pessoas elas não se dão conta de que esse tipo de coisa ele é totalmente dispensável! E esse vício ele é muito fácil de pegar e muito difícil de largar.

Sabe o que eu acho? Quando você for falar aí uma coisa qualquer, essa coisa ela deve ser bem pensada antes. Sabe por que? Porque a pessoa chata ela fica aí reparando nos vícios de linguagem dos outros, e não nos próprios.

Será que essa gente aí ela não tem mais o que fazer, não?

Para maiores de cinquenta

 

Volta e meia, parte dos destroços de um naufrágio chamado Memória se desprende e vem à tona. Às vezes é uma palavra; outras, um cheiro (ou um gosto que se parece com cheiro, que a Memória é pródiga em sinestesias).

Emergiu, agora há pouco, intacto, um nome: Carl Chessman. Quem foi Carl Chessman? Onde ele, seja quem for, esteve nesses últimos 40, 50 anos? Dentro de que filme, que livro, que disco, permaneceu submerso esse tempo todo, e por que retorna agora, só o nome – sem rosto, sem história?

Não, não foi ele quem matou Bob Kennedy. Talvez tenha sido um astronauta – no fundo do mar da Memória flutuam, em gravidade quase lunar, cardumes de astronautas (Shepard, Gagárin, Glenn, Valentina Tereshkova, Komarov, Armstrong), mas Chessman não flutua com eles. Tampouco parece ter sido parceiro de aventuras de Daniel Boone, Bat Masterson, Capitão Escarlate, Will Robinson e Dr. Zachary Smith.

Chessman abre uma série de escotilhas comidas de ferrugem (o mar da Memória é salgado) e à superfície vêm dar o sheik de Agadir e a filha do califa de Bassora (uma Marieta Severo que eu não sabia ser Marieta Severo, e para mim era apenas Éden, que não podia ser – mas era – o temível Rato). E a Fera da Penha e a Noivinha da Pavuna, que eu nunca soube muito bem quem eram; e Zé Arigó e Joãozinho da Goméia, que eu não sabia onde começava um e terminava o outro; e Amaral Netto, O Repórter, exibindo orgulhoso a cicatriz aberta na mata para a Transamazônica; e Aparecida Gomide pedindo em prantos dinheiro para pagar o resgate do marido sequestrado pelos Tupamaros; e Otelo Zeloni, Renata Fronzi e Carlos Bronco Dinossauro, em sua gigante casa de bonecas; e Ted Boy, Rasputin, Verdugo, Mongol e o Tigre Paraguaio num balé aéreo que Deborah Colker só iria inventar muito depois.

Entre potes de Glostora e saias godês, cintos de calhambeque e camisas Volta ao Mundo, pronuncio de novo, em silêncio, os nomes de Albertinho Limonta e Mamãe Dolores, de Santo o Lutador Mascarado, e Piazza, Clodoaldo, Dario, Jairzinho, Rivelino; ouço o maestro Erlon Chaves e sua banda Veneno; e Don e Ravel, e Agostinho dos Santos (um dos mortos que nunca me pareceram ter morrido, a exemplo de Leila Diniz). E revejo / reouço Marília Medalha, Simonal, Vandré, Golden Boys, Maria Alcina, Tony Tornado.

Antes que Carl Chessman levante todos os mortos, e traga seu Nelo (o vigia do hotel Rubim, velhíssimo desde sempre), Cubuizé e sua amante Tirolesa, minha professora d. Zolavy (e d. Joanna d’Arc, e irmã Águeda, irmã Edwiges e sua vara de marmelo) e meu avô contando as histórias do Titanic e do dirigível Hindenburg, volto ao século 21 e vou ao google.

Carl Chessman – ou melhor, Caryl Chessman (a Memória nunca foi muito boa em ortografia) vivia na biblioteca do meu pai. Era o condenado à morte que fez a própria defesa e contou a sua história num livro (“2455 – Cela da Morte”) que devo ter lido tão logo aprendi a ler. Meu pai era a favor da pena capital – eu, não. Aos 7, 8 anos, me imaginava no corredor da morte, a caminho da câmara de gás, da cadeira elétrica, e não desejava isso para ninguém – nem para o bandido da luz vermelha, nem para Febrônio Índio malfeitor de meninos, Chico Picadinho, Fera da Penha, os subversivos da VAR Palmares, da Colina (de onde saiu Dilma Rousseff, o que me mostra que meu pai não estava de todo tão errado assim).

Acompanhando Chessman na fuga do seu degredo submarino, estão aqui comigo, agora, os protocolos dos sábios do Sião (que nunca li), os Consêlhos aos Rapazes (pregando contra o vício com o qual eu ainda haveria se sujar a as mãos), o aterrador volume de Medicina Legal e suas fotos de fetos abortados, cabeças decepadas e os dois rapazes enforcados (“pacto de morte entre anormais”), a Hygiene da Mulher, e uma edição da Pais & Filhos guardada a sete chaves (junto com uma Playboy americana e seu inquietante pôster central) em que um bebê surgia sanguinolento de uns confins da anatomia que eu não conseguia identificar (eu não tinha por que duvidar de minha mãe, que me assegurara que todos os bebês nasciam por cesariana, e ela mesma tinha a cicatriz para comprovar).

O fundo do mar, onde repousam os soçobros da Memória, esteve revolto hoje, primeiro dia do ano.

Sobre nomes e sobrenomes

 

Shakespeare se perguntava o que há num nome. E concluía não haver nada – mesmo o cheiro seria igual, fosse outro o nome da rosa. Mas e o sobrenome? O que é que faz um Orleans & Bragança e um Silva tão iguais, e tão distintos?

O nome é meu, o sobrenome é nosso. Vai além de mim, me vincula a uma linhagem, me inclui num clã. Me diz com quem me pareço, a que grupo pertenço, quem carrega meu sangue – e até com quem não devo me casar. O sobrenome é uma espécie de DNA, inventado antes de o DNA ser descoberto (ou descoberto antes de o DNA ser inventado, vá saber).

Gosto do meu Affonso. É denso, incomum, ainda mais com esse duplo F tão arcaico. É sonoro e masculino (as mulheres da família é que devem sofrer com esse acúmulo de testosterona pendurado no nome). Como uma espécie de “O gordo e o magro”, vem acoplado a um etéreo Alves, que dizem que vem de Álvares, e que tem mais de alvo que de avaro, e que combina tão bem com o Affonso que deviam vir algemados por um hífen, uma lua Alves gravitando a terra Affonso.

Não herdei, por machismo do meu pai e omissão de minha mãe, o belo Lopes de Faria que ela trouxe do berço. Lopes, sobrenome plural como Alves, deve vir de “lupus”, um lobo que teria tudo a ver com o Raposo que não herdei de minha avó paterna (também por machismo do meu avô, para quem o Alves Affonso bastaria aos filhos e netos). Perdi a chance de ter uma alcateia de lobos e raposos correndo junto do meu nome.

Com minha outra avó, a materna, morreu o Viana Leal, sobrenome que invejo nos primos de Pedra do Anta, que ainda o ostentam. Leal iria bem com o lupino Lopes, com o felpudo Raposo, e o Viana vindo dos confins de Minas teria sido o parceiro fonético perfeito para o Alves (Viana Alves, não soa bem? não lembra um vale entre montanhas, um solo de violino?).

De outra bisavó, ficaram perdidos no caminho o Medeiros, o Magalhães. O Medeiros vindo (acho) da Madeira, uma ilha no meio do Atlântico, entre Cabo Verde e os Açores, de onde vieram meus bisavós. Se não veio de lá, não importa – é de lá que o imagino vindo. Não o Magalhães, que não caberia – sobrenome gigante – numa ilhota. Magalhães vem de um estreito de gelo e fogo, de um cardume de galáxias.

Na geografia que criei, ainda criança, para os sobrenomes que não chegaram até mim, mas que são meus, estão os vales dos Vianas, as florestas dos Lopes e os bosques dos Raposos, os fortes dos Leais, as ilhas dos Medeiros, as praias dos Farias, as nuvens de Magalhães.

É lá que vivem os Alves e os Affonso, vizinhos de porta dos Ragone, dos Finamore, dos Andrade, dos Figueiredo, dos Schettini, dos Jacob, e, indo à raiz da árvore genealógica, vizinhos de todos os sobrenomes do mundo – descendentes que somos do mesmo primata (ou do mesmo Adão). O que dá na mesma, porque, voltando a Shakespeare, quer o chamemos de Adão ou Elo Perdido, nosso ancestral teria o mesmo cheiro e o mesmo polegar opositor, desceria da mesma árvore, descobriria a fogo, inventaria a roda (ou seria o contrário?) e um dia acharia que o nome não basta (porque nos individualiza), e inventaria o sobrenome (que nos une).

Sogra

 

A verdadeira vocação da mulher não é ser mãe. É ser sogra. Ser mãe é apenas um estágio intermediário, um pré-requisito, um mal necessário.

A tese não é minha – é do meu amigo Júlio Soares -, mas ninguém precisa saber disso. Afinal, não terei sido o primeiro a pegar uma genial sacada alheia e faturar em cima dela.

Quando, aos 30 e poucos, o relógio biológico da mulher a avisa que o tempo está se esgotando, não é porque em breve ela não conseguirá mais engravidar. É que talvez ela se torne sogra tarde demais, e não tenha tempo (ou energia) suficiente para realizar sua missão neste planeta, que é infernizar, em toda plenitude, a vida de genros e, principalmente, noras.

O marido, neste esquema, não é mais que um esparro, em quem ela treina as cobranças, ironias, críticas e chantagens. Ele é o esmeril onde ela afia sua vocação para a implicância. Sem ele, talvez até gerasse filhos, mas jamais chegaria à condição de sogra com tanta prática na arte de sabotar, desqualificar, alfinetar e falar mal pelas costas.

Mulheres são criaturas naturalmente competitivas. Competem com a mãe pelo amor do pai, competem com as amigas pelos namorados, competem com o futebol pela atenção dos maridos e competem com a lei da gravidade pra manter altaneiras certas partes da anatomia que tendem a despencar, inexoravelmente. Seres assim não iam entregar um filho, de mão beijada, à primeira sirigaita que passasse. Principalmente se for uma sirigaita jovem, bonita e com tudo em cima.

Nesse momento é que a mulher apresenta suas armas. A vitimização, por exemplo. Toda mulher tem prática nisso, mas ao se tornar sogra a coisa atinge o grau máximo de eficiência. A primeira punhalada é quando descobre que não será convidada para a lua de mel. Desse trauma ela jamais se recuperará – e não adianta trazer para ela uma rede de Fernando de Noronha, uma pashmina de Paris ou um cinzeiro de conchinhas de Guarapari. Coração de mãe não se engana – coração de sogra não perdoa, não esquece jamais.

Ela vai fazer questão de mostrar que se sente abandonada quando o ingrato passar o Natal com a mulher e os filhos, não com ela. E, se tiver chance, vai detonar a rabanada da nora. Deixando claro que a rabanada é só uma metáfora.

Incautos louvam as artes chantagísticas e manipuladoras da mãe judia, da mamma italiana e da mamãe mineira. Isso é porque ainda não se deram conta de que, camuflada por trás do instinto materno, quem está ali é a sogra judia, italiana ou mineira (que é a mesma coisa, só muda o sotaque). Lobo em pele de cordeiro perde para sogra em pele de mãe.

Paradoxalmente, sempre me dei muito bem com todas as minhas sogras, sem exceção. Houve uma, inclusive, a quem eu beijava muito mais do que à filha dela. Mas eu era genro – e genro não é páreo, não entra em confronto direto. Diante de um genro, a sogra é apenas uma xiita – não a radical do Estado Islâmico de adaga na mão em que ela se transforma perto da nora. Do genro, ela apenas bate a carteira – para a nora, monta um governo do PT.

A ternura advinda de ser avó não altera sua índole – apenas a torna bipolar. Aos netos, tudo – à mãe dos netos, o desdém. Se a nora não sabia fritar ovo, passar roupa ou fazer uma rabanada decente, como é que vai dominar a arte da temperatura certa do emplastro, da água do banho, o número exato de tapinhas nas costas na hora do arroto? E que não haja dúvida – mãe de verdade só tem uma: ela.

Sogra, melhor não tê-la. Mas com quem deixar as crianças no sábado, a quem recorrer na hora da tosse que não passa, de quem pegar uma joia emprestada (com a esperança de não ter que devolver nunca), de quem roubar a receita da rabanada perfeita (sem o que o casamento corre sério risco)?

Toda sogra se sabe um mal necessário. É essa a sua glória.

O etéreo pássaro da juventude

 

Você sabe que está começando a envelhecer quando passa a ter inveja dos jovens. Uma inveja tão secreta, mas tão secreta, que você nem percebe, ou finge que não percebe – e, quando perceber, nega. Mas ela está lá, incontornável. Iniludível.

Inveja de tanto cabelo, tão pouca barriga. Inveja de conseguir passar a noite se divertindo e estar em condições de uso no dia seguinte. Inveja de saber que estão fazendo tudo que você não fez nem pode mais fazer, mesmo que queira.

Para diminuir um pouco o sentimento ruim – ou, paradoxalmente, para levá-lo aos seus extremos – imagino que esses jovens de agora envelhecerão bem pior do que nós. A queda de todos os seus músculos, com tatuagens escorrendo, certamente doerá mais que o despencar da minha capacidade intelectual. As palavras já se escondem de mim, mas sei que ainda consigo achá-las, nem que seja à custa do google. E o tônus muscular, o abdome trincado, o peitoral, as coxas nodosas, onde poderão ser recuperados?

Essas mulheres de seios altaneiros, inflados de silicone, com que cara se olharão no espelho quando a lei da gravidade derrubar todo o resto, mantendo intactos os dois incongruentes hemisférios plásticos, sob a pele murcha?

As pálpebras, tantas vezes recortadas e recompostas, conseguirão forças para recobrir os olhos cansados? Os cabelos, tantas vezes tingidos e aplainados, terão a doçura que tiveram os sedosos cabelos brancos de nossos avós? Os corpos nutridos de suplementos, vitaminas, toxinas, anabolizantes, onde arrumarão combustível para a sequência final?

Sim, há a geração saudável – e essa possivelmente envelhecerá bem, e bem melhor que a nossa. Mas essa é uma minoria, essa não se exibe acintosamente nas academias, com suas malhas coladas ao corpo, suas camisas dois números abaixo do recomendado pelo bom-senso, seus glúteos maciços (essa gente não tem bunda nem nádegas, tem glúteo), seus pescoços inexistentes, engolidos pelo trapézio.

E não é só pele que vai sobrar quando essa gente desinchar, desinflar, encolher. Um cérebro praticamente sem uso, sem experiência em meditar, refletir, ponderar, articular, inferir, entender.

Neurônios sem fôlego para ir além de 140 caracteres, do copipeiste, do curtir, das frases feitas, da sabedoria pretaportê da autoajuda. Como é que essa gente vai pensar a morte, a perda, o inexorável? Como é que essa gente vai encarar a ruína da carne, quando esse seu único bem ruir?

Já cruzo com essa gente no shopping, na praia, no elevador. São senhoras com roupas de menina – travestis que não trocam de sexo, mas de idade. São homens infantis, agarrados a uma adolescência tardia, vivendo um simulacro de juventude, uma bolha.

Mas não basta aprender a lidar com a inveja: é bom cuidar para não cair na armadilha de querer ser pelo menos jovem de espírito. Melhor deixar a alma sem botox, em simetria com o corpo. Árvore que, quando não puder dar frutos, dê sombra. Quando nem sombra, que dê lenha.

O que consola é a certeza (cruel) de que também esses jovens, a seu tempo, padecerão de inveja igual.

Vizinhos

 

Vizinho de baixo:
O vizinho de baixo faz festa (muita festa), fala alto (muito alto). Grita coisas desconexas (a varanda parece ser seu púlpito, seu palco). Faz sexo com a janela aberta, com a luz acesa e sem nenhuma consideração pelos vizinhos, que certamente preferiam dormir a ouvir sua performance, os tapas estalados, os gemidos da moça que não se importa de ser chamada de cachorra.

O vizinho de baixo não atende o telefone, quando ligo pedindo silêncio. Não abre a porta quando o supervisor – relutante, mas pressionado por telefonemas de vários incomodados – finalmente resolve ir pessoalmente pedir respeito, se não aos vizinhos, pelo menos à Convenção do Condomínio.

O vizinho de baixo deve acordar tarde, se é que dorme. Nunca vi o vizinho de baixo, apenas imagino sua cara, seu riso de deboche, os olhos injetados. Na varanda, grita que tem muito dinheiro, tem milhões, e vai matar um ator da Globo.

Por causa do vizinho de baixo, frequentemente durmo com o ar condicionado ligado no máximo, para abafar o barulho que vem do seu apartamento. Devia dividir com ele a minha conta de luz.

Vizinho de cima:
Os vizinhos de cima arrastam coisas à noite. Todas as noites – e, suponho, todas as coisas. No início pensei que estavam de mudança, ainda colocando os móveis no lugar. Depois me dei conta de que talvez fossem adeptos do feng-shui, e todas as noites ajustassem a posição dos móveis, que iam mudando de lugar em função dos astros, do magnetismo terrestre, da direção dos ventos. Por volta das onze (quase pontualmente), fazem um grande barulho metálico. De olhos fechados, semidormindo, tento adivinhar que barulho é aquele. Parece um bujão de gás sendo rolado pelo chão. Ou um cilindro de oxigênio, desses hospitalares, ou mesmo uns halteres. Mas por que alguém rolaria bujões, cilindros e halteres, noite após noite, sempre às onze horas?

Os vizinhos de cima não admitem que fazem barulho. Questionados, redigiram uma extensa carta, eivada de termos jurídicos, envelopada e cuidadosamente colocada por baixo da minha porta. Após a carta, por duas noites, se abstiveram de rolar seus bujões e arrastar seus sofás, seus guarda-roupas, suas cadeiras, escrivaninhas, cristaleiras, baús e penteadeiras. Depois, talvez cansados de ter as coisas paradas em seus lugares, voltaram ao seu trabalho de Sísifo, arrastando, noite após noite, tudo que – por definição – seja móvel.

Nunca vi os vizinhos de cima. Imagino-os gordos, de óculos, ela com a roupa mais justa do que deveria, ele com os botões do terno quase estourando na barriga proeminente. São Procuradores do Estado, disseram na carta.

Não fazem sexo, até onde eu consiga ouvir. Ou o fazem arrastando móveis, para abafar o barulho. Só não sei onde se encaixam nessa teoria o bujão de gás, o cilindro de oxigênio, os halteres.

Vizinho de um lado:
A vizinha do lado é uma mulher ainda bonita, alegre. Sempre a vejo na varanda, de baby doll, nos sábados de manhã, enquanto ambos cuidamos das plantas, ou enquanto ponho roupa para secar no varal e ela fala ao celular. Sempre de baby doll. É de baby doll também que a encontro, às vezes, furtivamente colocando o lixo pra fora.

Cumprimentamo-nos e eu baixo o olhar, enquanto ela volta, célere e sorridente, para dentro de casa. É simpática, bem humorada, sempre pergunta pelos cachorros. Muitas vezes acordei ouvindo-a conversar com os cachorros, na varanda. Trata-os pelo nome, lhes dá biscoitos.

Tem uma filha bonita, que conversa com o namorado ao celular, na varanda, todas as noites. Só não a escuto quando já estou com o ar ligado por causa do barulho do vizinho de baixo. Como ela sempre conversa longamente com o namorado, nesses casos também ligo o ar no máximo, para abafar o barulho. Devia ratear a conta de luz com ela e com o vizinho de baixo.

A vizinha do lado adora incenso, axé, pagode e música de sapatão. Todas as manhãs de sábado o hall dos elevadores é invadido pelo aroma de patchuli e por ivetessangalos, zecaspagodinhos e anascarolinas. Pela fresta da porta e pela varanda, todos invadem meu apartamento – eu, que não gosto de incenso, pagode, axé ou música de sapatão, me refugio na suíte que fica do lado oposto. Mas ali, separado apenas por uma fina parede, vive o…

Vizinho do outro lado:
Só há pouco tempo conheci o vizinho do outro lado. Fazia dele uma idéia totalmente errada (o que talvez me leve a pensar que o vizinho de baixo não tem olhos injetados e os de cima quem sabe não sejam gordos, de olhar rancoroso).

Do meu apartamento, ouvia-o fazer sexo ininterruptamente, horas a fio, tardes inteiras, noite adentro, madrugada. Não fazia outra coisa na vida, suponho – já que parecia passar o dia inteiro trancado em casa, emitindo grunhidos, provocando gemidos.

Todas as noites, uma loura vinha vê-lo. Tocava a campainha, uma, duas, dez, vinte vezes. Esmurrava a porta. Eu a via pelo olho mágico, maquiada, cara de mal dormida, impaciente. Finalmente, ele abria a porta, e ela entrava, furiosa. Eu, finalmente, podia dormir (se o vizinho de baixo permitisse, se a vizinha do lado já tivesse telefonado para o namorado, se os vizinhos de cima já tivessem deixado em paz os móveis e os halteres).

Um dia, inesperadamente, abrimos a porta ao mesmo tempo, eu e o vizinho do outro lado, e me deparo com ele: octogenário, bengala, passos vacilantes, uma pilha de vídeos e DVDs na mão trêmula. Todos eróticos. Minha inveja (e que inveja!) se transformou num misto de incredulidade e pena. Ajudei-o a chegar ao elevador, descemos juntos em silêncio.

Num sábado, tocam a campainha. A loura, que eu conhecia apenas do olho mágico está do lado de fora. Pede desculpas pelo barulho de todas as noites, explica que o ex-marido, 40 anos mais velho, veio morar com ela, ele não escuta, não abre a porta. Não vivem como marido e mulher, ela me explica, olhos nos olhos, a mão no quadril, braço apoiado no batente da porta, decote de Sophia Loren nos bons tempos.

Sabe que moro sozinho, e ela também, a seu modo, é muito sozinha. Se eu precisar de alguma coisa, qualquer coisa, posso contar com ela. Enfatizou o “qualquer coisa”, ou terá sido impressão minha?

Agradeço, certo de que jamais vou precisar de nada – ainda que em certas noites em que o vizinho de baixo se entusiasma e os de cima parecem empurrar a mobília com mais fôlego, eu me lembre do decote da loura, dos seus olhos ligeiramente assimétricos pela plástica malfeita, as maçãs do rosto salientes, os lábios inflados.

Talvez o ex-marido não seja 40 anos mais velho, apenas 30. Ele deve ter abandonado o vício dos vídeos, ela agora grita com ele, o amaldiçoa, diz “ó glória!” várias vezes ao dia, indaga aos céus o que fez para merecer isso (seja isso lá o que for: o marido senil, o rosto inchado de botox, o vizinho que não entendeu seu apelo?).

O vizinho do outro lado agora ouve rádio gospel, e deixa a tv ligada, em volume máximo, a noite inteira.

Vizinho da frente:
Nunca nos falamos, raramente nos vemos. Um dia, encontro uma carta do condomínio, com queixas sobre os cachorros. O vizinho da frente alega que o cheiro dos cachorros é insuportável, pede providências, quer que os cachorros se mudem. Pergunto à loura e à vizinha do lado, nenhuma admite sentir cheiro algum. Ambas gostam de cachorro e se dispõem a escrever ao condomínio a meu favor, para que os cachorros não sejam expulsos.

Instalo um spray automático junto da porta, de modo que o corredor fique sempre perfumado (inclusive, aos sábados, o jasmim poderá se contrapor ao patchuli da vizinha do lado). Redobro os cuidados com os banhos na petshop, escrevo ao vizinho informando meus telefones, e-mail e endereço, para que se dirija primeiro a mim, antes de ir se queixar ao bispo, ou ao síndico. Não há resposta.

Logo, minha cachorra engravida, levo-os para o sítio e não voltam mais. O vizinho da frente deve se sentir vitorioso, mas agora passa por mim de cabeça baixa. Se descemos juntos no elevador, é como se a viagem do oitavo ao térreo durasse um ano.

A mulher dele, baixinha e elétrica, sorri simpaticamente sempre que me vê, mas não conheço sua voz. Não têm filhos, e arrumaram agora um cachorro desses pequenos, que latem histericamente sempre que alguém passa pelo corredor. Os outros vizinhos reclamam. Eu não. Com o ar condicionado no máximo, para me poupar da festa embaixo, da avalanche dos móveis em cima, do celular de um lado e a TV no máximo do outro, sequer ouço os latidos.

O prazer da solidão

 

Vi outro dia Maria Bethânia dizer que tem uma pena horrível das pessoas sem fé, porque vivem em solidão. Ainda estava com sua expressão de horror gravada na retina quando li, em crônica da Fernanda Torres, uma citação do Victor Hugo: “Desgraçado de quem não crê em nada”.

Desgraçado solitário que sou, morro de pena é de quem não consegue conviver com algo que é tão inerente ao ser humano: a solidão. Nascemos sós, morremos sós, e entre essa solidão primeira e a última, o máximo que conseguimos é tangenciar alguma solidão alheia – esbarrões esses a que pomposamente chamamos amor.

Estamos sós quando pensamos, quando dormimos, quando mentimos, quando fingimos acreditar nas nossas próprias mentiras. Sós na alegria e na tristeza, por mais que o espaço em volta esteja ocupado por outros corpos. Sós nos nossos parcos momentos de glória, nas nossas infindáveis misérias – sozinhos sentimos os sabores percorrerem a língua, sozinhos fazemos nossa digestão, sozinhos excretamos, dia após dia, todos os dias, no exercício cotidiano da nossa solidão.

Por mais que se ande em bando, a vida é carreira solo. Por mais que adicionemos amigos reais e virtuais ao nosso círculo, somos um ponto cercado de solidão por todos os lados.

Também a fé nos é estranha, e a descrença a nossa herança atávica. “A vida espiritual é como nadar contra a corrente: quem não avança recua”, dizia um livro de pensamentos da minha mãe. Por isso se deve ir à missa reiteradamente, e repetir as fórmulas decoradas, e estudar os livros sagrados: ao menor descuido, a vida nos provará o contrário do que está nas homilias, nas orações, nos alcorões, torás, nos evangelhos.

É preciso estar cego ao óbvio, surdo à lógica – e disso se ocupam as religiões. Quem não crê em nada está fadado a viver a realidade, à mercê das leis da Física, sem fadas, duendes, alma – pode haver desgraça maior que a Terra em sua órbita, as células e seu código genético, as galáxias rodopiando, tudo isso alheio a nós e às lendas que inventamos?

A lucidez não nos dá qualquer alívio, não amortece quedas, não insufla esperanças, não nos faz companhia. Ela nos coloca cara a cara com o Nada, com o Absoluto. Não nos tira pra dançar, não nos embriaga, não nos conforta. Criamos deuses por não sermos capazes de suportar a lucidez.

Eu não quero que nenhum amigo imaginário venha me roubar o prazer da solidão.