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Arquivos por ano2016

Gênio

 

Nem que vivesse quinhentos anos eu descobriria que o ano tem 365 dias.

Podia, no máximo, intuir que tem hora que esquenta, aí depois esfria, depois torna a esquentar.
Que tem época que chove, época que não chove.
Mas daí a calcular solstícios e equinócios, e montar um calendário – com quartas-feiras e tudo -, vai uma imensa distância.

Nunca estabeleceria uma relação de causa e efeito entre sexo e gravidez.

Sexo ocorre três vezes por semana (em dose dupla aos sábados, se não estiver fazendo muito calor).
Gravidez acontece uma vez a cada nove meses, e olhe lá.
Como é que eu ia ligar uma coisa à outra?

Nunca descobriria que ostra é comestível.

Morreria de inanição, cercado de ostras frescas, moluscos, crustáceos e ovas de beluga.

Dependesse de mim, o sol estaria até hoje girando em torno da Terra – que ainda seria plana.

Os faraós teriam sido sepultados na areia, e os blocos das pirâmides estariam intactos nas pedreiras, porque eu não imaginaria como cortá-los e, muito menos, arrastá-los pelo deserto.

Id, ego e superego, pulsão de morte e inveja do pênis seriam tão desconhecidos quanto a fortuna acumulada pelo Lula.

E não é que eu não seja inteligente e observador.
Até sou, mas numa escala infinitesimal, se comparado a Copérnico, Freud, aos astrônomos maias, aos arquitetos egípcios e ao esfomeado sem noção que não só quebrou uma ostra pra ver o que tinha dentro como teve coragem de botar aquela coisa gosmenta na boca.

Definitivamente, nasci na época certa – com a eletricidade, o motor a combustão, o whatsapp e o fechecler já inventados.

Me conhecendo como me conheço, eu no máximo conheceria o fogo – mas só de vista.
E não intuiria que com aquela coisa esquisita dava pra assar uma batata ou flambar um estrogonofe.

Pode até ser que eu inventasse a roda, mas só depois que me apresentassem ao círculo.

Num mundo construído a partir da minha inteligência, não haveria alfabeto, olho mágico, grampeador, teste de DNA, subordinadas substantivas objetivas diretas ou tabela periódica.
Talvez até houvesse números – mas nunca chegaria à sofisticação dos pares e ímpares, menos ainda aos números primos, raízes quadradas, senos e cossenos, equações de segundo grau.
Pi, nem pensar.

Pra chegar à Idade da Pedra, eu ainda teria muito chão pela frente.

Por isso admiro quem olha um pássaro e rabisca um helicóptero ou um planador (eu, no máximo, desenharia um cocar).
Quem vê uma semente e resolve fazer uma lavoura (eu prepararia uma salada).

Eu tinha 45 anos quando inventaram o feicebuque.
Tive quase meio século para ter essa ideia que me deixaria bilionário e em nenhum momento nada nem parecido me ocorreu.

Ouvindo as velhinhas do condomínio tagarelando lá em baixo na piscina, penso que podia inventar a hidroginástica fora d’água, para que elas fizessem isso no sofá, sem sair de casa e sem tirar minha concentração no exercício matinal de escrever alguma coisa.

Não é nada, não é nada, pelo menos não me sentiria tão humilhado diante de tudo que a Humanidade produziu até hoje.
E olha que nem mencionei o hidrocor, o controle remoto, o sorvete de flocos, a evolução das espécies e o papel higiênico com folha dupla.

(para a Letícia Hagel)

Retrospectiva

 

Contra todas as evidências, 2016 poderia ter sido pior.

1. Dilma podia não ter sido impichada.

2. Fidel ainda podia estar vivo.

3. Lewandowski, ter mudado o regimento e se reeleito presidente do STF.

4. Cunha ainda estar solto.

5. Os nudes vazados podiam não ter sido os da Bruna Marquezine e do Paulo Zulu, mas os da Graça Foster e do Cerveró.

6. Cabral, em vez de lavar dinheiro em joias, ter investido tudo em Romeros Brittos.

7. Em vez de gradear só a orla Conde (“pra evitar que alguém caísse no mar”), a Marinha podia ter colocado grades todas as ruas (pra evitar que alguém fosse atropelado), todas as plataformas do metrô (para evitar que alguém caísse nos trilhos) e todas as praias (pra evitar que alguém tomasse sol sem protetor).

8. Zelada, Paulo Roberto, Duque & Cia poderiam ter continuado desviando verba da Petrobrás sob o olhar cúpido do Lula.

9. Podia ter havido um atentado nas Olimpíadas do Rio – e nenhum político ter sido atingido.

10. A exemplo das micaretas, a Globo podia ter inventado o Especial de Natal fora de época do Roberto Carlos, em agosto.

11. A moda das ombreiras podia ter voltado.

12. O Marcelo Odebrecht poderia ter acreditado na retomada da parceria com o Lula em 2018, e desistido da delação premiada.

13. Podia não ter havido sobreviventes no voo da Chapecoense.

14. Ou Galvão Bueno podia estar no voo – e ter sido o único sobrevivente.

15. Podíamos não ter comprovado quão canalha é o Dimenstein e quão oportunista é a sua Catraca Livre.

16. O programa do Jô podia não ter terminado.

17. Nem o da Regina Casé.

18. Podiam ter morrido não “apenas” o Prince, o David Bowie, o Leonard Cohen e o George Michael, mas também o Mick Jagger, o Bob Dylan, o Tom Waits…

19. “Aquarius” podia ter sido indicado ao Oscar – e teríamos que aguentar a petralhada comemorando a indicação até 26 de fevereiro, e, a partir do dia 27, ter que suportá-los choramingando que a perda da estatueta foi golpe.

20. Clarice Falcão podia ter feito mais clipes.

21. Ou feito só aquele, mas convidado pra mostrar pirus e pepecas seus amigos petistas – Beth Carvalho, José de Abreu, Marilena Chauí, Paulo Betti, Jandira Feghali, Paulo Henrique Amorim, Marieta Severo, Tico Santa Cruz, Alcione, Leci Brandão.

22. O vídeo de sexo oral do Alexandre Borges podia não ter sido com um travesti, mas com a Suzana Vieira.

23. Podia ter sido o Malafaia o candidato dos pentecostais à Prefeitura do Rio.

24. Ana Carolina podia ter gravado um CD com músicas natalinas.

Melhor pensar duas vezes antes de reclamar de 2016.

Natais passados

 

Dizem que o Natal é uma festa que acontece todo ano.
Não caiam nessa.
Natal acontece apenas na infância.
Depois, vida afora, é só uma tentativa – fracassada – de voltar a ter ilusões.

Dizem que celebra o nascimento de Jesus.
Outro engodo.
Celebra o pensamento mágico, a ingenuidade, a capacidade de transbordar de excitação – dons que deixamos para trás com os dentes de leite e que só vamos retomar (como farsa) nas primeiras paixões da adolescência.

Os Natais de verdade estão sempre lá atrás, repletos de ilusões perdidas e gente morta.

É para isso que os repetimos: para nos reunir de novo com os avós, os tios que nos passavam a mão na cabeça e nos davam presentes que não tinham nada a ver conosco, os agregados (Natais de verdade são do tempo em que a casa tinha agregados, uma família sem laços de sangue, mas de afeto, empregados que nos pegavam no colo, faziam nossas vontades, nos consolavam depois das surras e a quem amávamos sem a obrigação de amar).

Como celebrar um Natal sem castanhas assadas na brasa do fogão a lenha, sem nozes estouradas (para desespero de minha avó) nos batentes das portas? Um Natal sem garrafões de vinho tinto e doce (para nós, diluído em água e adoçado mais ainda), sem postas imensas de bacalhau nadando em azeite (não há mais bacalhaus com tantos palmos de altura), sem a gigantesca árvore armada na sala, com bolas vermelhas e azuis e uma fingida neve de algodão?

Não faz sentido um Natal sem o assoalho encerado da sala, e suas frestas mal calafetadas, onde se perdiam, para nunca mais, chaves e moedas.
Sem a felicidade incontida de meu avô, de branco e de chinelos, recebendo os filhos, os netos, ignorando que meio século depois haveria de seguir repetindo toda a cena, aprisionado na memória de alguém.
Sem minha avó dando ordens desencontradas na cozinha.
Sem as hordas de primos.
Sem minha mãe à beira de um ataque de nervos.

Ainda que esperem por mim, ao pé da árvore, uma piorra multicolorida, um laboratório de química, um quebra-cabeças de duzentas e cinquenta peças.
Ainda que haja rabanadas e passem o Quebra-Nozes na televisão, em preto e branco.
Ainda que, morto de sono, mal me aguente na Missa do Galo.
Ainda assim, não será mais Natal.

Porque entre os mortos que saqueiam as caixas de uvas, que tomam a bênção aos tios, que se roem de inveja do presente alheio, há um, mais morto que todos.

Os Natais, depois da infância, celebram essa morte.

Bric-a-brac

 

1.
Deve haver alguma lei universal que explique o caminhão estar sempre à sua frente, na subida, a 20 por hora – e na descida, sempre atrás de você, a 120.

2.
Este Natal está mais pra “jungle bells”.

3.
“Existem muitos lugares irrelevantes pelo mundo – como Porto Rico, a Bélgica, o Paraná – (…)”

Está no “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, do Leandro Narloch – que ensina, entre outras coisas, que Santos Dumont não inventou o avião, que o Brasil não arruinou o Paraguai na Guerra do dito cujo, que Aleijadinho nunca teve esse apelido, que os maiores traficantes de escravos eram os próprios africanos, que Gilberto Freyre admirava a Ku Klux Klan, que o samba é fruto do fascismo, que a feijoada é européia (não africana) e que o Acre é um encosto.

Acaba sobrando até para o Paraná, coitado, sempre tão quieto, tão na dele, insípido e inodoro, não perturbando ninguém – e que, por uma dessas ironias do destino, calhou de abrigar a República de Curitiba, que perturba Deus e o mundo.

4.
Será que o “Catraca Livre”, que aproveitou a tragédia com a Chapecoense para faturar com matérias sobre como as pessoas se sentem a bordo na hora de um acidente etc, publicou esta semana alguma matéria sobre os fabulosos caminhões alemães? Sobre as melhores escolas de tiro ao alvo da Turquia? Sobre o fetiche sexual que as mulheres têm com soldados inimigos nos escombros de uma cidade síria sitiada?

5.
Acho que inventei uma palavra para definir o Trump.
“Maquiabélico”.

Outro dia pensei ter inventado uma para a língua em que são feitas as letras do Djavan, o Djavanês – mas a palavra já tinha sido usada antes.

Se bobear, “maquiabélico” também já existe (em Portugal, por exemplo, onde trocam o V pelo B, e bice-bersa).

Uma hora ainda invento uma que não exista.
É só pararem de inventar antes de mim.

6.
Spoilers do especial do Roberto Carlos, hoje à noite, na Globo (prossiga por sua conta e risco!):

O Rei vai cantar sucessos velhos.
Vai receber convidados, e nenhum deles estará vestido de roxo.
Vai usar a palavra “bicho”.
Haverá fãs famosos na plateia.
Ele vai estar de azul e branco.

Mulher sapiens

 

Dilma, a mulher honesta, recebeu 50 milhões em propina da Braskem.

Ou seja, ela não era aquela anta que todos imaginávamos, única ovelha de coração valente numa alcateia de espertos sem coração.

O que supúnhamos ser uma criatura troncha, pedestre, intelectualmente indigente e incapaz de articular um raciocínio com pé e cabeça, era, na verdade, uma pessoa sagaz e refinada.

Aquelas estultícies dela eram mensagens em código.
A gente não entendia porque a gente não sabemos entender presidenta.
A Braskem entendia direitinho.

“Atrás de uma criança tem uma figura oculta, que é um cachorro” significava que, para liberação de uma determinada obra, havia um valor a ser entregue ao Vaccari..

“A galáxia é o Rio de Janeiro” era a senha para avisar que o Sérgio Cabral estava na jogada, junto com o Dudu Paes.

“Me considero hoje uma roraimada” indicava que o Romero Jucá (PMDB de Roraima) era o contato que ia pegar a grana, e repassar ao Temer, então comparsa de fé, irmão e vice camarada.

“Legado antes, durante e depois” – só não viu quem não quis – era a sinalização de que as propinas, que vinham dos tempos do Lula, deveriam continuar mesmo depois do impítimã, ou ela pegava o Marcelo Odebrecht lá fora.

“Vamos dobrar a meta” – mais claro, impossível! – estabelecia que os 5% agora eram 10%, e era pegar ou largar, que a OAS também tava interessada e a fila anda.

“Eu tô saudando a mandioca” queria dizer “Recebi a bolada combinada. Câmbio, desligo.”

“Nos transformamos em mulheres sapiens” ainda precisa ser decifrada.

Não verás país

 

Antigamente era a Europa que se curvava ante o Brasil.
Agora são os Estados Unidos.

O Departamento de Justiça da terra do Trump declarou que a atuação da Odebrecht e da Braskem é “o maior caso de suborno da História”.

Uma merreca de um bilhão de dólares indo para o bolso de políticos e executivos não só do Brasil, mas da Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, Guatemala, México, República Dominicana, Angola, Moçambique e outros menos votados.

A maior propina foi paga em Moçambique, mas a melhor relação custo x benefício foi aqui mesmo. Investiram 349 milhões de dólares em doações não contabilizadas, obras em sítios etc, e faturaram 1,9 bilhão. Melhor que narcotráfico e lenocínio.

“Maior caso de suborno da História”.

Tem coisas que só o PT faz por você.

~

O povo tanto pediu intervenção militar que a Marinha resolveu gradear a Orla Conde, no Rio.

Se insistissem mais um pouco, a Aeronáutica era capaz de interditar o Sambódromo e o Exército mandava pintar de branco os troncos de todas as árvores da Floresta da Tijuca.

~

Crivella está saindo melhor que a encomenda.

Nomeou uma tucana para a Assistência Social e a filhota do Garotinho para o Desenvolvimento.

Para a Educação, indicou um ex-terrorista. E para a Ordem Pública, o coronel que prendeu o tal ex-terrorista durante a ditadura.

Economizou uns trocados mandando o seu vice fazer dupla jornada e acumular a Secretaria de Transportes.

Botou a neta de D. Zica e de Cartola na Cultura, e para a Conservação e Meio Ambiente escolheu um pastor que acredita no criacionismo e acha que deviam ensinar Adão, Eva, maçã e cobra nas aulas de Ciências.

Agora, sim, o Rio sai da lama.

Genitais

 

A Clarice Falcão postou ontem o vídeo de um de seus jingles (ela faz jingles, que chama de “canção” não sei por que).

Com a melodia (melodia?) singela de sempre, e a letra banal de costume, canta as vicissitudes de lidar com o que tem pra hoje.

“Na minha vida já existiram
Cinquenta opções de amor
Quarenta e nove desistiram
E você foi o que sobrou.”

Pra ilustrar isso, uma série de pessoas peladas, supostamente dançando, ou pelo menos se balançando, diante da câmera.

Pronto.
É só isso.

“Não acho que o clipe seja genial, nem extremamente posicionado politicamente”, diz ela, modestamente.

Realmente, o clipe não é genial. É ruim de dar dó.
E não é nada extremamente posicionado politicamente.
É só um monte de gente branca (não tem nem um negro, cafuzo, mulato ou mameluco), a maioria com um padrão estético muito, muito distante do que poderia ser considerado atraente.
E só.

“O que ele trouxe à tona foi o quanto as pessoas têm muita raiva de ‘piru’ e de ‘pepeca’”.

Hã?
Eu não tenho raiva de piru e de pepeca.
Muito pelo contrário.
Piru e pepeca (que eu chamo por outros nomes, mas vamos usar aqui a nomenclatura clariceana) são das melhores coisas já inventadas desde o Big Bang.
Bem usados, sem moderação, podem nos dar um prazer só comparável ao de ver um corrupto ir em cana ou poder repetir pudim de leite na sobremesa.

“A minha intenção não foi chocar”.

Imagina.
Homens balançando o piru, mulheres sacudindo a pepeca, assim, a troco de nada, num jingle, ops, numa canção que fala “eu escolhi de coração / por falta de opção / mas foi você”.

“Eu sabia que ia causar algum rebuliço, obviamente, mas nunca chocar – ainda mais nesse nível. Inclusive, eu mesma estou chocada por as pessoas terem se chocado dessa forma: com o fato de outras pessoas terem genitais. Eu achava que isso já era uma informação dada.”

Sim, Clarice, as pessoas têm genitais – e a maioria delas inclusive já está relativamente bem informada disso.
Só não estão acostumadas a vê-los assim, fantasiados e festivos, num clipe tosco.

“E vejo o clipe como essencialmente artístico. É importante atentar para o fato de ter causado tanto ódio, esse é o verdadeiro fator preocupante.”

Não, o clipe pode ser tudo – mas tudo mesmo – menos artístico.
É ruim.
Primário.
Constrangedor.

Não provoca ódio.
Provoca vergonha alheia.

Não é recomendável nem para adolescentes porque pode causar queda de libido numa fase da vida em que libido é tudo.

Digamos que tenha sido uma boa jogada de márquetchim.
Algo que, antigamente, se chamava “apelação”.

Hoje tá todo mundo falando de Clarice Falcão, mesmo gente que não tinha a menor ideia de quem fosse Clarice Falcão.

É aquela moça de belos olhos, boa atriz, péssima na escolha de namorados e ótima no quesito “como chegar aos trend topics com a ajuda de pepecas e pirus alheios”.

“Que sorte você deu
Dos males o menor
Porque você é o melhor
Ou melhor, o menos pior pra escolher”

E tem uma pepeca no clipe, uma mais cheinha, que ninguém me tira da cabeça que é da própria Clarice.

Dos pirus, acho que não conheço nenhum.

O homem que sabia djavanês

 

Branca era a tez da manhã. O verde fazia do azul com o amarelo o elo com todas as cores pra enfeitar amores gris, e lá no mar alto da paixão dava pra ver o tempo ruir.

Na fronteira de um oásis, seu coração em paz, se abalou. Ainda bem que ele era Flamengo.

Quiçá, um dia, a fúria desse front viesse lapidar o sonho, zum de besouro, um ímã. Tudo o mais, era pura rotina, jazz.

“Minha Foz do Iguaçu, polo sul, meu azul, luz do sentimento nu”, murmurou, com um quê de pecado, acariciado pela emoção, na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

Havia um cheiro de amor empestado no ar, e no mistério solitário da penugem, viu a vida correndo parada.

Sua vida era sedução, frenesi. Sentia você assim – sensual, árvore, espécie escolhida, pra ser a mão do ouro, asa do seu destino, clareza do tino.

A paixão era puro afã, místico clã de sereia, era castelo de areia, ira de tubarão, ilusão. E aí tudo acelerou, acelerou, deixou desigual.

Foi como ter o álibi de ter nascido ávido e convivido inválido mesmo sem ter havido, enquanto noutro plano, te devoraria tal Caetano a Leonardo de Caprio.

O veludo da fala disse “beijo”, que é doce, som de assombração, coração. Mas era mais fácil aprender Japonês em braile que obi obá que nem zen, czar, shalon, Jerusalém, z’oiseau. Na relva rala seu arerê tombara.

– Olga Maria, vá na maresia, buscar ali um cheiro de azul, que eu arreio os meus anseios, perco o veio e vivo de memória. Se disfarce de Zeus, de Juruna, na deusa azul, enquanto o ouro do turno da tarde cair no beiral.

Era ilusão, fugir da fronteira de topázio e lã, ir até rubi. No sufoco, gritou rá, um saravá, e virou satã pra ir atrás do maledetto.

O destino, entretanto, não quis lhe ver como raiz de uma flor de lis, e ele caiu aos pés do vencedor para ser o serviçal de um samurai, sangrando toda palavra sã.

Dizem que o amor atrai. Mas do pé que brotou Maria, nem margarida nasceu.

Dias piores virão

 

2016 foi ruim. Muito ruim.
Mas 2017 promete ser ainda pior.

Não pela delação da Odebrecht, nem pela escalada do terror, ou pela colocação do arsenal nuclear americano ao alcance do dedo do Trump.

Ana Carolina vai lançar disco novo.
E resolveu regravar “Oceano”, do Djavan.

Lembram do que ela fez com a bela “The blower’s daughter”, do Damien Rice?

“Traduziu” “can’t take my eyes of you” para “não sei parar de te olhar” – e berrou isso em loop infinito.

A pessoa pode não CONSEGUIR parar de olhar.
Pode não QUERER parar de olhar.
Mas como é que alguém pode não SABER parar de olhar?

Perpetrou “versos” em língua de Tarzã (“Um vendedor de flores / Ensinar seus filhos a escolher seus amores”).

Antes, já havia cometido coisas como “revirar um sentimento revirado” no massacre de “La mia storia tra le dita”.

E obrado “vou de escada pra elevar a dor” – o trocadilho mais infame e sem noção desde meia hora antes do Big Bang.

Pelo menos não vai precisar “traduzir” “Oceano” do djavanês para o Português (a letra, paradoxalmente, em se tratando do autor, é compreensível).

Já me vejo tirando um ano sabático das rádios FM, pra não ter que ouvi-la trucidar o bardo alagoano duzentas vezes ao dia.

Se 2016 levou décadas para acabar (e ainda não acabou!), imagina 2017, com disco novo de Ana Carolina.

(Alguém conhece alguma boa clínica de criogenia, que alugue uma daquelas cápsulas de nitrogênio líquido por doze meses, renováveis por mais doze?

É que nunca se sabe se não vem por aí também um revival do Osvaldo Montenegro, um recital de poesia da Elisa Lucinda, uma peça do Gerald Thomas, um filme do Sérgio Bianchi ou do Cláudio Assis, uma novela da Glória Perez, um novo programa do Jô…)

Impedimento

 

Esta sexta feira amanheceu como quem não quer nada, mas está se mostrando bem animadinha:

1.
A Polícia Federal baixou na casa do “pastor” Malafaia.
O “homem de Deus” não tem culpa se colocam cheques de cem mil reais na conta dele pra fazer lavagem de dinheiro, tem?
Como é que ele ia desconfiar que não era o dízimo de alguma viúva aposentada, de um desempregado, de uma diarista?

2.
O Janot analisa o pedido de afastamento do ministro Dias Toffoli dos casos da Operação Custo Brasil (aquela do Paulo Bernardo e da Gleisi Hoffmann).
Tudo porque o ex(?)-advogado do PT seria “amigo íntimo” de um dos envolvidos, com direito a encontros fora do expediente – e nem por isso se julgou impedido de julgar o caso.

3.
Cabral vira réu em outra ação da Lava Jato.

4.
Cunha vai sair da carceragem da Polícia Federal.
Direto pra uma penitenciária comum – a mesma onde o aguardam os amigos José Dirceu, João Vaccari etc.

5.
Alckmin declara que eleição do Aécio para presidente do PSDB “é golpe”.

6.
Acaba (ufa!) o Programa do Jô.
R.I.P.

7.
Um jornalista da Al-Jazeera perguntou à finada Dilma Rousseff se, no caso da Petrobrás, ela sabia da roubalheira – e era cúmplice – ou não sabia de nada – e era incompetente.
Ela, claro, subiu nas tamancas.
Afinal, ele não lhe deu a chance de dar a resposta certa, que era “todas as anteriores”.

Por essas e outras é que ela detestava dar entrevistas.
Por causa das perguntas.