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Arquivos por mêsfevereiro 2016

Campos de futebol

 

Mundo afora, áreas são medidas em pés, polegadas, jardas, centímetros, metros (tudo ao quadrado), ou em acres, hectares e, na roça, até mesmo em litros (que não se confundem com os litros que medem volume).

Tal como a jabuticaba, que só tem no Brasil, só aqui temos a medida “campo de futebol”.

Brasileiro não entende quando lê que “o sítio do Lula – quer dizer, dos amigos do Lula – mede 173 mil m2”. Tem que informar depois, como quem desenha algo que está acima da compreensão da criatura: “equivalente a 24 campos de futebol”. Ah, agora, sim. É grande.

Diz o jornal que “o desmatamento da Amazônia em outubro de 2015 foi de 230 km2”. Isso é muito? Pouco? Quase a Amazônia toda? Não se desespere: quem escreveu a matéria não vai te deixar angustiado sem saber se sobrou alguma árvore em pé ou se foi só uma poda.  Tão certo quanto asneira saindo da boca de petista, o jornalista logo acrescentará: “isso equivale a 32 campos de futebol”. É, nem foi tanto desmatamento assim.

É de se espantar que ainda usemos dezenas e dúzias como referências de medida, em vez de “time de futebol”, ou seja, onze unidades. Na feira, seria comum se ouvir “moço, me dá um time de bananas” – e sempre haveria a dúvida se o feirante ia entregar onze caturras ou a Seleção Brasileira.

Populações também seriam medidas não em milhares ou milhões de pessoas, mas em torcidas. “A Alemanha, com uma população de 2,45 torcidas do Flamengo, deverá receber 0,23 torcidas do Botafogo de imigrantes este ano”.

PIBs seriam medidos em messis e neymares – menos os do Brasil e da Venezuela, cotados em riascos e guiñazus.

A medida “campo de futebol” (que, para quem prefere unidades obsoletas, é o mesmo que 7140 m2) ainda não é oficial – mas não duvide que em pouco tempo as conversões para “campo de futebol” já estejam caindo nas provas de Geometria e sendo usadas no dia a dia, não só nos jornais e na tevê.

“Vendo lindo apartamento de dois quartos,  dependências de empregada e vaga de garagem, com 0,012 campos de futebol de área privativa. Documentação em ordem. Tratar direto com o proprietário”

O mercado imobiliário logo vai começar a falar em coberturas duplex com 0,05 campos de futebol – sem informar que é campo de futebol salão.

E não demora vai ter arquiteto sendo levado ao Procon porque fez proposta de trabalho cobrando o projeto a R$ 0,0025 por campo de futebol – e era campo de futebol de botão.

 

Empoderation now!

 

Empoderation

Empoderar as mulheres é só o começo.

Depois vamos ascendenciá-las, extraordinarizar suas virtudes e ensupremaciar seus talentos.

Porque se não impulsionalizarmos as mulheres, terá sido vã a luta no sentido do enregaliamento da fêmea oprimida em paralelo ao desreputacionamento do macho opressor.

Pujanciando o feminino, estamos competenciando essa parcela despredominiada da população.

Para eficaciar as medidas de relevanciamento, será preciso não só preponderanciar, mas proeminenciar e enmagnitudizar todas as ações feminais.

E a língua portuguesa que se enfodeça.

Notícias do front

 

1.
O castelo de cartas montado pelo Sérgio Moro começa a desmoronar, com a constatação de que “Feira” não era o Santana, mas a mulher dele, a sorridente Monica Moura. Ela é que era a “Feira” do Santana, captou?

Com essa prova cabal de incompetência, o zeloso Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo deve vir com a faca nos dentes e sangue nos olhos para extinguir a Lava Jato e botar toda a PF para investigar o que realmente importa para a erradicação da corrupção no Brasil, que são os 3 mil acarajés que FHC mandava para a ex-amante no exterior.

2.
A secretária da Odebrecht, d. Maria Lúcia Tavares, jurou diante do Sérgio Moro que o “acarajé” de que falam os executivos da empresa são acarajés mesmo, não pixulecos.

“Você consegue me fazer chegar mais 50 acarajés na quarta-feira à tarde, por volta das 15 h, no escritório da OOG, no Rio? Estou no México, mas chego de volta na quarta. Grato e abraço” (Roberto Ramos, executivo ligado à Odebrechet, ao Hilberto Mascarenhas, diretor da empreiteira)

O cara tá no México, só chega na quarta, mas encomenda – ao diretor de uma grande empreiteira! – 50 bolinhos de feijão fradinho descascado, moído, temperado com sal e cebola ralada, tudo muito bem batido, frito no azeite de dendê, recheado com vatapá e servido com pimenta-malagueta, camarão seco e vinagrete.

Ramos ainda pergunta se no Rio tem alguma “bahiana” (sic) de confiança. Mascarenhas responde que pode entregar os bolinhos onde o solicitante quiser, “entre Rio e São Paulo”. É só avisar com 48 horas de antecedência.

Sérgio Moro, que põe maldade em tudo, deve ter achado que:
a. Ninguém come 50 acarajés sozinho. Logo, não era para consumo próprio, só podia ser tráfico.
b. Acarajé só é bom se for frito na hora. Fritar 50 acarajés às três da tarde, no escritório, ia empestear o sistema de ar condicionado e deixar até as cópias xerox cheirando a dendê por uns seis meses.
c. O sujeito não especifica se quer com ou sem camarão, quente ou frio, pra comer na mão ou picado no prato.
d. Azeite de dendê não leva 48 horas para esquentar.

3.
Os caras têm norráu para desviar centenas de milhões e não conseguem arrumar um eufemismo decente pra propina??

Será que quando o Aécio for eleito veremos empreiteiros falando em remessa de pãozim de queijo para a Suíça, entrega de leitãozim à pururuca em cédulas usadas e de numeração não sequencial, ou que o franguim com quiabo tem que estar disponível em envelope lacrado no hotel, até as 19 horas?

4.
João Dória, candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, teria pago a militantes para apoiar sua candidatura.

Sai o pão com mortandela, entra a ciabata com prosciutto di Parma.

Podem chamar de gurmetização da política, mas não deixa de ser um apigreide e tanto.

Legião de imbecis

 

1.
2016 promete ser o “ânus horribilis” de Dilma Rousseff.

O amigo de fé, irmão camarada Lewandowski deixa a presidência do STF, e entra a dona Carmen Lúcia, com aquela cara de quem mordeu pequi sem saber o que tinha dentro.

No TSE, o pequeno Toffoli deixa o troninho e e eis que chega Gilmar Mendes, sedento de justiça (ia dizer de vingança, mas pegava mal).

Antes que as luzes se apaguem, o advogado do PT que ainda preside o TSE conseguiu colocar nas mãos de uma juíza petista, a ministra Maria Thereza, todos os processos de cassação dos mandatos de Dilma e Temer.

Ela tem até maio para indeferir tudo e salvar a patroa.

Isso se o dr. Gilmar não desfizer tudo e colocar de novo o trem nos trilhos.

2.
Bons tempos aqueles em que os advogados advogavam e os juízes julgavam, imparciais, soberanos.

Eu, se fosse advogado, entrava na OAB com processo contra muitos desses juízes e ministros de tribunais superiores, por exercício ilegal da profissão.

Defender bandido sempre foi prerrogativa de advogado, não de juiz. Muito menos de Ministro de TSE, de Ministro do STF.

3.
No esforço para se reaproximar da base aliada, e tentar escapar do impeachment, Dilma se comprometeu a dar bom dia, tapinha nas costas, perguntar como vai e até fingir que prestou atenção na resposta.

Tudo isso para o PSD, PCdoB, PSD , PROS, PP (e outras combinações começadas por P dessa sopa de letrinhas que é o nosso sistema partidário) se manterem à distância do ninho dos tucanos e nem pensarem em embarcar na canoa do Michel Temer.

Dilma vai ter aula de boas maneiras na Socila e de sorriso com as dançarinas do Faustão – ou com a mulher do João Santana, que ri até sendo presa.

4.
A quem interessar possa: Umberto Eco, o grande semiólogo e escritor, era filho de Oxalá – que, na Bahia, é ninguém menos que o próprio Senhor do Bonfim.

Eu, que sou ateu e filho de Ogum, vou dar uma passadinha por lá daqui a pouco. Se der, até amarro uma fitinha rosa na grade, em homenagem àquele que se lembrou de todos nós ao declarar que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.

Assessoria

 

Quando você pensa que já bateu no fundo do poço sem fundo, vem a mulher do João Santana declarar que:

1. A grana que tem no exterior veio do Hugo Chávez (convenientemente morto) e de “trabalhos” (não esclareceu se de umbanda ou candomblé) para o José Eduardo dos Santos, presidente vitalício de Angola.

2. O dinheiro que recebeu da Odebrecht foi para a campanha da Venezuela.

3. O caixa 2 foi exigência dos contratantes.

4. A assessoria a Dilma foi feita de graça, “em razão da amizade mantida” com a Presidenta.

5. João Santana não é o “Feira”.

Cadê o Instituto Lula que não contrata essa mulher?? Ela é de enrubescer o Ruy Falcão! Mais um pouco e ela declarava que ganhava a vida honestamente fazendo chapinha em crina de mula sem cabeça.

Diário de Salvador

 

1.
Prezado Luís Inácio:

No seu pronunciamento – que (olha que coincidência!), mais uma vez, foi agendado para o mesmo horário do megapanelaço contra o governo – o senhor reclamou dos brasileiros que não acreditam no Brasil (ou que falam mal do Brasil – não deu pra entender direito por causa do barulho das panelas, apitos e buzinas).

Mais uma vez, o senhor está enganado. O brasileiro acredita no Brasil. Não acredita é no senhor, e fala mal é do senhor – e dessa senhora que o senhor colocou tomando conta do seu lugar enquanto cumpria, a contragosto, a quarentena constitucional para retornar ao poder.

O brasileiro não acredita é nas suas mentiras, nas suas lorotas e nessa lengalenga de nordestino-humilde-cuja-mãe-nasceu-analfabeta-e-desdentada, de fornecedor de milhagem para quem só andava de van ou de pau de arara.

Não se iluda, sr. Luís Inácio: o senhor e o Brasil são duas coisas bem diferentes. Eu diria, mesmo, incompatíveis. O Brasil tem jeito. O senhor, não.

2.
Começo a achar que as asas dos aviões são móveis. Não importa que poltrona eu marque, é sempre em cima da asa. Faço a reserva, e eles mandam imediatamente adaptar a asa a uma posição que me impeça de fotografar lá de cima.

Se um dia eu resolver pilotar, não tenho dúvida: a asa vai pro focinho da aeronave.

3.
Ouvido sem querer de um guia turístico que descia o Pelourinho desinformando um bando de incautos: “Essas pedras que estamos pisando eram usadas nos porões dos navios, para garantir a aerodinâmica das caravelas.”

Arrojados esses portugueses do século 16, não?

4.
Leitura matinal em Salvador (num jornal, petista paradoxalmente, chamado “A Tarde”): “Pesquisa eleitoral mostra vitória de Lula em dois dos três cenários apresentados”. Os tais “dois cenários” eram aqueles em que não há candidato tucano na disputa.

Poderiam ter ido mais fundo, e proposto vários outros cenários: um em que Lula disputa com Kim Jong Il, outro em que o concorrente é José Dirceu ou Vaccari, um terceiro contra o Maníaco do Parque e o casal Nardoni, etc. Acho que só não o fizeram porque a vitória petista não seria assim tão garantida.

5.
Baiano é alegre, cordial, falante. Menos, claro, a baiana do acarajé do Pelourinho. Essa é o caso clássico de miscasting. Vestida em trajes vistosos num lugar turístico, fecha a cara à aproximação de qualquer fotógrafo. Rosna. Esbraveja.

Algo me diz que é funcionária pública concursada, odeia ter que usar turbante e saia rodada, e preferia estar no ar condicionado, de carimbo ou grampeador em punho, destratando algum contribuinte.

Palavras

 

Não luto com as palavras (luta vã, disse o Drummond). Eu gosto delas. De algumas mais que de outras, como acontece com as pessoas, as comidas, as fases da lua.

Gosto da palavra “fracasso”. Me soa como algo que se parte fragorosamente e então despenca no abismo. Imagine um glaciar fraturado ruindo rumo ao fundo do mar. Isso é “fracasso”.
Gosto do verbo “ruir”, quase uma onomatopeia, um despedaçar, um esfarelar, um cair em si (o R do início e o R do fim, por fim juntos no mesmo pó).

Gosto das palavras que, na língua Portuguesa, traduzem com perfeição em som aquilo que nomeiam. “Perna”, por exemplo. Pode haver palavra mais carnuda? Por contraste, pense em “leg”, sua equivalente em Inglês: coisa fina, amorfa, desmilinguida, sem tônus algum. Leg. Perna. Qual te desperta desejo, vontade de apalpar?
Gosto da palavra “lábio”, que nasce com a língua tocando os dentes e termina num beijo, lábio e lábio se encontrando. Pronuncie a palavra “lábio” devagar, e sinta o balé a que ela te convida.

Discordo de quem disse (foi o Shakespeare, eu sei, mas não quero discordar de quem não está aqui pra se defender) que a rosa teria o mesmo perfume se tivesse outro nome. Não teria. A rosa só cheira a rosa porque se chama “rosa”. É o nome, que vem rasgando a garganta feito espinho e desabrocha num zumbir de abelhas, que lhe dá perfume.

Imagine se a rosa se chamasse, por exemplo, “fronha” (que é, segundo meu amigo Alberto, a palavra mais feia do idioma). “Fronha” não tem cheiro algum, é um amarfanhado de duas sílabas tronchas, que deveria designar – se tanto! – a parte menos nobre do intestino grosso. Uma flor chamada “fronha” não entraria em nenhum jardim, em buquê nenhum, em nenhum livro de Botânica. Sabiamente, ninguém deu esse nome a uma flor.

Gosto da palavra “potência”, que nasce num impulso da letra P, explode na tônica em T e se desfaz mansamente, amante saciada. Gosto da palavra “aurora”, que é o próprio Sol nascendo. E da palavra “lua”, que, a rigor, devia nomear apenas a minguante.
Gosto, autorizado pela Adélia Prado, da palavra “cu” (“cu é lindo”, ela disse, num poema). Se “bunda” é palavra redonda, roliça, anunciando abundância, “cu” é sua antítese, seu antípoda. Mínimo, conciso, acuado, oculto, monossílabo e monossilábico. Como quem não quer ser visto, nem notado. Cu.

Gosto da palavra “escárnio”, em que você ri rasgando a carne. Da palavra “punhal”, que é palavra só lâmina (como diria João Cabral).
Da palavra “abismo”, com um A numa borda, um O na outra, e no meio um I te arrastando para a profundeza. E da palavra “túmulo”, palavra mais pesada, que acumula o peso de uma vida na gravidade da proparoxítona, e nesse T abrindo a cova (cova em U), o M se amontoando sobre ela, e o L lacrando tudo.

Gosto das palavras “silêncio”, “labareda”, “península”, “orgasmo”, “atônito”, “atrito”, “impulso”, “almofada”, e não creio que seja preciso dizer o porquê. Gosto, por fim, da palavra “fim”, que começa como um sopro, dura quase nada, e se encerra nesse M que parece ir decaindo até sumir de vez.

Caso, namoro ou casamento?

 

Como saber se o relacionamento que você está tendo é caso, namoro ou casamento? A questão não é de tempo, obviamente. Pode-se ficar num caso anos a fio, ou já ser casamento em uma semana. Não se trata também de meros rótulos, até porque um caso vai continuar sendo um caso mesmo que você (ou, normalmente, a outra parte) passe a chamar de namoro – nem vai deixar de ser casamento só porque a outra parte (ou, quase sempre, você) insista que é um namorico.

Caso é quando ninguém fala de amor ou discute relação. Vocês se encontram (“e aí, tá de bobeira hoje?”) e já estão se pegando segundos depois de estar a salvo das câmeras de segurança do elevador. Ou talvez já comecem a se pegar no elevador, justamente por causa da cam.

Se você não presta contas diárias de tudo que fez e atende o telefone sem medo de quem possa estar do outro lado da linha, você está tendo um caso. Deu pra encontrar, ótimo – não deu, tudo bem, na quarta a gente se fala: isso é estar tendo um caso. Ninguém é dono de ninguém, ninguém faz cena, não há contrato de exclusividade. Vocês se gostam, estão felizes juntos e é o que importa. Não implicam com os amigos um do outro, não fuçam feicebuque alheio (ok, pesquisam, mas isso é defô) e não falam muito de si (falar pra que, se tem coisa melhor pra fazer?).

Perguntou quem é aquela pessoa que curte todas as suas postagens, botou apelido ou tirou cravo nas costas, aí já é namoro. Não basta mais encontrar quando der e ser muito bom: tem que encontrar sempre e nem precisa mais ser lá essas coisas. O que conta agora é uma certa aura de compromisso. Nada mais é desmarcado assim, sem mais nem menos. “Estou cansado”, “quero ver o jogo sozinho” ou um simples “hoje, não” estão definitivamente fora de cogitação.

No caso você goza – no namoro você sofre. Faz parte. É o charme da coisa. Você deixa o celular sempre à mão e olha o visor vinte vezes porque vai que alguém ligou e a bosta da Tim tava sem sinal. Você alimenta (na verdade, se entope de) expectativas, faz planos para daqui a dois meses, marca fotos da criatura no feicebuque e, dia sim dia não, vai naquele botãozinho de mudar de status de relacionamento, mas se controla. Ou não.

No caso, você leva escova de dente na bolsa ou um fio dental no bolso. No namoro, você esquece, cuidadosamente, a escova de dente em cima da pia (junto com o hidratante ou um pacote de camisinhas, pra não haver dúvidas de que o território tá demarcado – e que você tem intenção de voltar). No caso, vocês dormem (dormem?) pelados – no namoro, você pede uma camiseta emprestada, ou já deixa uma muda de roupa lá, pra qualquer eventualidade.

No namoro, você pede licença pra usar o controle remoto da tevê (no caso, vocês nem cogitam de ver tevê). No caso, vocês comem o que tem na geladeira (ou seja, não comem) – mas vira namoro quando você se oferece pra ir ao mercado, ou leva um tapué com uma pastinha, ou se oferece pra preparar, sei lá, um sushi, um miojo, uma lasanha de microondas. No caso, vocês transam em todas as posições possíveis – no namoro, escolhem a que deu mais certo e investem nessa.

Agora, se aconteceu de vocês irem pra cama juntos e não rolar nada, aí não tem dúvida: já é casamento. E não tem volta.

Sobre línguas mortas e moribundas

Quando se criou o Estado de Israel, decidiu-se pelo uso do Hebraico como idioma oficial, apesar de ser uma língua que ninguém mais falava no dia-a-dia. Pois o Hebraico foi revivido, modernizado e hoje é um idioma dinâmico, vibrante.

Mesma coisa se passou recentemente com o Latim, língua oficial do Vaticano. Como tinha ficado parado no tempo do Império Romano  e só era usado na liturgia, não dava mais conta de tratar das coisas do mundo moderno.

Pois foi feito um esforço e agora já se pode falar até de computação e outras contemporaneidades na língua de Nero e de Calígula.

E-mail é ‘inscriptio cursus electronici’”. “Doping” se diz “usus agonisticus medicamenti stupecfactivi”. “Fotocópia” se traduz como “exemplar luce expressum”, “basquete” como “follis canistrīque ludus”, “paraquedas” é “umbrella descensória”. Não ficou lá essas coisas, mas valeu pela tentativa.

Precisamos fazer algo assim, urgentemente, com o nosso inculto e belo Português.

O velho clichê “não tenho palavras para expressar o que sinto” deixou de ser lugar comum pra ser uma expressão literal. É preciso dar nomes, se não aos bois, pelo menos às coisas.

Como é que se diz “ônibus expresso” em Português? Viu? Não tem como. Você só vai conseguir dizer isso se falar “bus rapid transport” – ou BRT. Esse mesmo, o que está sendo implantado Rio afora (cortando-se todas as árvores da Avenida das Américas e dando um nó geral no trânsito). Só em inglês é possível designar um ônibus que anda depressa. Em Curitiba tem o Ligeirinho, mas Curitiba não conta, não é Brasil.

Como dizer “centro comercial”? Não adianta ir ao dicionário, ao google, pedir ajuda aos universitários. A língua não alcança esse nível de sofisticação – e o jeito é dizer “shopping center”. Assim como para dizer “acampamento” não há outra palavra, se não “camping”.

Suponha que você queira começar alguma coisa. Que verbo usar? É provável que, se depender do Português, você nunca comece justamente por falta de um verbo adequado. Daí as pessoas dizerem que vão “estartar”, única forma de fugir da inércia e da incompletude do idioma, que sequer possui o verbo iniciar.

Como falar das 10 mais a não ser como “top 10”? Como dizer “dieta” ou “dietético” sem a palavra “diet”? Se não fosse o Inglês nos emprestar a palavra “fashion”, como iríamos falar de moda? Como é que se entraria em forma sem a palavra “fitness”? E como, sem “games” íamos tratar de jogos?

Como os antigos falavam de crianças e adolescentes se até outro dia mesmo não temos palavras apropriadas, daí usarmos “kids” e “teens”. Que nome teria a bicicleta? Porque não foi “bike” desde sempre (devia ser triciclo de duas rodas, algo assim).

Já que juntamos recentemente um bando de linguistas para tumultuar a ortografia e acabar com o pouco que se sabia sobre o hífen, seria conveniente reuni-los de novo e pedir que inventassem palavras para suprir essas lacunas. Uma palavra para maquiagem , que não seja “make up”; uma para entrega, que não seja “delivery”, uma expressão para o novo visual em vez de “new look”.

Mas que não repitam aquele mico de querer trocar “football” por “ludopédio”. Se for assim, eu prefiro continuar com meus becapes, daunloudes e apigreides.

Gostos

 

Gosto de acordar pela manhã com o gosto do sonho ainda morno, pão saindo do forno. Gosto da realidade se despregando do sonho feito cobra trocando de pele, lagarta oleosa deixando o casulo, como um capítulo que se fecha, veículo pelo qual escapulo. Gosto de estar no côncavo de mim mesmo no lençol amarfanhado, o lençol sendo eu, e eu a entranha – estar ali, com o resto de sonho que espreguiça comigo e por algum segundo me acompanha.

Gosto de abrir as notícias entre goles de café e farelo sobre a mesa, como se a invasão da Crimeia me alimentasse e a geleia mantivesse a guerra fria acesa. Gosto das palavras se cruzando feito formigas, a História transportada nas costas, nas antenas, nos ferrões, e as pequenas antigas guerras vãs do dia a dia, pra me aquecer como o café, e eu me esquecer dos seus senões.

Gosto da cabeça do meu cão sobre meu peito, da sua pata pesando em minha mão, do seu olhar procurando o meu. Gosto de chegar da nossa caminhada e me enfiar com ele embaixo do chuveiro e seremos um só, homem cão e água, numa festa de respingos e abanos de cauda, e de vê-lo se secar ao sol, tão feliz quanto eu de nos termos um ao outro. Meu cão morreu, mas gosto de me lembrar dele assim, salgado de mar, o dorso coberto de areia, minha felicidade refletida em seu olhar.

Gosto do antes do sexo, quando todo prazer é uma possibilidade, e a perspectiva de penetrar no mais secreto me lembra que o amor é labirinto, poço sem fundo, absinto, vertigem, mar aberto. Gosto do depois do sexo, o desejo despojado de todo gesto aprendido, de toda fórmula, e o quadril já não entoa mais seu mantra, e a mão já não quer tomar para si, mas partilhar. E entre esse antes e esse depois, reinventar a roda, me encantar feito criança – pela milésima vez! – com a mesma história, que nunca é a mesma, e que não tem remédio, não tem receita, não tem cansaço, não tem medida.

Gosto de a minha língua lamber a língua de Rosa, de Pessoa, de Bandeira, e encontrar tradução para quase tudo que sinto, e para o que invento, e para o que minto, e para o que tento não dizer, e o que jamais poderei dizer de outra maneira. E nela me perder em travalínguas, aliterações, paronomásias, o som dizendo mais que o sentido. Gosto de pensar que o pensamento é linguagem, e me enredar na sintaxe como quem toca de ouvido. E supor que por isso penso assim, aos trancos, entre solecismos e sofismas, numa língua ilógica, inculta, em que nem mesmo na prosa abro mão das rimas.

Gosto de recortar o mundo em fotografias, que é uma forma de mentir sobre o que vejo – elejo o que enquadrar, o que banir das vistas. Gosto de escrever, ficar ao sol, de crer que nada no que creio exista. Andar em círculos, viver num átimo – e depois sumir sem deixar pistas.